O feriadão da República obrigou-me a incursões mais demoradas pela internet, à leitura de jornais e revistas diferentes e exposições mais demoradas diante do écran da televisão por cabo. A certa altura resolvi dar um clique em tudo para não endoidar. Conclui que uma das grandes pragas modernas é o excesso de informação. Gostaria de estar hoje no Afeganistão para estudar se os efeitos da proibição de acesso aos meios de comunicação imposta pelo regime Taleban fez alguma falta aos cidadãos daquele país. Após a tomada de Cabul pelas forças contrárias, a televisão mostrou alguns gatos pingados que decidiram fazer a barba ou ouvir rádio. Jovens fazendo maquiagem mas, a maioria das mulheres ainda cobrindo-se da cabeça aos pés, fiéis aos princípios do Islã.
Acreditei um dia que o grande volume de informações disponíveis em veículos que estariam em princípio ao alcance de qualquer indivíduo representaria a democratização do conhecimento e, portanto, estímulo decisivo ao desenvolvimento da cidadania, à mitigação das desigualdades sociais e assim por diante, abrindo uma nova era para o progresso da humanidade. Ah, inocente fui. Amei o homem errado. Nos anos 60, a era dourada, McLuhan encantava os jovens com seus ditos proféticos. Previu que a saturação da informação iria afetar nossa relação com o ambiente, com a cultura, com o mundo profissional e com a família. Enxergou longe, mas só o lado bom. Quando conceituou que o meio é a mensagem, MacLuhan queria dizer que os meios de comunicação nos influenciam, não pelo que apresentam, mas pela maneira como apresentam. Para ele a linguagem dinâmica dos comerciais e noticiosos da televisão, tipo metralhadora de cortes, iria alterar as percepções das gerações seguintes. Só que o comunicólogo canadense achava que essa alteração seria para melhor. As besteiras difundidas pela televisão, o mundo cão dos Ratinhos, nada disso era importante. A televisão era um veículo frio, dizia ele, imune a conteúdos. O que importava era a forma com que ela era feita - o meio era a mensagem. O futuro diria.
Pois bem, o futuro disse. Vemos hoje uma maioria de jovens educada pela metralhadora de cortes do clipe, estilo acoplado à música, que se transferiu para os jogos eletrônicos, para os shows ao vivo e para o próprio cinema. Tudo que exija uma atenção linear torna-se inevitavelmente chata. Um livro precisa ser lido linha a linha, da esquerda para a direita, do alto para baixo - logo é chato. Se o professor não se utilizar do timing da televisão, com intervalos a cada dez minutos para uma piada ou para brincar com os cabelos encaracolados da Mariazinha, jamais será ouvido. Nas revistas e nos jornais os textos estão cada vez mais sufocados por uma mixórdia de ilustrações, vinhetas e outros recursos gráficos. A maioria dos jovens, filhos do videoclipe desde a primeira chupeta, submetidos desde então a imagens e sons em alta velocidade, deixou de ter paciência para tudo que não tenha ritmo alucinante e exija concentração. No jornalismo, se você ultrapassar certo número de toques ou não for considerado digestivo, aparece um subeditor de oclinhos para cortar o texto, sem dó nem piedade. Faz-se a síntese pela extinção pura e simples. Com sua cabeça de 1968 McLuhan (morreu em 1980 aos 69 anos) não veria nisso um mal. Sua argumentação era a de que a resultante dessa nova sensibilidade não poderia ser medido pelos parâmetros da velha sensibilidade. Mas o raciocínio é perigoso porque lembra a justiça dos tribunais de exceção.
Hoje querem fazer psicanálise por meio da internet. Outros pretendem fazer do ciberespaço um templo, um espaço sagrado. Há pouco tempo o Vaticano decretou que não é lícito aos católicos confessar-se pela internet, pois a confissão requer o encontro direto com o sacerdote, exigência visual e acústica que talvez Jacques Derrida interprete como um resíduo fonocêntrico da velha metafisica da presença. Modernamente todo mundo quer sintetizar. Até as seitas religiosas vendem soluçõesacabadas para os problemas humanos. Só falta resumir a Nona Sinfonia de Beethoven e Madame Bovary.