09 de julho de 2026
Geral

Viva Verdi, um grito de guerra II

Hélcio Pupo Ribeiro
| Tempo de leitura: 7 min

Leia a segunda e última parte do comentário do professor e crítico de arte Hélcio Pupo Ribeiro sobre Verdi.

Especial para o JC Cultura

As duas últimas óperas de Verdi são Otelo e Falstaff, ambas baseadas em Shakespeare, gênio da literatura universal, fonte inesgotável de sabedoria.

Otelo, com libreto de Arrigo Boito, causou sensação na estréia, em 1887, no LScala de Milão, apresentando no elenco a figura de Francesco Tamagno, laureado tenor italiano, um dos maiores expoentes da música lírica da época. Foi ele que criou a mais dramática interpretação do personagem Otelo. Nesta obra, diz o crítico Streaterfield: ... o compositor relevou à culminância de liberdade extrema com que jamais sonhara. Ao lado do tenor Tamagno, Otelo, general mouro do exército Veneziano, Eva Tetrazini, soprano (Desdêmona), mulher branca de Otelo, Cassio, tenor (lugar tenente de Otelo) e Iago, figura trágica e sinistra, como alferes de Otelo. A história apaixonante de Otelo pela sua linda esposa Desdêmona e de desvairado ciúme, que o levou a matá-la, forma o contexto altamente patético da colossal obra prima verdiana. No auge de sua capacidade criadora o músico tinha como colaboradores, não só o poeta inglês, nascido em Stratford-On-Avon, como Boito, também poeta e eminente compositor que versou cerca de 3.500 versos (na ópera, pouco mais de 800). A propósito, Verdi havia se imposto auto silêncio, insistindo em não mais compor para o palco. Assim, foi exclusivamente devido ao altamente trágico teor do libreto de Boito que voltou ao teatro com Otelo, rompendo dezenas de anos de jejum operístico. Otelo restituiu Verdi à luz da ribalta e novamente ele se mostrou como em duas décadas anteriores, o mais importante dos compositores italianos de sua época. (D. Ewen).

Grandes momentos de relevância lírica: o Credo de Iago, no primeiro ato; o Brinde e Dueto de Amor de Desdêmona e Otelo. No final, a ária Venga La Morte (Morte de Otelo), a canção do Salgueiro e Ave Maria (Desdêmona).

O coroamento deste esplêndido rosário de obras primas vem com Falstaff em três atos, libreto excelente do amigo e colega Arrigo Boito (1842-1918), literato, musicólogo, compositor, poeta e dramaturgo, sobre o qual falaremos oportunamente.

Falstaff é de 1893. Baseado em Shakespeare, foi novamente libretada por Arrigo Boito, valendo-se da obra The Merry Wives of Windsor (As Alegres Comadres de Windsor). Estreou no Scala de Milão em 9 de fevereiro. No Brasil foi apresentada duas vezes, simultaneamente, no mesmo dia e na mesma hora, o que comprova dois elencos: no Rio de Janeiro (Teatro Lírico) e São Paulo (Teatro São Pedro). Tais representações se deram na noite de 29 de julho, isto é, 172 dias após a estréia mundial. Em Buenos Aires foi representada no antigo Teatro de Ópera, em 1893, mesmo ano da estréia. No Colon, foi cantada em 1912.

Recorrendo à obra de Gustave Kobbe (N. York, 1857) temos: Se a composição de Otelo foi cercada de mistério, muito mais secreto foi o processo de criação de Falstaff. Até o fim Verdi sustentou que compunha nova ópera para seu próprio prazer, sem qualquer intenção de apresentá-la ao público. O velho compositor parece ter dado os últimos toques na partitura com imensa tristeza, convencido de que encerrava a sua carreira. Ele não comporia nenhuma outra ópera, mas sim outras peças, de cunho religioso: Quatro Pezzi Sacri que dariam, ainda, testemunho de sua energia criadora.

Falstaff é um dos fenômenos da ópera mundial, uma comédia irresistivelmente alegre que não parece ter saído da pena do grande mestre, ainda que amparada ao incomparável Shakespeare. Constitui, por si só, um extraordinário milagre ocorrido pela força do amor. Outro exemplo dessa benéfica influência é o arrojo dado ao término da ópera, quando o compositor faz, ousadamente, uma fuga a oito vozes. O elenco da monumental obra exige vozes superlativas: Sir John Falstaff (barítono ou baixo); Ford (barítono); Fenton (tenor); Dr. Cajus (tenor); Bardolfo (tenor cômico); Pistola (baixo cômico); Sras. Quiskly e Meg Page (meio-sopranos); taverneiro, pagem de Ford, burgueses, povo, máscaras, fadas e duendes.

