08 de julho de 2026
Geral

Ação social e muitos decibéis

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 6 min

Demorou, mas a banda carioca O Rappa volta hoje a Bauru, na Cervejaria dos Monges, para o show da turnê Instinto Coletivo.

Depois de três anos longe dos palcos bauruenses, a banda carioca O Rappa se apresenta hoje, às 23 horas, na Cervejaria dos Monges. O show faz parte da turnê de divulgação do álbum ao vivo Instinto Coletivo.

Sem o baterista Marcelo Yuka, que está sem poder tocar desde o ano passado, quando foi baleado por um assaltante, o ex-tecladista da banda, Marcelo Lobato, assume as baquetas. Outra novidade para os bauruenses será o percussionista Negueba, recém-integrado ao grupo, e a participação do grafiteiro Speto, que vai fazer uma intervenção no cenário durante o show.

Por telefone, do Rio de Janeiro, Lobato conversou com a reportagem. Na entrevista, ele comentou, além de outros assuntos, a coincidência da música Ninguém Regula a América com os ataques terroristas de 11 de setembro. Assumindo um discurso de acordo com os projetos sociais nos quais a banda se envolve, Lobato criticou a arrogância do Ocidente, especialmente dos Estados Unidos, mas ressaltou que a falta de entendimento entre formas diferentes de pensar gerou a nova onda de violência.

Jornal da Cidade - Ninguém Regula a América era uma profecia?Marcelo Lobato - Eu acho que não. O Yuka já falou isso em várias entrevistas e eu concordo com ele, quem estava acompanhando podia esperar algo do tipo. Poderia ser um carro-bomba em outro lugar do mundo, ou outro tipo de atentado. Mas pegaram um ícone dos Estados Unidos, uma coisa emocional mesmo do país. E eu acho que o objetivo de quem fez era exatamente esse.

Agora, quem já acompanhava, sabe que rolava uma certa arrogância por parte do Ocidente, mais especificamente dos Estados Unidos, como na questão do Protocolo de Kioto. Mas é lamentável o que aconteceu, porque o que falta mesmo é um entendimento melhor entre uma forma de pensar com outras, é por isso que aconteceu.

JC - Você acha que os atentados devem provocar uma discussão mais ampla, uma mudança de posturas?Lobato - Eu espero que sim. Tem aquele ditado que diz quando um não quer, dois não brigam. Tem que ter um entendimento maior. Mas, enquanto tiver interesse econômico por trás, venda de armas, fica difícil uma discussão. Tem toda uma história aí, lugares estratégicos, tem a coisa da religião também, que misturada com política, geralmente não dá muito certo.

Preocupados em não deixar que as críticas sociais da banda fiquem só no discurso, os integrantes do O Rappa se aliaram com a organização não governamental (ONG) Fase para impulsionar projetos em todo o país. A seguir, Marcelo Lobato explica a preocupação da banda com as desigualdades do Brasil.

JC - Atualmente, com o que vocês se preocupam mais, a questão mundial ou o Brasil? Lobato - Eu acho que geral, mas primeiro a gente precisa olhar para o nosso umbigo, porque está muito mal. Obviamente, hoje em dia, todos os países de alguma forma atingem os outros. Você vê a Argentina aí. Tem que ver geral. O clima do planeta, por exemplo, é uma coisa que aflige todo mundo.

JC - Como foi que começaram os projetos sociais do O Rappa?Lobato - O Yuka fez jornalismo, então, ele já dava uma força no jornal da ONG Afro Reggae, de Vigário Geral. Ele já tinha esse contato, em Vigário tinha havido aquela chacina. E a gente foi fazer um clipe com o Bezerra da Silva e a partir daí passamos a ter um contato maior com as comunidades de Parada de Lucas e Vigário Geral. Depois, nós começamos a fazer workshops, mostrando como é que era os instrumentos. Os caras têm mais contato com a coisa de percussão, que, na verdade, é o que eles têm à mão.

Então, começou a rolar aulas de música e eles hoje têm uma casa com vários grupos de dança, música... Enfim, a gente viu que dava certo.

Hoje, essa coisa de se associar à Fase é porque tem que ser uma coisa organizada e não adianta a gente querer fazer sozinho. Até porque o nosso lance é música, e você precisa de tempo para fazer isso.

JC - O que é a Fase?Lobato - A Fase é uma ONG que abrange o Brasil inteiro, que trabalha basicamente com criança e adolescente. Na verdade, ela já é antiga, tem 40 anos. Ela antigamente contava mais com apoio de fora, mas agora está precisando cada vez mais daqui mesmo, de dentro do Brasil. Porque com essa história do Fernando Henrique (Cardoso) falar que o Brasil está em desenvolvimento, muitas empresas, muitas entidades de fora deixaram de enviar dinheiro. E a Fase meio que redistribui para outras ONGs menores.

JC - Como funciona isso?Lobato - É sempre um apoio com intuito da coisa andar sozinha. Então, tem um projeto no Nordeste, uma escola de circo, sei lá, um exemplo. E eles precisam de figurino, de dinheiro. Então, a gente analisa esses projetos junto com a Fase, eles levam isso para a gente, nós selecionamos os melhores projetos. Eles acompanham esses projetos, a gente vê o que rolou, o que não rolou.

JC - Você acha que o envolvimento da sociedade está aumentando? Lobato - Todo mundo deveria se envolver nestas questões, a ponto de ser uma coisa cotidiana. Este tipo de trabalho é uma das poucas coisas que você vê andando, vê dando certo, como em Vigário. Não foi só a gente que ajudou, que, sabe, acompanhou Vigário. Tem uma galera de voluntários, pessoas que não são conhecidas. Na verdade, a gente empresta nossa projeção na mídia para divulgar estes projetos.

JC - No álbum Rappa Mundi vocês listaram algumas ONGs e condicionaram o uso de uma faixa de vocês por outras bandas, como sample, à contribuição com estas entidades, deu certo?Lobato - Isso aí foi mais numa de chamar a atenção mesmo. Porque eu não sei se alguém sampleou. Eu acho que é com coisas criativas assim que você chama a atenção. Porque esse formato que esta tudo mal, que precisa ajudar, que tal, está meio desgastado.

JC - Corre o risco de ficar só no discurso?Lobato - É. O importante é que o negócio vá para frente. Agora, nós não somos bons moços, nós somos pessoas normais. O negócio é que tem uma galera aí que precisa ser ajudada. E dá certo, isso diminui a violência, diminui as diferenças, dá oportunidade para as pessoas. Uma coisa vai ajudando a outra.

JC - A sonoridade da banda mudou com você na bateria?Lobato - A gente se abastace com todo tipo de idéias novas. Coisas evidentemente legais. Não adianta repetição. Mas, enfim, obviamente muda um pouco. O Yuka tem uma pegada super pesada. Basicamente, como todo mundo na banda toca alguma coisa um pouco, no Lado A, Lado B, o Yuka, eu, o Xandão, todos tocaram percussão. Então, essa coisa não fica muito no instrumental, é mais nas idéias.

Eu acho que a gente está levando. Agora até com um percussionista novo, estamos com o Negueba, que é lá de Vigário. Isso tudo já dá um outro diferencial, porque a percussão trabalha muito com a bateria mesmo. Ainda rola muito aquela coisa de achar que a percussão é instrumento exótico. Mas, não, dentro do O Rappa ela é o trem mesmo, como o DJ é também. É meio plástica a história, meio pintura mesmo. O dub é muito isso, são idéias que você vai tendo na hora, a improvisação.

Serviço

O Rappa, hoje, 23 horas (a casa abre às 21 horas), na Cervejaria dos Monges. Após o show, danceteria. Av. Getúlio Vargas, 7-50. Informações: (14) 234-7773.