A aprovação automática tira a credibilidade e autoridade do professor em sala de aula e incentiva a indisciplina entre os estudantes.
O modelo de progressão continuada implantado pela Secretaria Estadual de Educação em 1998 tem funcionado, na opinião da maioria dos professores, como um desestímulo aos alunos. Aqueles que estudam e participam seriamente das aulas o ano inteiro se frustam ao ver o colega displicente ser promovido ao mesmo nível que o seu ao final do processo e tendem a se acomodar no período seguinte.
Esse sistema tira a autoridade do professor, porque o aluno sabe que será aprovado. O resultado é o aumento da indisciplina nas classes já superlotadas. E, nos últimos anos, lidar com alunos está extremamente delicado. Eles estão cada vez mais volúveis e qualquer coisa é motivo para brigas e violência, com agressões inclusive aos próprios professores. Hoje, nós estamos trabalhando numa panela de pressão que pode explodir a qualquer momento, comenta o diretor estadual do Sindicato dos Professores da Rede Oficial do Ensino no Estado de São Paulo (Apeoesp), Duílio Duka de Souza.
Ele afirma que a progressão continuada e o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) desrespeitam a gestão democrática das escolas e desmerecem o profissional. Ele acompanha a turma o ano inteiro, aí vem um professor de fora, aplica uma prova que ninguém sabe como foi elaborada e aprova ou retém o aluno. A autonomia que diretores e professores deveriam ter não existe. Aliás, vivemos a política do mandonismo, tendo que obedecer, sem questionar, aos constantes comunicados, resoluções e determinações que vêm de cima (Governo), ressalta.
Souza destaca que o Saresp classificou as escolas por cores, conforme o nível de desempenho nos exames. As instituições que obtiveram notas muito acima da média receberam a cor azul; as que ficaram acima da média ganharam o verde; as que ficaram na média foram classificadas com a cor laranja; as que ficaram abaixo da média receberam a cor amarela; e as que ficaram muito abaixo da média foram classificadas de vermelho.
A escola que só promove alunos leva vantagem. Isso expõe professores, diretores e funcionários a uma situação ridícula. Imagine a imagem da pessoa que trabalha numa escola qualificada de vermelho. Ninguém vai querer matricular seu filho ali. Para nós, isso é mais uma afronta ao Magistério, é o Governo brincando de aquarela com a escolas, completa.
Concorrência
Para o professor aposentado Rodolpho Pereira Lima, a progressão continuada é um obstáculo ao aluno que pretende disputar um lugar no mercado de trabalho. Ele destaca que a sociedade está cada vez mais competitiva e só os melhores e mais capacitados sobrevivem em qualquer tipo de atividade.
Neste sentido, Lima lembra que, antigamente, os mestres aplicavam provas periodicamente a seus alunos. Aqueles que não obtivessem uma nota mínima, ficavam retidos para recuperação e poderiam ser aprovados ou reprovados.
Ele tinha que cumprir metas para evoluir da 1.ª para a 2.ª série, da 2.ª para a 3.ª e assim por diante. Quando terminava o primário (hoje chamado de 1.º ciclo do Ensino Fundamental), havia uma exame de admissão e ele poderia ou não ingressar no ginásio (2.º ciclo do Ensino Fundamental). As avaliações continuavam ano a ano, depois havia a admissão para o 2.º Grau (Ensino médio). Era uma escola seletiva por natureza, que peneirava 50% a 60% dos estudantes menos qualificados. Hoje, é como o serviço militar: depois de um ano, ele simplesmente recebe seu título, observa.
Lima atribui a esta falta de seletividade as recentes discussões acerca da proposta do Governo em reservar vagas nas universidades públicas para alunos da rede pública e para negros. Para ele, esta é uma postura de extrema discriminação.
A progressão continuada foi idéia de uma corrente democrática que dizia que a reprovação marginalizava o aluno e que retê-lo era uma violação de direitos. Na minha opinião, democracia seria o Governo oferecer uma boa formação básica na rede oficial. Aí, todos poderiam disputar essas vagas em condição de igualdade, argumenta.
Educação é investimento para o longo prazo
Educação é uma atividade que não se faz da noite para o dia. É uma questão de gerações. E o que vemos nestas reformas do ensino é que não existe uma continuidade. A cada nova eleição, aquele que entra derruba tudo o que vinha sendo feito e começa de novo, de outra forma. Será que o novo governador vai continuar com a progressão continuada? Eu acredito que não, afirma o professor aposentado Rodolpho Pereira Lima.
Ele diz que é absolutamente a favor da mudanças, pois o mundo não pára. Porém, Lima condena as interrupções, apontando vários exemplos.
Quando Leonel Brizolla foi eleito governador do Rio de Janeiro, décadas atrás, ele criou o projeto Cieps, que mantinha os alunos do Ensino Fundamental na escola em período integral. Ali, eles teriam, além das aulas, atendimento médico, odontológico, refeitório, dormitório, banho. Ao término daquele mandato, no entanto, esqueceram de tudo. Depois veio o Fernando Collor de Melo, que pretendia criar 5 mil Caics no País. Quando o Itamar Franco assumiu, tudo isso ficou para trás e hoje são prédios que ninguém assume, cita.
Lima destaca que a qualidade da educação depende de investimentos constantes e regulares, tanto sob o aspecto pedagógico, como do ponto de vista financeiro: Quando um pai destina todas as suas economias para estudar um filho nas melhores instituições, ele não está pensando nos gastos que tem, mas no investimento que faz. O Governo precisa ver a situação da mesma forma.
O professor ressalta que, atualmente, o Governo gasta com o ensino básico e investe nas instituições superiores. Tanto que, desde há muitos anos, estudantes de todas as classes sociais almejam uma vaga nas universidades estaduais ou federais. Ele sugere que, se investisse mais na educação, o Governo certamente gastaria menos com obras e manutenção de jovens nas unidades da Febem. Hoje, o País gasta R$ 1,5 mil por mês com cada menino. Quanto lhe custa um aluno?, questiona.
E completa: Antigamente, os grupos escolares (primário e ginásio) eram procurados ricos e pobres. Hoje, estamos vivendo um Apartheid na educação do Brasil. Há escolas para ricos e escolas para pobres. Isso me preocupa muito pelo problema social que vai causar nas próximas gerações. E o grande prejudicado é a sociedade, porque eu comparo a educação ao adestramento: sem uma educação de qualidade, o ser humano é tão selvagem quanto um animal doméstico sem adestramento. A educação é uma adequação do comportamento para permitir a convivência e a sobrevivência.