A ação se dá durante o reinado de Henrique IV, na Inglaterra (1367-1413), na cidade de Windsor. O nobre Sir John Falstaff, na mocidade pagem do Duque de Norfolk, ficou famoso pelas suas traquinices, na peça As Alegres Comadres de Windsor. Com esta obra, o compositor de Otelo contrariou cabalmente a previsão de Rossini, admirado, aliás, por Verdi, de que em tempo algum ele escreveria uma ópera cômica. Kurt Pahlen.

Trocando a tragédia pela comédia, Verdi escreve uma partitura que é um verdadeiro assombro de graça e ternura genial, um verdadeiro poema primaveril, tingido de uma filosofia sorridente e de um humanismo confiante.

No vigésimo primeiro dia de 1901, um novo século abria suas portas para o mundo. Verdi estava no Hotel de Milão, onde sempre era festivamente recebido. Abriu o guarda-roupa para trocar-se, teve mal súbito e caiu. Todo o seu lado direito foi paralisado. Por mais de seis dias o velho e robusto corpo batalhou contra a morte. Uma luta tremenda e dolorosa. O prefeito Milanês, numa sincera homenagem ao grande músico, mandou cobrir de feno e palha a rua defronte ao hotel, para não incomodar o amado herói nacional.

No dia 27, de madrugada, deu-se o desenlace. Na semi-penumbra do aposento, um vulto destacou-se, caminhando para a janela. Abriu-a de par em par e um frio gelado invadiu o ambiente, deixando entrar o adeus da multidão, triste, pesarosa, na despedida ao seu ídolo. Cabisbaixo e contrito, o saturno vulto retorna à cabeceira do ilustre morto. Era Arrigo Boito, o dedicado companheiro das últimas óperas. Quase num sussurro, murmurou: La vita è breve ma la gloria è imortale!.

O sepultamento se deu ao anoitecer, na Casa de Repouso do Artista, criada por ele. Sem música, como era seu desejo, e sem pompa, ao lado da esposa Giuseppina Estrepponi.

Parte de sua grande fortuna, deixou para centros de caridade.

Lembrando, ainda, em 1873, por ocasião da morte do escritor e romancista italiano Alessandro Manzoni, que Verdi adorava como a um santo, o músico comprometeu-se com o prefeito de Milão, a escrever uma missa de Requiem em homenagem ao dileto amigo. O ofício religioso realizou-se em 22 de maio de 1874, na Catedral de São Marcos, perante uma assistência contrita e numerosa. A obra é recheada de profundo sentimento fúnebre, até que poucas vezes pesaroso em se tratando de obra para igreja. É o meu impulso do coração, explicou o autor.

O Requiem é uma grande peça sinfônico-coral e não agradou a todos. Alguns o criticaram tascando-a de operística, teatral e barulhenta, portanto, não adequada ao ofício fúnebre.

Além do Requiem, o músico deixou algumas peças de caráter sacro: o Quarteto de Cordas em Mi menor escrito em Nápoles (1873); Quatro Peças Sacras; Te Deum, Pater Noster, 2 Ave Maria (uma delas a 4 vozes) ambas de 1880 e Laudi Alla Vergine (Canções em Louvor da Virgem).

Óperas de Verdi, por ordem de datas, com títulos e locais de estréia

- 1839 - Oberto, Conde di S. Bonifácio (Umberto, Conde de São Bonifácio) - Milão;

- 1840 - Un Giorno di Regno ou Il finto Stanislão (O Fingido Estanislau) Milão;

- 1843 - I Lombardi Alla Prima Crociata (Os Lombardos da Primeira Cruzada), Milão;

- 1844 - Ernani Veneza;- I Due Foscari (Os Dois Foscari) Roma;

- 1845 - Giovana dArco (Joana DArc) - Milão;- Alzira, Napoles;

- 1846 - Attila, Veneza;

- 1847 - I Manasnadièri (Os Bandoleiros) Londres;

- 1848 - Il Corsaro (O Corsário) Trieste;

- 1849 - La Bataglia di Legnano (A Batalha de Legnano) Roma;- Luiza Miller (Luiza Miller) Napoles;

- 1851 - Stiffelio (Stiffelio) - Trieste;

- 1855 - I Vespri Siciliani (Vésperas Sicilianas) - Paris;

- 1857 - Simion Boccanera - (Premiada em 1881, em Milão) - estrelada em Veneza;

- 1859 - Un Ballo in Maschera (Baile de Máscaras) Roma;

- 1862 - La Forza Del Destino (A Força do Destino) - São Petersburgo;

- 1867 - Don Carlo (Dom Carlos) - Paris;

- 1871 - Aida - Cairo;

- 1886 - Otelo - Milão;

- 1893 - Falstaff - Milão