09 de julho de 2026
Geral

A.A. atendem 500 pessoas por ano

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 6 min

Bauru conta com quatro grupos dos Alcoólicos Anônimos. Iniciativa de procurar ajuda tem que partir do dependente.

O Grupo Alcoólicos Anônimos, conhecido como A.A., está completando 27 anos de atividades em Bauru. Segundo um dos coordenadores da sede do grupo, localizada no Centro da cidade, que pede para ter seu nome preservado em função da filosofia de trabalho, que é baseada no anonimato, atualmente cerca de 20 a 25 pessoas participam de reuniões diárias na sede do A.A. O grupo também tem local de atendimento nos bairros Cruzeiro do Sul, Vila Falcão e Independência.

De acordo com o coordenador, não é possível saber quantas pessoas já passaram pelo A.A. desde a sua fundação em Bauru porque elas não são cadastradas e o grupo não possui nenhum arquivo. Mas, há estimativas de que aproximadamente 500 pessoas -desde jovens até idosos - passam pela irmandade de voluntários, anualmente. Ainda existem muitas pessoas que não conhecem o trabalho do A.A. e que aparecem no grupo esporadicamente.

De acordo com o coordenador da sede central, o grupo não possui um líder, e sim, pessoas que orientam os que procuram ajuda e que mantêm a estrutura básica da irmandade.

As reuniões diárias que fazemos aqui são para trocas de experiências. Ninguém fica ensinando ao outro o que deve fazer. No A.A. é proibido proibir, mas existem regras que devem ser seguidas para alcançar a recuperação. O desejo de ficar sóbrio tem que partir da própria pessoa. Não adianta alguém da família ou a namorada querer e incentivar se a pessoa não tiver força de vontade para superar esse problema. O alcoolismo é uma doença e o apoio da família para a recuperação do dependente é fundamental, diz o coordenador.

De acordo com ele, quando uma pessoa entra para o A.A. ela é orientada sobre os 12 passos, tradições e conceitos da filosofia do grupo. Os 12 passos visam a recuperação do dependente de álcool. As tradições dizem respeito à forma de vida de cada um dentro da sociedade e às regras que devem ser cumpridas para conseguir a recuperação.

Os conceitos visam os trabalhos internos que cada um desenvolve dentro do grupo. Todo o programa do A.A. é sugerido. Nada é imposto. Para oferecer assistência, o grupo não cobra nenhuma taxa nem mensalidade.

O coordenador diz que o maior perigo do alcoolismo para quem começa bebendo socialmente é o de que o hábito vira o costume e o costume pode virar vício. Isso é muito perigoso, principalmente, para as pessoas que têm pré-disposição ao alcoolismo, porque isso leva à dependência muito rapidamente, observa.

Depoimentos

O atual coordenador da sede central do Grupo A.A. em Bauru já foi dependente de álcool e conseguiu se recuperar. Está sóbrio há mais de quatro anos. Ele tem 37 anos de idade e conta que bebeu durante 22 anos da sua vida. Nessa época, ele passou por três casamentos, teve filhos e as relações familiares foram prejudicadas em função do alcoolismo. Ele conta que só não perdeu o emprego porque era concursado. Começou a beber socialmente, até que perdeu o controle.

Perdi família, filhos e a minha dignidade. Com o passar do tempo, junto com o álcool também me tornei dependente químico. Perdi completamente o controle sobre a minha vida, passei a morar na rua e a mendigar. Até que um dia, em 1997, conheci uma mulher que falou sobre uma fazenda de recuperação, em Campinas. Fui para lá, fiquei internado por seis meses, trabalhei durante dois anos como voluntário e vi que aquele era o meu caminho, conta.

Depois disso, ele voltou a Bauru, conseguiu manter a recuperação e passou a integrar o Grupo A.A. da cidade. Desde que entrou para o programa de recuperação, em Campinas, não teve nenhuma recaída. Fez cursos de computação e realiza diversos trabalhos na área de informática, além de receber aposentadoria.

Outro membro do A.A. que deu seu depoimento ao JC conta que começou a experimentar bebidas alcoólicas com cerca de 5 anos de idade, com a permissão do pai. Até os 28 anos, bebeu sem parar. Depois, pediu ajuda. Atualmente, está com 43 anos.

Eu não tive orientação por parte dos meus pais e passava muito tempo na rua. Foi quando eu disparei a beber. Quando tinha 28 anos, descobri que eu era um alcoólatra compulsivo e consegui procurar ajuda, porque estava muito mal. Naquela época, eu tomava dois litros de pinga por dia e já nem ficava bêbado. Então, escolhi entre morrer ou procurar ajuda, conta.

Ele foi internado e ficou dois anos sem beber, mas teve recaída duas vezes. Após entrar para o Grupo A.A., em Bauru, conseguiu começar sua recuperação e está sóbrio há três meses.

Só por hoje

Os grupos do A.A. têm diversos livros, com temas ligados ao alcoolismo e ao trabalho do grupo. Eles podem ser comercializados ou consultados por qualquer membro do grupo. Um deles, intitulado Vida sóbria, tem, em uma das primeiras páginas da publicação, 31 sugestões para os dependentes de bebida alcoólica. Entre elas: evitar o primeiro gole; vá com calma; viver e deixar viver; entrar em atividade; lembrar que o alcoolismo é uma doença progressiva, incurável e fatal; fugir às armadilhas do se; encontrar seu próprio caminho e procurar assistência especializada. No A.A., o lema é Evite o primeiro gole. Só por hoje.

As pessoas que estão em recuperação são orientadas a viver dentro dessa filosofia de só por hoje para que consigam superar os obstáculos gradativamente. Pensar em fica sóbrio eternamente é muito difícil. Temos alguns programas para isso, como o dos dez minutos. Nesse, o recuperando deve ir contando cada dez minutos do dia dizendo que ficará sóbrio, até que ele consegue passar 24 horas sem beber, e assim progressivamente. Eu fiz isso quando estava me recuperando, conta o coordenador da sede central do A.A. em Bauru.

Nessa sede, também existem reuniões de apoio direcionadas a familiares de pessoas dependentes do álcool. Elas são realizadas às segundas e quintas-feiras, das 20 às 22 horas, e aos sábados, das 15 às 17 horas. O telefone para mais informações é (14) 234-0250, após as 20 horas.

O Grupo A.A. surgiu na cidade de Akron, em Ohio, nos Estados Unidos, no ano de 1935. Quatro anos depois, foi lançado o primeiro livro da irmandade. No Brasil, o primeiro grupo foi fundado no dia 5 de setembro de 1.947, na cidade do Rio de Janeiro. Estima-se que, atualmente, existam cerca de 97 mil grupos em todo o mundo e mais de dois milhões de membros em 150 países. No Brasil, são mais de seis mil grupos.