08 de julho de 2026
Geral

Leitura trágica da educação

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Que o brasileiro lê muito pouco já era sabido. As tiragens dos livros e até dos jornais são ridículas. Sequer é preciso comparar com a dos países mais ricos. Na Argentina em processo de falência, as vendagens de produtos impressos são muito superiores, mesmo com uma população que é um quarto da nossa. Há mais livrarias em Buenos Aires do que no Brasil inteiro.

Agora chega o triste e vergonhoso resultado anunciado pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Estudantes de 15 anos de idade de 32 países foram submetidos a testes de leitura, independentemente da série em que estejam matriculados. O Brasil ficou em último. Descobriu-se que nesta aprazível Pindorama, além de se ler pouco ainda se lê mal. As respostas aos testes foram desastrosas, como aquela de que bilingüe era uma língua falada pelos bilíngüeses. Os alunos testados não eram apenas das escolas públicas, mas também de nossas caríssimas escolas privadas.

Dos cinco níveis possíveis de classificação na média geral, o Brasil foi o único a ficar com nota 1. Significa que os alunos são praticamente analfabetos funcionais, capazes de ler as palavras mas não de compreender seu significado. De cada dez alunos, quatro têm idades acima da média do previsto para a série que cursam. Muito por causa da evasão e da repetência.

O ministro da Educação, Paulo Renato, declarou não ter se surpreendido - esperava um desastre pior. Monteiro Lobato dizia que uma nação se faz com homens e livros e ambos os produtos até hoje nos faltam. A frase continua válida, embora profundas transformações tenham perpassado a sociedade desde o seu registro, no início dos anos 40 do século passado. Lobato acreditava tanto nessa política que arriscou todo o seu dinheiro numa editora. Lutou pela nossa emancipação cultural, política e econômica, o que lhe valeu a prisão. Num país de dimensões continentais como o nosso, haveria de ter petróleo - escreveu para as crianças. Para provar, saiu atrás do ouro negro. Aqui mesmo pertinho, em Águas de São Pedro e Bofete, existem vestígios dos poços que perfurou em busca do óleo. Morreu pobre porque só as crianças acreditaram nele mas dos seus exemplos se esqueceram ao tornarem-se adultas. Por isso Pedrinho, assim como Peter Pan, sempre se negou a crescer.

Menos de 48 horas após a lanterninha ser entregue ao Brasil, outra notícia ruim - os resultados do Exame de Avaliação do Ensino Médio (Enem). Queda significativa no desempenho dos estudantes de primeira à terceira séries do antigo segundo grau. No ano passado, a nota média de redação foi 60,87. Neste ano caiu para 52,58. A pior nota dos últimos três anos. Os resultados evidenciam problemas no setor público de educação. Novamente Paulo Renato garante que os resultados são bons. O retrato deste ano seria mais fiel, com um número representativo dos alunos da rede pública - desculpou-se. Esperava-se que ele reconhecesse os problemas e anunciasse caminhos, ou soluções emergenciais.

Monteiro Lobato, hoje, talvez tivesse que esticar um pouco a sua frase: uma nação se faz com homens, livros e políticas educacionais. Pobre país onde a Educação não é prioridade e o seu presidente acha que dar aulas é um trabalho menor.