08 de julho de 2026
Geral

Jacuba faz cachaça para exportação

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Distrito de Arealva se organiza para entrar no mercado europeu como exportador da famigerada pinga brasileira.

Jacuba - A cachaça, bebida genuinamente nacional, está deixando de ser uma exclusividade dos botecos brasileiros para ocupar as prateleiras do exterior. Depois das grandes empresas, agora chegou a vez dos produtores artesanais venderem seu produto cobrando em dólares. Pelo menos essa é a intenção de um casal do distrito de Jacuba, em Arealva. Depois de sete anos produzindo cachaça para amigos e para um mercado consumidor bastante restrito, o produtor Marcos José Macedo, 44 anos, começa a preparar terreno para exportar a aguardente Tiquara, especialmente para a Europa.

As portas de países potencialmente consumidores, como Itália e Alemanha, começaram a se abrir após a participação da empresa na Vinitália, considerada a maior feira de bebidas da Europa.

Graças a uma intermediação do Instituto de Química da USP de São Carlos, Macedo pôde enviar algumas amostras da aguardente Tiquara (amarelada) para a feira. Lá ela foi distribuída como brinde, em garrafas de miniaturas, e passou por avaliação junto a um grupo de jurados e também pelo público presente.

Além da aguardente Tiquara, apenas uma outra fabricada em Pedreira, cidade próxima a Campinas, representaram o Brasil na feira. Macedo não participou do evento, mas foi informado de que a bebida produzida por ele e a esposa, a bancária aposentada Eulali Garcia Duarte, 48 anos, não havia agradado tanto ao corpo de jurados, mas em compensação a receptividade do público teria sido excelente.

Feita a propaganda e com o respaldo dado pelo público presente à feira, a aguardente Tiquara começou a despetar o interesse de importadores italianos e alemães, estes grandes consumidores da cachaça brasileira. Segundo Macedo, Portugal também entrou na lista de potenciais compradores da aguardente made in Jacuba depois de amigos terem levado algumas garrafas com a bebida para a terra de Camões.

Limites

Mesmo vislumbrando a real possibilidade de começar a exportar a aguardente Tiquara para a Europa, Macedo já impôs alguns limites em sua produção. Segundo ele, a capacidade instalada de produção é de 15 mil litros de cachaça por ano. Não importa que eu tenha uma demanda de 30 mil litros, nós só vamos produzir a metade disso.

Tanto Macedo quanto sua mulher argumentam que uma produção além desse limite tornaria a empreitada inviável, uma vez que eles dizem não ter a pretensão de ampliar as instalações da empresa. Senão nós vamos virar uma empresa como outra qualquer e não vai ser um bom negócio, afirmou Macedo, que deixa claro sua disposição em continuar comandando uma empresa familiar. Eles contratam funcionários apenas para trabalhar na colheita da cana, entre julho e agosto. A produção da cachaça, propriamente dita, é feita apenas por Macedo e sua mulher.

Mas o que fazer se os pedidos superarem os 15 mil litros da bebida? Se chegarmos a esse ponto, vamos ter de optar. Ou vendemos para o mercado interno ou exportamos, explicou Macedo.

Atualmente a produção de cachaça no sítio São Benedito, em Jacuba, está em torno de três a quatro mil litros por ano. Além da aguardente Tiquara (palavra de origem tupi-guarani que servia para identificar uma bebida feita pelos índios), Jacuba produz ainda a caninha Tietê (branca).

Enquanto a aguardente Tiquara leva dois anos para ser engarrafada, a Tietê fica pronta num prazo bem mais curto, cerca de seis meses. O processo de envelhecimento da aguardente dá-se dentro de barris de carvalho. Ao fim de dois anos, a bebida adquire uma cor amarelada e um gosto diferenciado pelo contato com a madeira.

A aguardente também tem um teor de álcool maior do que a caninha: 43% contra 39% da branca. A legislação brasileira estabelece uma variação dentro de 38% a 54% de álcool por litro de cachaça. Decidimos manter nesses padrões (de teor alcoólico), porque a amarela é bastante usada para mistura com outras bebidas e a branca normalmente é servida pura. É um padrão do mercado e que a população está acostumada, explicou Macedo.

Burocracia

Com os pedidos de orçamento chegando da Europa cada vez com mais frequência, Macedo e Eulali tem outro motivo para se preocupar; a burocracia do governo.

É norma do Ministério da Agricultura que antes de exportar qualquer bebida (alcoólica) ela precisa antes ser enviada a Brasília para que um laudo seja feito para saber se ela se enquadra nos padrões de qualidade estabelecidos pelo governo.

Mas, segundo Macedo, o que preocupa tanto não é a análise, mas o tempo que ela leva para ficar pronta. Às vezes, por motivos financeiros, o ministério acaba inviabilizando a exportação por causa dessa demora. Isso é uma coisa que restringe não só a gente, mas qualquer empresa que queira exportar, lamentou.