Obstinação e teimosia costumam andar juntas e - como tudo o mais - dependem do contexto para serem vistas como virtudes ou defeitos. No caso da Argentina, a herança espanhola tem falado mais alto, o que impediu até agora que seus governantes, principalmente o todo-poderoso superministro Domingo Cavallo, tenham se rendido à realidade e desvalorizado o peso. Fato semelhante ocorreu na história recente do Brasil, em março de 1990, quando, após três décadas sem eleições diretas para a Presidência da República, elegeu-se Fernando Collor de Mello.
Com uma inflação mensal estimada em 80%, aproximando perigosamente a economia do precipício da hiperinflação, o ex-presidente, sentindo-se um super-homem (não o de Nietszche, mas o dos quadrinhos) anunciou, solenemente, à Nação, só dispor de uma bala em seu revólver para controlar a inflação e que iria usá-la. O resultado todos nós, brasileiros, sentimos na carne: nossas parcas economias tornaram-se indisponíveis, coisa que nem mesmo Fidel Castro ousou fazer, quando tomou o poder em Cuba, em 1959. Fomos todos tachados de especuladores e a inflação continuou alta.
Parece que Collor de Mello fez escola na Argentina. Alguns anos depois, na administração de Carlos Menem, Domingo Cavallo surpreendeu a todos os seus compatriotas ao adotar a paridade entre o peso e o dólar americano. Um equívoco lamentável que não demorou a empobrecer o país e, mais tarde, já na gestão de Fernando de la Rúa, quase aniquilou o setor produtivo e a classe média locais.
Com tal política, o tripé sobre o qual deveria assentar-se o crescimento do Mercosul (Brasil, Argentina e Uruguai, Paraguai e Chile juntos) ficou capenga, comprometendo o cronograma de integração gradual da América Latina, no sentido do Sul para o Norte, por meio de acordos de liberação comercial com a Comunidade Andina e o Mercado Comum da América Central e do Caribe. Quando, em 1999, o Brasil viu-se obrigado a desvalorizar o real em relação à moeda americana, a expectativa dos demais parceiros do Mercosul e também da comunidade financeira internacional era a de que, mais cedo ou mais tarde, a Argentina faria o mesmo.
Em vez disso, contudo, num misto de auto-suficiência, teimosia e obstinação, recentemente, Domingo Cavallo cometeu novo erro ao dar a entender aos credores internos e externos que, se viesse a ser necessário, preferiria dolarizar de forma plena a economia de seu país a desvalorizar o peso. Um blefe que credores e investidores não aceitaram.
Acuado, tentou uma última manobra à qual deu o nome técnico de reestruturação das dívidas interna e externa: rebaixou, sem ouvir credores, os juros de cerca de 11% ao ano para algo em torno de 7,5%.
A questão que se debate hoje não é mais se a Argentina vai ou não desvalorizar sua moeda, mas quem vai fazê-lo (se Domingo Cavallo se recusar) e quando isso será feito. Tal medida será a última cartada para tirar nossos vizinhos de uma crise que já dura três anos.
(*) Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB).