09 de julho de 2026
Geral

O FMI castiga seu melhor aluno

(*) Alfredo Allende
| Tempo de leitura: 3 min

Existem vários países que cumprem corretamente as exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI), seguindo os conselhos-instruções do chamado Consenso de Washington. O caso mais claro de adaptação a essas orientações é o da Argentina, que chegou a ser um paradigma das orientações em vigor há duas décadas, pelo menos em relação aos desejos dos organismos internacionais com relação aos países considerados em desenvolvimento. Por esta conduta, a Argentina não recebeu um prêmio, mas um castigo: várias negativas e condições cada vez mais difíceis para conseguir do FMI uma linha de crédito que permita ao país enfrentar a grave crise econômica e a virtual moratória, onde chegou levada pela política econômica fundomonetarista.

O que a Argentina fez para merecer a honra de ser mundialmente reconhecida por seguir lealmente essas políticas? Segundo o Plano 1990-91, estabeleceu uma fortíssima relação de sua moeda com o dólar, não permitindo a menor oscilação nessa área. Realizou, talvez, a maior onda de privatizações do mundo, em quantidade e indiscriminadamente. Liberou o fluxo de capitais totalmente e foi além: isentou de impostos as transações financeiras, enquanto aumentava no geral os impostos internos. Reduziu as tarifas alfandegárias, a tal ponto que chegaram a ser meramente fiscais: careciam de todo esforço protecionista.

Obviamente, reduziu o pessoal do que restava do Estado nacional, não intervindo nas demissões que, com o mesmo propósito fizeram, em grande número, as empresas privatizadas. Eliminou, entre outros órgãos públicos, a Marinha Mercante do país; reduziu drasticamente as experiências sobre energia atômica que, com fins pacíficos e de abastecimento, eram realizadas; cancelou as indústrias militares e os trabalhos sobre projéteis estratosféricos que estavam muito avançados; fechou a empresa estatal petroleira, riqueza esta agora em mãos inteiramente privadas. Realizada esta enorme tarefa liberalizadora - no sentido de economia neoliberal -, agora, o povo argentino e seus representantes mais lúcidos realizam um balanço. Do lado positivo, pode-se observar melhoria em alguns dos serviços privatizados, claro que com aumentos consideráveis das tarifas, embora há cerca de três anos os progressos parecem ter sofrido uma paralisação. Há casos, como o da outrora poderosa rede ferroviária, nos quais os subsídios do Estado persistem, naturalmente, hoje em dia a favor dos grupos privados encarregados. Do lado negativo, 50% da população potencialmente ativa está desempregada ou semi-ocupada, contra cerca de 20% que havia no início do plano. O país produz, por dia, dois mil novos pobres (pobre é uma família de quatro pessoas com renda mensal total de US$ 420). A dívida pública externa triplicou e a dívida privada também externa, antes irrelevante, é, hoje, de aproximadamente US$ 60 bilhões.

O fracasso como nação moderna da Argentina é mais chamativo se forem considerados seus bem reconhecidos recursos humanos, suas capacidades intelectuais que não se detêm na literatura, e se estendem à ciência em geral. Se forem levados em conta seus recursos alimentícios e formidáveis riquezas minerais. Se forem estimadas suas capacidades turísticas variadas, algumas de elevadíssima beleza. Se for observado que não só seu famoso agro é um solo incomparável, mas que seu mar territorial está entre os três mais extensos do mundo, com um milhão de quilômetros quadrados. Se se recordar que a Argentina esteve há algumas décadas entre as dez primeiras potências econômicas do mundo. (IPS)

(*) O autor, Alfredo Allende é deputado nacional pela União Cívica Radical, ex-ministro do Trabalho.