08 de julho de 2026
Geral

Desconstruindo o homem

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Os homens sentem a necessidade de sempre ocultar suas fragilidades adotando posições cada vez mais condizentes com o estereótipo masculino

O terceiro atributo masculino, para o psicólogo americano é a insegurança, que vai até a essência do que os homens ocultam debaixo de seu exterior forte e protegido. Para Gratch, consciente ou inconscientemente, todos os homens desejam ser alvo de uma busca em vez de buscar, ser objeto em vez de sujeito, ser agido em vez de agir. Ao mesmo tempo, esses sentimentos significam uma ameaça fundamental ao senso de masculinidade dos homens. Portanto, eles precisam compensar tais sentimentos buscando, e sempre procurando assumir, uma posição cada vez mais masculina. Esse conflito exerce um papel central na psicologia da mais comum das aflições masculinas, a impotência sexual. Num nível consciente, a impotência é quase sempre uma questão de ansiedade quanto ao desempenho, motivo pelo qual quanto mais pressão a pessoa faz sobre si mesma par se curar, pior ela fica. Inconscientemente, porém, a relutância do homem em ser firme denuncia seu desejo de fugir às pressões da masculinidade buscando uma posição mais feminina de flexibilidade.

O quarto elemento masculino definido por Gratch é o egocentrismo, um derivado direto ou uma conseqüência possível do conflito da insegurança masculina. Para o autor, o simples fato de a pessoa saber que é um homem não constitui proteção suficiente contra seus próprios desejos femininos - essa pessoa também tem de provar esse fato repetidamente para si mesma. Mas mesmo isso não suficiente: a pessoa também tem de exibi-lo. Evidentemente, as mulheres também precisam ser vistas, reconhecidas e admiradas. Mas, enquanto o narcisismo feminino muitas vezes reflete o interesse da sociedade pela aparência física, pela beleza e pela estética, o narcisismo masculino tem mais a ver com a nossa obsessão pela força, pelo poder e pelas conquistas, explica. O narcisismo seria a um amor-próprio vigoroso, e até mesmo exagerado, o motor psíquico da coragem e das conquistas. Mas é preciso que ele não faça com que a pessoa se distancie dos outros (inclusive daqueles a quem ama), o que nem sempre acontece.

Agressividade e autodestruição

O quinto elemento masculino, a agressividade, é também uma conseqüência natural do conflito da insegurança masculina, na análise de Alon Gratch. O psicólogo lembra que um dos problemas mais comuns entre casais é a dinâmica do marido irritadiço, crítico o explosivo ao lado da esposa magoada, chorosa e derrotada. Nessa dinâmica, a agressividade do homem serve para (1) intimidar a oponente e pegá-la desprevenida, (2) violar seu espaço psíquico, quando não o físico, para ocupá-lo e (3) criar um muro de amargura que irá separá-lo psicologicamente dela. Em todas a três maneira de agir estão traços do medo que o homem tem de perder a si mesmo numa mulher. Medo esse que também é um desejo. Esse conflito entre o desejo de estar (com) uma mulher e o medo de perder sua identidade masculina está no cerne do conflito da insegurança masculina, reafirma Gratch.

Assim como acontece com a insegurança masculina, a forma de lidar com a agressividade masculina é o equilíbrio, aponta o psicólogo. Temos de respeitar a afirmação do homem e reagir de acordo, mas rejeitar a destrutividade sádica, ainda que cheia de remorsos, dele, ensina.

Gratch lembra que diferenciar entre os dois elementos é um problema para muitas mulheres. Algumas estão tão acostumadas com a agressividade masculina que colaboram com cada seqüência de: agressão-remorso-bom comportamento, como se não fosse acontecer mais do que duas vezes. Outras têm tanto medo de qualquer sinal de agressividade masculina que não conseguem ver a força e a proteção que ela poderá um dia lhes proporcionar.

Quando os homens são incapazes de expressar sua agressividade em relação aos outros, eles atacam a si mesmos. É o sexto atributo masculino, a autodestruição. Esse elemento masculino se manifesta em forma de síndromes do vício, no fracasso profissional, a tendência a acidentar-se e o comportamento negligente e de alto risco. Mas também se encontra em problema menos dramáticos, como tomar decisões financeiras canhestras, manter-se num emprego sem nenhum futuro, chegar atrasado para entrevistas de emprego, passar cheques em fundo, falar sem pensar, mentir e ser pego na mentira, não prestar atenção... A lista pode prosseguir indefinidamente.

Quem está ao lado de um homem que age dessa maneira não deve tentar assumir a responsabilidade pelos erros dele, pois isso jamais vai fazer com que ele tenha segurança suficiente para mudar o seu comportamento consigo mesmo e para de se sabotar por falta de autoconfiança.

Finalmente, existe o aspecto sexual. Gratch exageradamente brinca, afirmando que, se os homens fossem verdadeiramente mudos eles iriam se comunicar pelo sexo. A atuação sexual é o sétimo elemento masculino, que o autor define simplesmente como um resumo de todos os elementos anteriores, pois, na sua opinião, o campo sexual é onde os homens naturalmente encenam os conflitos sexuais que, em última instância, acabam não tendo nada a ver com sexo. Ou seja, tudo começa ali, mas não tem exatamente a ver com aquilo em si.

Espécie em perigo

Os homens estão na frente das estatísticas mundiais de suicído, mortes violentas e consumo de drogas. Segundo dados do Ministério da Saúde, dos 6.985 casos de suicídio registrados no País em 1998, 5.530 foram cometidos por homens. De cada quatro dependentes de drogas em todo mundo, três são homens. A desvantegem em relação às mulheres também está na expectativa de vida. Os homens, em geral, vivem dez anos menos porque sofrem mais com doenças cardiovasculares, crises de hipertensão, diabetes e excesso de peso.

Fonte: Revista Veja