09 de julho de 2026
Geral

País está entre melhores da propaganda

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 8 min

Publicitário Valdir Binchi disse que o Brasil conta com excelentes profissionais. Crise abala o setor, mas não é desastre.

O publicitário bauruense Valdir Binchi esteve em Bauru recentemente ministrando uma palestra para estudantes da Universidade Paulista (Unip) com o tema: Criação não depende de dinheiro ou lugar. Durante o evento, Binchi explicou que equipamentos, atualmente, são baratos e o que mais importa no mercado é a criatividade do profissional.

Envolvido com o mercado na área de criação, Binchi já trabalhou nas maiores agências de publicidade do Brasil, incluindo a Salles, DPZ, FCB, entre outras. Ele também já ganhou vários prêmios internacionais e, atualmente, é diretor geral de criação da Carillo Pastore Euro.

O publicitário destacou o Brasil como um dos três países mais bem sucedidos na área de propaganda. Isso porque, além de contar com excelentes profissionais, já tem seu nome fixado lá fora através de grandes personalidades que muito fizeram dentro da área de publicidade.

Em entrevista ao JC, Binchi alertou os profissionais de Bauru para que se voltem ao prêmio Profissionais do Ano, categoria Interior, que, de acordo com ele, não é difícil e a agência que conseguir colocar no ar um filme legal, com criatividade, conquista o prêmio. Binchi disse que esse é um prêmio muito importante para a região, já que além de tudo, gera negócio.

Jornal da Cidade - Como você analisa os investimentos do Brasil na área?Valdir Binchi - Esse ano não foi um ano bom. Nós pegamos muitos problemas como o apagão, Bin Laden e crise da Argentina, mas mesmo assim o mercado se manteve, não se deixou abater por isso.

JC - Essas crises então não abalaram o mercado na área de publicidade? Seguiu estável?Binchi - Abalaram, mas não foi um desastre. Por exemplo, o apagão: todos acreditavam que seria um desastre para a economia brasileira e, no entanto, não mudou muita coisa. O fato do dia 11 de setembro nos Estados Unidos também não mudou o dia-a-dia do mercado.

JC - Na sua opinião, por que o mercado consegue se manter mesmo diante das crises?Binchi - Não sei se o brasileiro já está calejado, sempre tem uma desgraça acontecendo, mas o povo não deixa se abater por isso. Essas coisas não fazem com que o mercado pare.

JC - Quais são os segmentos, no Brasil, que mais investem em propaganda?Binchi - A indústria automobilística é um segmento que investe muito, ainda mais com essa abertura de importadoras que aumentou a concorrência. A indústria de alimentos e o varejo também investem bastante.

JC - Parcerias entre agências do Interior com outras agências são positivas, na sua opinião?Binchi - Isso é ótimo, porque é estratégico para uma agência e também para o cliente haver esse tipo de parceria. Ás vezes o cliente tem uma loja na Capital, outra no Interior.

JC - Falando um pouco do tema da sua palestra, como se produz uma campanha com custo baixo? E a tecnologia não demanda um certo investimento?Binchi - Para a mídia impressa, a tecnologia é zero, precisa-se de uma idéia e de um computador apenas. É aquela velha história do Glauber Rocha: é uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, isso vale hoje para a propaganda. Você tendo uma idéia na cabeça e um computador na mão, você consegue realizar muito e em qualquer lugar.

JC - E na mídia eletrônica?Binchi - Na mídia eletrônica também. Se você souber aproveitar os recursos que você possui, você pode criar um comercial surpreendente.

JC - O valor é para o capital humano?Binchi - Exatamente. O material humano, hoje, é o mais importante, porque equipamento está cada vez mais acessível e mais barato, então o que vai diferenciar são as pessoas.

JC - Quais as campanhas que você realizou que, na sua opinião são as melhores?Binchi - São várias as campanhas que eu gosto. Fiquei muito feliz com a campanha da Kombi, com a qual eu ganhei o prêmio Profissionais do Ano da Rede Globo de Televisão. Fiquei muito feliz também quando ganhei com a campanha do Visa o prêmio Abril. Há pouco tempo fiz uma campanha para a Cesars (comida para cachorro), que é um comparativo de donos com cachorros, uma campanha de mídia impressa que eu gosto demais.

JC - E as piores campanhas?Binchi - As piores a gente sempre esquece...por incrível que pareça não me lembro de nenhuma campanha que possa ter sido a pior.

JC - E os investimentos nessas campanhas que você citou, foram baixos?Binchi - A de Cesars foi. A do Visa foi razoável e a da Kombi foi um filme normal.

JC - Você usou então sua criatividade e investimento baixo? E os resultados são positivos?Binchi - Exatamente. Toda a campanha que eu fiz para a rádio Jovem Pam teve custo praticamente zero. E foi uma campanha que deu um resultado positivo surpreendente também.

JC - Como foi o período de criação da campanha da Cesars?Binchi - O motorista da agência que eu trabalhava era um cara muito simpático, muito engraçado e eu olhava para ele e o via com cara de cachorro, mas não no mau sentido, era uma associação. Um dia eu estava folheando uma revista e vi um boxer e vi que esse boxer era parecido com o Mário, que é o motorista, então eu coloquei a foto do Mário ao lado do cachorro e percebi que essa imagem tinha uma força surpreendente. Nós tínhamos esse cliente e a partir daí começamos a pesquisar pessoas parecidas com cachorros e cachorros parecidos com pessoas e foi um trabalho muito divertido, muito gratificante.

JC - Qual o seu método de criação?Binchi - O melhor método de criação é o prazer de criar. Quando você gosta de fazer aquilo que você faz, principalmente para quem trabalha em criação, esse é o principal método. Se você gosta, você está sempre atento e, conseqüentemente, faz bem. Tem uma fórmula que é se você puder trabalhar, estudar e se divertir ao mesmo tempo, é fundamental. Então hoje, no meu trabalho, todos os dias, eu estou trabalhando, aprendendo e me divertindo. Essa é a fórmula perfeita.

JC - Como você classifica os profissionais de propaganda que estão chegando no mercado?Binchi - Hoje tem muita escola de comunicação no Brasil. Isso é bom porque cada vez mais os profissionais vão ter que se qualificar. O cara que sai hoje de uma faculdade de comunicação, tem que estar muito bem informado, tem que se preparar muito e, se quiser trabalhar na área de criação, ele tem que fazer um portfolio extremamente competitivo. Aí sim ele vai ter chances no mercado.

JC - Ele tem como estar trabalhando enquanto ainda está cursando a faculdade?Binchi - Se ele conseguir algum estágio, sim. Aqui em Bauru tem várias agências. Eu não sei como funciona o estágio aqui. Em São Paulo é complicado porque estágio é espaço. Um estagiário precisa de mesa, precisa de computador, precisa de tudo e, hoje, as agências, têm muito problema de espaço interno. Então não dá para uma agência contratar muitos estagiários, no máximo uma ou duas duplas.

JC - Um publicitário tem que ter um repertório cultural?Binchi - Tem que ter um repertório de informação. Cultura ajuda muito, mas freqüentar feira, estádio de futebol, boteco, tudo isso é fundamental porque é aí que está o povo e o publicitário tem que estar onde o povo está e é onde o povo está que você sempre encontra alguma coisa surpreendente.

JC - É mais difícil criar ou negociar com o cliente?Binchi - Uma coisa leva à outra. Uma boa idéia é mais fácil de negociar com o cliente, uma má idéia é mais difícil negociar com o cliente. Eu acredito que quando você tem uma idéia boa, você se incorpora tanto nessa idéia que você acaba convencendo o cliente.

JC - E é fácil convencer um cliente conservador que as idéias inovadoras são produtivas?Binchi - Não. É difícil, porque quem na verdade paga esses investimentos é o cliente. Então é ele quem decide, mas o poder de convencimento é seu. Você tem que acreditar muito porque isso é um negócio para o cliente, então se você força o cliente a veicular aquilo e não dá retorno para o cliente, é muito complicado, então você tem que estar convencido que aquilo é uma fonte geradora de negócios.

JC - Qual a sua opinião sobre a Associação dos Profissionais de Propaganda (APP)?Binchi - Eu acho essa iniciativa que a APP tomou aqui em Bauru, muito boa, é uma iniciativa de unir as empresas, o mercado publicitário. Isso só vem a contribuir para que o mercado da região se fortaleça. Acho muito louvável.

JC - Essa tendência dos comercias nacionais de usar animais e mulheres bonitas, de onde vem?Binchi - Há uma teoria sobre propaganda que funciona: animal, criança e mulher bonita, vende e é verdade. Quando você coloca um animal em qualquer tipo de comunicação, o poder de fazer as pessoas prestarem atenção é muito maior. Com certeza, essa história de bicho na propaganda atrai as pessoas e isso é mundial.

JC - A qualidade dos comerciais brasileiros é compatível a dos países desenvolvidos?Binchi - É e muito. O Brasil é um País muito admirado internacionalmente pela qualidade da propaganda. O Brasil está entre os três mais criativos do mundo. Os outros dois são Estados Unidos e Inglaterra. Em propaganda, o Brasil é primeiro mundo. Isso porque temos bons profissionais e temos uma história de publicitários que fizeram esse mercado chegar onde está.

JC - Como bauruense, você gostaria de deixar uma mensagem para seus colegas profissionais da área?Binchi - A região tem um mercado grande, eu gostaria de dar uma dica tanto para os anunciantes como para o pessoal das agências pensarem em ganhar o prêmio Profissionais do Ano, categoria Interior, que não é difícil, é muito fácil. Aquela agência que conseguir colocar no ar um filme legal, com criatividade, leva e seria um prêmio muito importante para a região. Isso gera negócio.