08 de julho de 2026
Geral

A valorização do real

Luiz Carlos Mendonça de Barros
| Tempo de leitura: 3 min

Nosso real continua a valorizar-se no mercado de câmbio. Na última sexta-feira, ele chegou a ser negociado abaixo da cotação psicológica de 2,40 por dólar. Neste nível a moeda brasileira apresenta uma valorização de mais de 14% em relação a seu valor mais baixo atingido em 21 de setembro. Mesmo assim, a desvalorização em relação à taxa que prevalecia no início do ano, é ainda de mais de 14%. Esta queda importante da cotação do dólar está diretamente vinculada ao processo de descolamento entre a situação das economias da Argentina e do Brasil. Os mercados estão sinalizando que está ficando claro que a natureza da crise Argentina é completamente diversa dos problemas que ainda enfrenta nosso País. Nesta condição é insustentável a taxa de câmbio atingida durante a corrida à moeda americana que ocorreu nos últimos meses.

Esta mudança de humor dos mercados está criando uma dinâmica financeira conhecida como sobre compra. A participação dos ativos em dólar nos portfoglios dos agentes privados, financeiros e não-financeiros, está muito acima do equilíbrio em uma condição de normalidade de nossa economia. Com a confiança em nossa moeda voltando aos mercados, começou uma corrida inversa à moeda americana. Quem estava retendo dólares em suas posições, principalmente os exportadores e sistema bancário, passou a vendê-los nos mercados de câmbio. Por outro lado, as empresas que buscavam proteção de seus passivos em moeda estrangeira junto ao sistema financeiro, estão liquidando suas operações de hedge. Nesta situação agravam-se os desequilíbrios das carteiras das instituições financeiras, detentoras dos ativos dolarizados, aumentando a pressão de venda sobre o dólar. Uma espiral que só pode ser interrompida pela atuação do Banco Central como comprador nos mercados de câmbio. Este sonho de uma noite de verão foi enterrado pelas declarações do presidente do BC, Arminio Fraga, de que a taxa de câmbio ainda pode estar desvalorizada!

Esta queda do dólar em relação ao real está provocando uma transferência de renda muito forte do setor privado para o governo, via redução do valor dos títulos federais indexados à moeda americana. Evidente que não se trata de uma perda real para os agentes privados, mas apenas uma devolução de parte do ganho obtido durante a especulação cambial do período junho/outubro. A valorização do real afetará também de maneira importante o tamanho da dívida pública federal em função do peso elevado dos títulos cambiais na sua composição. A queda da relação dívida/PIB será outro fator que vai reforçar a confiança crescente dos investidores na economia brasileira, reforçando o processo de descolamento com a Argentina. Pode ser o início de um ciclo virtuoso que deve vigorar, pelo menos, durante os primeiros meses do ano que vem.

Do lado negativo desta nova situação dos mercados de câmbio, está a redução da competitividade de nossas exportações. Com a taxa de câmbio desvalorizada, as estimativas de saldo comercial para 2002 chegavam a mais de cinco bilhões de dólares. Foi esta folga maior que deu início ao processo de descolamento de nossa economia em relação a nosso parceiro do Mercosul. Uma revisão para baixo deste número, em função da valorização do real, pode levantar novamente dúvidas em relação ao financiamento de nosso Balanço de Pagamentos, no ano que vem. Em minha opinião, entretanto, o risco maior que um desenlace dramático na Argentina já passou e um fortalecimento do real não deve alterar fundamentalmente este cenário mais otimista para nosso País. (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é ex-presidente do BNDES)