Quando nossos partidos políticos entenderam de instituir em seus quadros os tais Conselhos de Ética, muita gente, dentre os conhecedores das manhas e artimanhas, interesses e desinteresses, ingenuidades e vivaldinices, cambiantes nos meandros político-partidários da pátria-amada, não teve disposição para botar muita fé na eficácia ou eficiência do órgão nascente. Perguntava-se com razões sobejas: por que e para quê criarem-se Conselhos de Ética para funcionar em antros de incoerência e aética? Alimentariam os políticos, com tais instituições, a veleidade de educarem a própria classe para a vivência de uma política social e partidária suscetível de dignificar a si mesma e, no segmento, elevar os foros de honorabilidade individual que todo povo não pode deixar de prezar? E se esse era o propósito, teriam os partidos, em suas fileiras, elementos com cabedal e firmeza suficientes para integrar tais órgãos e imprimir-lhes critérios e funcionamentos judiciosos com que se impor à confiança e ao acatamento de todos?
E o que a maioria da opinião pública receava aconteceu, infelizmente, porque, na verdade, os Conselhos de Ética, salvo raras exceções, não estão sendo tudo aquilo que tinham de ser, pois, além de raramente acionados, quando já o foram deixaram de primar pela isenção de ânimo imprescindível e indeclinável em todas as decisões sérias. Conseqüentemente, o receio de recorrer a eles é flagrante entre, até mesmo, os que os implantaram nas suas agremiações, diante da constatação de que nem mesmo os campos em que os órgãos podem e devem intervir são por eles corretamente definidos. Ainda agora estão se vendo e ouvindo nos meios de comunicação social, em função da campanha eleitoral para todos os níveis, gatos e lagartos de parlamentares, candidatos à reeleição, dirigidos frontal e abusivamente a colegas da Câmara e do Senado e mesmo a integrantes do Poder Executivo. Onde o respeito à ética introduzido nas esferas político-partidárias por não poucos desses alto-falantes das páginas de jornais e revistas, dos vídeos da televisão e dos microfones das emissoras? Parece que vem sendo desprezado voluntariamente e, então, por que sustentar indefinidamente tais Conselhos se tudo aconselha o seu desaparecimento puro e simples da estratosfera? Há que se pensar nisso.
(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado