Feliz foi o Harry Potter que aos 11 anos abandonou o mundo dos trouxas - como são chamados os humanos não-dotados de poderes mágicos. Ficamos nós, bauruenses, cumprindo o destino dos trouxas para assistir o primeiro filme do jovem bruxo, enfrentando filas, as pulgas e os péssimos projetores das decadentes salas de exibição. Nada disso vai impedir o sucesso nas telas já alcançado por Harry Potter nos livros. Pelo menos é o que apontam os números desde a estréia nos Estados Unidos. Observando com cuidado dá para perceber a influência de textos clássicos da literatura infantil, de A Gata Borralheira a Alice no País das Maravilhas. O que a autora faz é remontar essas fábulas inserindo elementos da vida moderna.
O roteiro de Harry Potter e a Pedra Filosofal segue a estrutura básica do livro, excluindo os momentos menos importantes - que gerariam ações menos dramáticas na tela grande. A verdadeira magia se transforma com a ajuda de efeitos especiais. Todo o trecho da infância de Harry é suprimido, incluindo os flashbacks do pouco tempo que esteve ao lado dos pais, mortos pelo cruel Voldermort. Outras passagens são fundidas para dar mais agilidade à trama e garantir uma diversão não muito longa - ainda assim o filme chega a quase duas horas e meia de exibição.
O universo fantástico criado pela escritora usa a magia como conotação das mundanças e dificuldades enfrentadas por jovens na mesma idade do personagem. Mas o grande mote que alimenta o sonho de adultos e crianças, é a possibilidade de viver num mundo onde as regras podem ser descumpridas sem punições. É claro que o filme é apenas uma introdução à saga de Harry Potter, um grande filão que a Warner Bros começa a revelar, na época certa. Nada poderia ser mais propício no momento em que o mundo quer esquecer as tragédias e comemorar as festas de fim de ano como se nada tivesse acontecido.
Todo um merchandising foi preparado para tomar o dinheiro dos trouxas, desde brinquedos para o Natal, chaveiros, camisetas, capas de caderno, canecas, canetas e o que mais pôde ser criado. Foram licenciados pela Warner mais de uma centena de itens que levam a marca do pequeno mago. Vão custar caro. Os clones da Pedra Filosofal também já estão quase prontos, como o Xuxa Duendes e, em janeiro, o aguardado O Senhor dos Anéis. Todos girando em torno do tema magia Xuxa, inclusive, adiantou ter visto duendes em seu quarto de dormir, embora ainda sem esclarecer se o pai da Sacha é mesmo um gnomo.
O livro, traduzido para 46 línguas e com mais de 100 milhões de exemplares, superou a Bíblia neste ano. Começou a ser escrito por Joanne Katleen Rowling sem muitas pretensões. Ela estava com dificuldades para sustentar os seus filhos menores. Bateu às portas de nove editoras até que na décima, obteve o sinal verde para a publicação e recebeu uns caraminguás de direitos autorais. Está no quarto livro da série Harry Potter, todos eles traduzidos para o português. O quinto foi adiado para o ano que vem porque ainda não se esgotou a capacidade de venda dos outros títulos.
Joanne está rica e feliz no mundo dos trouxas onde é melhor se abstrair das agruras da vida do que lutar contra elas. Para quem está desempregado, teve seu poder aquisitivo diminuído ou não tem como pagar as contas, o filme exercerá a sua função anestésica que tanto agrada ao establishment. Quem sabe tudo se resolve num passe de mágica. Esquece-se do barulho vindo do lado externo do cinema ou do ar-condicionado que não funciona. Quando se percebe que no estacionamento bateram no carro, o responsável saiu de fininho e um falso Harry Potter ainda quer receber dizendo ter tomado conta do patrimônio, aí não há quem resista. A gente conclui que a pedra filosofal caiu em mãos indevidas e o mal triunfou.
(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC