08 de julho de 2026
Geral

Quem inventou o bauru?

Luciano Dias Pires
| Tempo de leitura: 6 min

Há 18 anos, em 2 de dezembro de morria Casimiro Pinto Neto, o criador do sanduíche bauru, que divulgou o nome da cidade nacional e internacionalmente; depoimento de ex-prefeito de São Paulo e amigo revelam detalhes da vida do bauruense.

Casimiro queria sanduíche "perfeito"

Casimiro, moço bastante simpático, desde que passou a residir em São Paulo freqüentava regularmente o Ponto Chic, local de encontro dos jovens naqueles tempos e eu, médico pediatra, depois que atendia alguns pacientes na própria residência dos mesmos, coisa que hoje não acontece mais, depois passava pelo Ponto Chic para saborear um sanduíche e conversar com os amigos que não tínhamos a oportunidade de encontrar a toda hora. Sempre que ia ao cinema ou ao teatro, à noite, também passava pelo Ponto Chic e foi lá que fiquei amigo íntimo do Bauru (Casimiro Pinto Neto).

Fiz então uma proposta: o Rotary promoveria um concurso entre os médicos pediatras a fim de que fosse escrito um livro em linguagem bem simples, para que pudesse ser entendido pelo povo, livro esse que seria distribuído gratuitamente nos Cartórios de Registro Civil, no momento em que os pais lá comparecessem para registrar o nascimento de uma criança. A mãe, durante o repouso, poderia ler facilmente o livro.

O Rotary achou a idéia muito boa, mas seus dirigentes salientaram que um concurso não despertaria interesse, a menos que fosse oferecido um prêmio de muito valor para o ganhador.

Pediram, então, que eu escrevesse e isso foi feito com a minha maior boa vontade e a obra recebeu o nome de Livro das Mãezinhas.

Dava os nomes dos alimentos mais conhecidos e o valor calórico de cada um. O Casimiro gostou do livro e daquela linguagem bem acessível. Certa noite, chegando ao Ponto Chic, disse: hoje quero receitar um sanduíche que atenda a alimentação perfeita. Vou lançar aqui um sanduíche novo com hidrato de carbono (era o pão); gordura (era a manteiga que o pão recebia); proteína (era a carne, presunto, mas de preferência rosbife); uma fatia de queijo e legumes (folha de alface e fatia de tomate).

Acredito que depois o Ponto Chic foi aperfeiçoando, colocando outros atrativos de acordo com a preferência dos clientes e o sanduíche ganhou a denominação de Bauru, porque era o que o Bauru lançou e ficou sendo o que todos pediam, pois tinha os bons componentes alimentares, por meio de vitaminas, sais minerais etc.

Inventor relata criação

Deixemos que o próprio Casimiro relate sobre a criação do sanduíche bauru: Era um dia em que eu estava com muita fome. Cheguei para o sanduicheiro Carlos - já falecido - e falei: Abre um pão francês, tire o miolo e bote um pouco de queijo derretido dentro. Depois disso o Carlos já ia fechando o pão e eu falei: Calma, falta um pouco de albumina e proteína nisso. (Eu tinha lido em um opúsculo, livreto de alimentação para crianças, da Secretaria da Educação e Saúde, escrito pelo ex-prefeito Wladimir de Toledo Piza, também freqüentador do Ponto Chic, que a carne era rica nesses dois elementos). Bota umas fatias de roast beef junto com o queijo. O Carlos colocou e já ia fechando de novo quando tornei a falar: Falta a vitamina. Bota aí umas fatias de tomate.

Quando eu estava comendo o segundo sanduíche chegou o Quico Antônio Boccini Jr. que era muito guloso e pegou um pedaço do meu sanduíche e gostou. Aí ele gritou para o garção, que era um russo chamado Alex: me vê um desses do Bauru. Os amigos foram experimentando e o nome foi ficando. Todos quando iam pedir falavam: me vê um do Bauru!

E assim ficou o nome de Bauru para o sanduíche criado por Casimiro Pinto Neto.

