A bióloga molecular Dulce Elena Casarini, pesquisadora graduada em Bauru, descobriu recentemente uma proteína marcadora de hipertensão. Se as conclusões dos estudos forem comprovadas, em poucos anos as pessoas hipertensas ou com tendência à hipertensão poderão ser identificadas por um simples exame de urina.
A pesquisadora explica que todas as pessoas com pré-disposição à hipertensão e histórico familiar da doença têm uma variedade da ECA (enzima conversora de angiotensina). Trata-se de uma das substâncias que regulam o processo bioquímico da pressão arterial.
A proteína descrita pelo grupo de pesquisa de Dulce é produzida nos rins e excretada na urina. No entanto, além da urina, foi descoberto recentemente que a substância pode ser encontrada também nos pulmões, pâncreas, no fígado e no coração dos indivíduos.
A pesquisa foi realizada pela Universidade Federal de São Paulo, em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O estudo foi capa deste mês da revista Pesquisa, da Fapesp.
A partir de estudos com roedores e humanos, Dulce observou que indivíduos hipertensos carregam a fórmula da proteína com 90 kDa (kilodaltons - unidade de massa molecular) e 65 kDa. Os indivíduos sem hipertensão têm a proteína com massa molecular de 190 kDa e 65 kDa.
É a forma de 190 kDa que sempre está presente no indivíduo hipertenso. Quem é filho de pai hipertenso vai apresentar as três fórmulas, mesmo não tendo pressão alta, expõe Dulce.
As pessoas em cujos testes de urina forem detectadas as três formas da proteína saberiam da pré-disposição à doença. Assim, teriam a vantagem de poder prevenir, desde criança, a hipertensão. Se ele se cuidar, fizer exercícios, não comer sal, não ser obeso e tiver uma qualidade de vida adequada, ele pode não tornar-se hipertenso, diz.
A molécula da proteína de 90 kDa e os kits de dosagem das formas da proteína foram patenteados pelo grupo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo. Não existia na literatura internacional a descrição dessa nova forma de enzima conversora de angiotensina. A forma total, de 190 kDa, sempre foi descrita na literatura. A nova forma é menor que a total, esclarece Dulce.
O grupo está estudando a parte genética da proteína. A intenção é de que o método seja aplicado na população como um teste de prognóstico de hipertensão. Queremos ver se, no futuro, o governo também se interessa pelo teste, afirma.
Formação
Dulce, natural de Piratininga, concluiu o curso de Biologia na Universidade do Sagrado Coração (USC), em 1973. Realizou Mestrado e Doutorado na Universidade Federal de São Paulo, além de dois Pós-Doutorados na França. Atualmente, é professora na disciplina de Nefrologia para o 4.º ano de Medicina da Escola Paulista de Medicina.