11 de julho de 2026
Geral

À beira do abismo econômico e em meio a uma convulsão social, ontem, país decretou estado de sítio. Na madrugada de hoje, o ministro da Economia, Domingo Cavallo, deixou o cargo.

France Presse
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Medida foi adotada após um dia de violência e saques a supermercados. Governo vê ação política de grupos.

Buenos Aires - O governo do presidente Fernando de la Rúa declarou o estado de sítio diante da grave agitação social que atinge a Argentina, confirmou uma fonte do governo.

Oficialmente, o presidente argentino Fernando de la Rúa negava. Mas, nos bastidores, já oferecia a cabeça do ministro Domingo Cavallo (Economia), para tentar amenizar as críticas ao governo. Numa reunião em que participaram membros do governo e Raúl Alfonsín, ex-presidente argentino (1983 a 1989), De la Rúa disse: "Aceito propostas e alternativas para sair da situação em que nos encontramos porque não sou escravo nem desta política nem deste ministro".

Sinalizou mudar o regime de conversibilidade (um peso vale um dólar). As opções seriam desvalorizar o peso, dolarizar a economia ou promover uma mistura dos dois. Ou mudar Cavallo.

De la Rúa já teria iniciado conversas informais com assessores, buscando um nome para substituir Cavallo. Daniel Marx, ex-vice-ministro da Economia, seria o mais cotado para assumir o cargo -ele havia brigado com Cavallo.

Saques, morte, país vive um dia de caos

Manifestantes destruíram ontem o Palácio Municipal da cidade de Córdoba (centro), enquanto se multiplicavam os saques em bairros pobres das províncias de Buenos Aires e Entre Ríos, depois de uma noite de fúria e medo na Argentina.

Pelo menos 20 atos de pilhagem e tentativas de saques a supermercados e lojas foram registrados ontem nos distritos de Três de Fevereiro, José C. Paz, Villa Pineral, Caseros, San Martín, Castelar e San Miguel, informou a polícia, que anunciou que pediu reforços para conter os assaltantes.

Policiais dispararam balas de borracha para dispersar os trabalhadores, que contra-atacavam atirando pedras, no centro de Córdoba. Em outros distritos os saqueadores eram combatidos com bombas de gás lacrimôgeneo.

Em 1989, o ex-presidente Raúl Alfonsín teve que renunciar seis meses antes do final de seu mandato, em decorrência de uma onda de saques em todo o país por causa de uma hiperinflação.

O presidente Fernando de la Rúa, também da União Cívica Radical (UCR) como Alfonsín, não fez nenhuma declaração ao chegar na manhã de ontem à sede da entidade católica Cáritas, para participar de uma reunião que deveria analisar a crise.

Porém, habitantes do bairro de San Telmo, onde funciona a Cáritas, gritavam para De la Rúa: "Resolva a crise, ponha-se à frente!".

O porta-voz do governo federal, Juan Pablo Baylac, disse que "existe uma ação violenta organizada" e acrescentou que nos saques "atuaram grupos de vândalos, os quais não estavam em situação desesperadora de fome", considerando delitos os atos de violência social. Na madrugada de terça-feira para quarta-feira, homens e mulheres formaram barricadas, incendiaram pneus, madeiras e papéis, e saquearam lojas.

Os manifestantes gritavam "temos fome, queremos comida!", enquanto eram contidos pela polícia. "Isto é um processo anárquico. Este modelo econômico está empobrecendo as pessoas e não se sabe como sair porque existe o caos. Sem justiça não há saída para este governo", disse Eduardo Duhalde, senador e um dos líderes da oposição peronista, ao chegar à Caritas. O ministro do Interior, Ramón Mestre, afirmou, antes do início da reunião, que os saques "não são por fome, mas se tratam de uma questão política".

Comerciante chinês mata invasor de estabelecimento

Um homem ainda não identificado foi assassinado a punhalada, ontem, depois de invadir um supermercado na localidade de Villa Fiorito (periferia Sul da capital argentina). O desconhecido foi morto pelo proprietário do negócio, um chinês, enquanto tentava saquear o estabelecimento com outras pessoas, informou a polícia. O comerciante, cujo nome não foi divulgado, foi preso pela polícia momentos depois do homicídio, acrescentou a polícia. Esta foi a primeira morte registrada pela convulsão social marcada por saques e que começa a tomar corpo na Argentina.

Carro do presidente chutado e apedrejado

Manifestantes apedrejaram e chutaram ontem o carro oficial do presidente argentino, Fernando de la Rúa, que estava no veículo, saindo de uma reunião multi-setorial anticrise na sede da entidade católica Cáritas. Ao se retirar do encontro, no meio de um tumulto, De la Rúa foi xingado por um grupo de manifestantes, alguns dos quais jogaram pedras e deram pontapés na viatura oficial. O incidente é fruto de uma séria convulsão social que já provocou, inclusive, dezenas de saques a supermercados em vários pontos do país. Uma hora antes, quando o presidente chegou à sede da Cáritas, a 150 metros da Casa de Goveno, os moradores da vizinhança gritavam de suas janelas: "resolva a crise, tome o comando".