Quem foi o "Bauru"

Casimiro Pinto Neto nasceu em Bauru em 5 de abril de 1914. Em sua meninice brincou muito pelas ruas da velha Capital da Terra Branca. Já na idade escolar estudou no Colégio São José e depois, durante três anos, cursou no Guedes de Azevedo o ginásio. Posteriormente, em São Paulo, terminou a fase ginasial em um estabelecimento de ensino do Estado. No ano de 1931 prestou o vestibular na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, formando-se, finalmente, em 1936 naquela tradicional escola de curso superior.

Em 1932, quando da Revolução, a exemplo de tantos outros jovens, tomou parte do movimento revolucionário, integrando o batalhão 14 de Julho da Faculdade de Direito. Emocionado e entusiasmado com a luta desenvolvida por todo o Estado de São Paulo em defesa de uma Constituição para o Brasil, Casimiro Pinto Neto antes mesmo de vestir a farda, escreveu em seu bibi (espécie de pequeno chapéu de pano) o nome que ele sempre trazia no coração Bauru e daí nasceu o apelido.

Terminada a Revolução, Casimiro passou a exercer a advocacia e face a sua competência e facilidade no desenvolvimento de suas atividades, em 1938 passou a ocupar o cargo de auxiliar de Gabinete do então secretário da Justiça, dr. César Lacerda de Vergueiro. De 1939 a 1941 foi oficial de Gabinete do Governador Adhemar de Barros. Em 1938 foi nomeado titular do Cartório de Paz da Vila Maria, em São Paulo.

Em 1942, ainda em São Paulo, iniciou-se na vida radiofônica e em 1943 foi o primeiro repórter Esso da Capital, tendo sido por algum tempo o titular absoluto do famoso programa noticioso que era transmitido em horários definidos, mas a qualquer momento desde que surgisse uma notícia importante e de interesse nacional.

Em 1945 passou a ser o diretor comercial da Rádio Panamericana, posteriormente diretor financeiro da TV Record, isto até 1981 quando então adoeceu.

Casimiro Pinto Neto faleceu em São Paulo no dia 2 de dezembro de 1983 e o seu prematuro desaparecimento foi muito lamentado, pois foi um nome de destaque no setor no rádio e da televisão.

Saiba como é o verdadeiro bauru

Consultando a série de documentos que temos em mãos, documentos esses que narram possíveis declarações do próprio Casimiro Pinto Neto sobre como era preparado ou como foi preparado o seu primeiro sanduíche, não vamos entrar no mérito do verdadeiro sanduíche, se inicialmente era com alface, queijo fresco, presunto etc. ou com rodelas de tomate, queijo derretido, rosbife e picles.

O que interessa é que aquela iniciativa do bauruense que tinha o apelido de Bauru, fez com que o nome da nossa cidade se destacasse ainda mais no Brasil todo e também em outros países.

Talvez de início colocasse alface porém, com a presença do queijo derretido (muito quente) este cozinhasse aquela verdura que apresentava um aspecto escuro, motivo pelo qual teria sido abolida, permanecendo apenas a rodela de tomate. O Ponto Chic, pelo fato de ser um restaurante famoso e na época em melhores condições econômicas de oferecer diferentes tipos de carne, para ele não havia dificuldades em colocar no sanduíche de Casimiro Pinto Neto, o rosbife. Em outras casas do gênero até que poderiam usar o presunto.

A verdade é uma só: que o sanduíche promove a cidade, isto é indiscutível. Se a Sem Limites hoje é igualmente citada em todo o território nacional, por meio de importantes realizações de diferentes entidades aqui existentes, jamais poderíamos menosprezar o sanduíche que, propala o nome de Bauru além divisas e fronteiras.

Lanches Skinão é hoje o local no qual se pode saborear o Sanduíche Bauru, cuja receita original foi preservada pelo Zé Francisco, bauruense que já foi alvo de várias homenagens, inclusive figurou na reportagem Retrato de Família do Bauru Ilustrado. Seu interesse em resguardar o sanduíche, transformou o Skinão na única empresa do gênero, em nossa cidade, que apresenta em seu cardápio, entre tantos outros, aquele que divulga Bauru.