Ao vislumbrar o mover das peças do jogo sucessório, é inevitável associar o cenário pré 2002 ao final do governo Sarney. Naquele tempo, a despeito de aspectos extremamente positivos como o da manutenção da atividade econômica e do nível de empregos, prevalecia o descontrole inflacionário que ditava o ritmo da incerteza e da instabilidade.
Hoje, apesar de uma certa estabilidade monetária e de uma inflação baixa vivemos uma forte recessão, queda no nível de emprego e o aprofundamento da desigualdade social, caracterizado por uma maior concentração de renda.
O ponto de intersecção entre os dois cenários é a falta de candidatos dispostos a defender as atitudes e políticas do governo federal em curso, criando um clima de melancólico fim de festa.
Ao que parece, esse final de governo Fernando Henrique poderá estabelecer um desfecho ainda mais preocupante e desolador. Vide o comportamento dos próprios pré-candidatos do partido do presidente, o PSDB, cuja busca da indicação se dá à luz de um discurso crítico em relação ao modelo econômico atual, com ácidas considerações sobre as decisões cotidianas do ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central.
O que outrora era coisa de jurássicos e neobobos passa a ser verdade para os próprios governistas, que foram fiadores durante oito anos da política econômica e agora tentam se apropriar das teses dos que, como nós, sempre alertaram para o radicalismo neoliberal do governo FHC - simbolizado pelo desguarnecimento do Estado e pela abdicação do papel de formular políticas públicas (industrial, agrícola etc) - cuja conseqüência mais grave foi o enfraquecimento do País no concerto internacional e comercial das nações.
Fica um alerta ao presidente Fernando Henrique: dê uma guinada nesta malfadada política econômica, seguindo exemplos de gente nada heterodoxa como Alan Greenspan e Joseph Stiglitz que apostam na reativação econômica, via políticas públicas, como saída para a crise, para que a sua herança seja um pouco mais leve para o País.
Parece estranho para um oposicionista fazer considerações dessa natureza. No entanto, faço-as na condição de quem não deseja o quanto pior melhor e de quem acredita que o sucesso eleitoral da oposição não passa por um cenário de terra arrasada, mas por teses consistentes baseadas no trinômio estabilidade, desenvolvimento e combate às desigualdades sociais e regionais.
(*) Arnaldo Jardim é deputado estadual.