08 de julho de 2026
Geral

POLÊMICA DESAJUSTADA

Ivan Garcia Goffi
| Tempo de leitura: 3 min

Só posso classificar, à luz da inteligência, do bom senso e da lógica, como insana qualquer defesa de reserva de vagas para negros em universidades brasileiras; se não é insana, é demagogia barata. Sandices idênticas fazem pessoas descriminarem o consumo de maconha para acabar com o tráfico no Brasil, ou acabar com as provas para se dizer que não se têm mais repetentes, ou comemorar elevação do PIB, apesar de reduzir-se drasticamente as exportações e importações. Enfim, a discussão é bem mais complexa que apenas ulular o papel do negro no Brasil Colônia. Se querem fazer justiça, que se encantem com os progressos nos hospitais, escolas, saneamento, cultura, segurança, legislação, princípios, arquitetura e outros benefícios reais trazidos por imigrantes europeus que aqui aportaram sem nada, fugindo de seus algozes, apenas com vontade de construir um País.

Se o Brasil tem mais da metade de sua população composta por negros e mulatos, deveria ver, na mesma proporção, não nas faculdades apenas, mas em concessionárias de veículos, em restaurantes, em shopping center, em lanchonetes, boates, etc, e não se vê. Isso revela, realmente, que é triste a realidade social, mas se alguém pretende modificar esse panorama, tem que fazê-lo a partir da raiz do problema, e não mascarando superficialmente alguns efeitos. Dizer na Unicef que o Brasil reduziu drasticamente a repetência escolar é algum mérito? Ora, reduziu não porque melhorou a qualidade do ensino, não porque desenvolveu a inteligência dos jovens, mas simplesmente porque acabou com as provas e, em conseqüência, temos semi-analfabetos com diploma de 2o grau. Pela mesma ótica, reservar vagas para negros vai resolver o problema social do Brasil ou irá colocar no mercado 40% de formandos que não tinham condições de galgar os degraus do conhecimento?

Vamos mais longe ainda? Por que não defendem que 40% das vagas nas Câmaras Municipais e Assembléias Legislativas sejam para negros? Aqui em Bauru a Câmara só tem branquinhos e deveria ter, então, oito negros! A Assembléia paulista e o Congresso Nacional, salvo raríssimas exceções, também só têm brancos. A Bahia, berço do maior contingente de negros no Brasil, só é representada por coronéis brancos. Nem a Bahia consegue eleger candidato negro por quê? Alguém já parou para pensar nisso, apesar de existirem sempre centenas ou milhares de candidatos negros e mulatos?

A resposta é simples. Bancar uma candidatura é algo caro (normalmente muito caro para o político corrupto), ops, então se candidatar, via de regra, depende de boa situação social, e candidatos negros nunca têm chance? Ora, que interessante, c.q.d. (como queríamos demonstrar), o problema de se entrar na faculdade não é racial, mas financeiro e social. Quem tem dinheiro consegue um ensino melhor e desenvolve sua intelectualidade de forma mais convincente, passando no exame vestibular; quem não tem, não aprende. Quem saiu de um ensino primário e secundário capenga não vai sobreviver aos fulgores do Ensino Superior, a não ser que também se degringole de vez o caráter superior do ensino universitário.

O negro não precisa de esmola, mas de dignidade para lutar e viver, de respeito e justiça para a contenda pessoal; precisa de meios para crescer e atingir padrões mais elevados de vida. Mas, reservar vagas a quem não conseguiria de outra forma será caminhar na contramão do progresso e da cultura e, se voltarmos mais, além do que a mera discussão já proporcionou, logo veremos os navios negreiros retornando à mãe África de marcha a ré, um verdadeiro túnel do tempo da idiotia humana. (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)