09 de julho de 2026
Geral

Irmãos se encontram após 76 anos

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

Façanha foi conseguida pela filha de Amélia Porto, que pesquisou durante anos o paradeiro do tio, José Bispo dos Santos.

O mês de dezembro começou de maneira especial para o policial militar aposentado José Bispo dos Santos, de 93 anos, e sua família. No dia 2, depois de mais de 70 anos, ele finalmente conheceu a irmã, Amélia de Alencar Porto, de 76 anos, que nasceu depois dele ter deixado a casa dos pais, na Bahia, para vir para o sul do País, em 1926. Mesmo sabendo da existência de Amélia, eles nunca tinham se visto ou conversado porque Santos perdeu o contato com a família.

O encontro aconteceu depois de muito esforço da assistente social Carmem de Alencar Porto Kobayashi, filha de Amélia, que pesquisou durante anos o paradeiro do tio que só conhecia através das histórias que sua mãe contava e nem sabia se ainda estava vivo.

A história da separação dos irmãos começou quando o então jovem militar, José Bispo do Santos, saiu da casa dos pais em Bonfim, na Bahia, para procurar um emprego melhor em São Paulo. Lá não havia serviço para mim, então vim para São Paulo em 1926, conta. Nos anos que se seguiram, Santos continuou mantendo contato com a família e foi por carta que ele soube que a mãe, viúva, havia se casado de novo e tido uma filha chamada Amélia. Eu sabia que ela existia, mas como nunca mais voltei a falar com ninguém da família a gente se perdeu, explica o aposentado, que se mudou para Bauru em 1931.

A razão da perda de contato José Bispo só ficou conhecendo ao certo no domingo passado. Segundo sua irmã Amélia, toda a família que ficou em Bonfim decidiu vir para o sul também, mas acabou acometida pela febre amarela no meio do caminho, na cidade de Januária, em Minas Gerais. Doze pessoas da família morreram de febre amarela, só eu e minha irmã mais velha Bertulina sobrevivemos, revela Amélia. As irmãs se mudaram para São Paulo e moraram juntas até que Bertulina faleceu, em 1985.

Caçando parentes perdidos

Sem contato com a família, Santos perdeu as esperanças de encontrar algum irmã ou irmão. Não achava que, nessa altura da vida, fosse encontrar uma irmã, afirma. Eu sabia que tinha uma irmão porque minha mãe falava que tinha um filho que era policial e que tinha vindo para o sul, mas não sabia como encontrá-lo, diz Amélia. Sua filha conseguiu a proeza. Depois de anos trabalhando na Febem em São Paulo encontrando as famílias dos jovens internos, Carmem Kobayashi achou que tinha experiência para descobrir onde estavam seus próprios parentes. Primeiro encontrei todos os parentes da minha mãe por parte de pai, depois resolvi procurar meu tio, em quem ela sempre falava, conta. Segundo a assistente social o trabalho não foi dos mais fáceis. Se não conhecesse os macetes teria sido impossível. Os parentes da minha mãe por parte de pai procuraram por ela durante 60 anos e não conseguiram achá-la, eu é quem os encontrei, lembra. Na procura em Bauru, Carmem contou com a ajuda de uma ex-telefonista, que acabou fazendo o trabalho local de procura e foi fundamental para descobrir o paradeiro do tio. Um dia, escolhi um número e liguei, expliquei a história e ela me ajudou.

Para Amélia Porto, que faz aniversário no final do mês, no dia 29, o encontro com o irmão foi um presente de aniversário adiantado. Achei maravilhoso, ele é agora o único irmão que eu tenho, comemora. Para mim também foi ótimo completa o irmão, agora não vamos mais perder o contato.