09 de julho de 2026
Geral

Reflexões na hora amarga: Em tempos de guerra...

Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Sempre nos pareceu que o dever fundamental de quem goza do privilégio de comunicar-se com o grande público, por uma questão de respeito à confiança que nos é concedida por ele, é o da sinceridade; e esta nos impõe a disposição de transmitir-lhe a nossa opinião, por menos que esta possa não coincidir com a da maioria, tantas vezes induzida por desinformações, deliberadas ou meramente casuais. E isso não significa a presunção de sermos proprietários da verdade. As ponderações em causa nos são sugeridas pelos acontecimentos que, a partir do 11 de setembro, deram início, segundo pensamos, a uma nova fase da história humana, marcada pelo irreversível declínio do formato civilizacional degradado, cujos principais mentores procuram manter a qualquer custo. Os mentores a que nos estamos referindo tinham, de fato, como seu símbolo mais expressivo, o World Trade Center, demolido pelos atos terroristas praticados naquela data, atribuídos com singular presteza a um sr. Bin Laden, homiziado no distante Afeganistão. As provas concludentes sobre a validade dessa hipótese, até hoje não foram produzidas - mas ela passou a ser o pretexto para que se fale de uma luta global contra o terrorismo, esteja ele onde estiver, e contra qualquer Estado, em qualquer parte do mundo, que o ajude ou não se disponha a combatê-lo eficazmente. E isso, observe o leitor, ao mesmo tempo em que leis especiais, adotadas nos Estados Unidos e no Reino Unido, em termos de arbitrariedade contra os direitos fundamentais dos cidadãos, possivelmente são de fazer inveja ao próprio Taleban. Aliás, com a queda de Cabul, a despeito da oficialmente confessada manipulação da informação, têm vazado cenas que evidenciam o tipo de aliados e libertadores representados pela chamada Aliança do Norte, mistura heterogênea de etnias minoritárias as quais, tornaram-se aliadas pelo vezo adquirido pelos defensores da democracia, não de realizar guerras mas de, com base em superioridade tecnológica colossal, executar massacres por intermédio de bombardeios arrasadores contra inimigo que não dispõe de nenhum meio para defender-se. Exemplo antológico do afirmado, está no episódio do Kosovo, em que tempestades de bombas eram lançadas contra inimigo cuja artilharia anti-aérea não tinha alcance para atingir os bombardeiros de que elas provinham. Daí, no conflito atual, o uso como carne de canhão, dos componentes da Aliança do Norte que, tudo indica, usados como estavam sendo, por sua vez usaram os defensores do Bem contra o Mal e, contrariando-lhes as recomendações, ocuparam Cabul, ocupação a que se seguiram cenas de barbárie acima mencionadas.

Com isso, a par dos escrúpulos democráticos dos Estados Unidos e do Reino Unido - como se vê, não tão escrupulosos assim -, criou-se a seguinte situação: os talibãs, etnia majoritária no Afeganistão, etnia pashtu, de certo modo estão presentes no Paquistão, onde constituem cerca de 30% da população, sendo que da mesma etnia se compõe a maioria das classes dirigentes desse país. E há, ainda, muitas outras e graves implicações que o espaço disponível não nos permite assinalar. Temos, então, em território afegão, a perspectiva de uma guerra civil, a ser travada na feição de guerrilhas, que não são alvos consistentes para bombardeios em massa. Os comandos da frouxa coligação que apóia os EUA e o Reino Unido, ignorariam essa hipótese, nos cenários que construíram? Certamente não. Como explicar, então, a lenda Bin Laden, transformado inicialmente em terrível dragão capaz de devorar todas as nações? Pelo simbolismo do World Trade Center, para nós objeto de terrorismo praticado por americanos, apercebidos e cansados do domínio da nação pluriestatal que, independentemente de etnias e de culturas, vem explorando o mundo e praticando intoleráveis injustiças. Estas, não justificam o terrorismo, mas servem para explicá-lo - a frase é de d. Eusébio Scheidt, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro. Essa nação pluriestatal, como a temos designado, diante dos terríveis atentados, está pagando para ver e tentando consolidar o seu domínio no mundo. Só o futuro nos trará a resposta, quanto aos resultados dessa tentativa.