As discussões das últimas semanas mostram que não devemos ter ilusões sobre a disposição do Banco Central em baixar as taxas de juro. A autoridade monetária tem emitido sinais de uma grande preocupação com novas pressões inflacionárias derivadas do aumento de 20% nos preços da energia elétrica projetado para o início de 2002. Trabalhando com uma apertada meta de 3,7% de inflação para os próximos 12 meses, o Banco Central não dispõe de margem de manobra para utilizar a política monetária como fator de estímulo ao crescimento da economia. Significa que ingressamos na etapa final desse longo mandato presidencial com a perspectiva de mais um ano de crescimento medíocre e sem perspectiva de melhorar a oferta de emprego, o que será a mais completa negação do principal compromisso assumido na campanha pela reeleição.
Estamos colhendo os frutos de um dos casos mais escandalosos de imprevidência e de falta de planejamento de nossa história. Durante sete anos, o governo negligenciou os investimentos na área estratégica da energia, aparentemente por acreditar que a forma moderna de governar pressupõe o abandono de qualquer planejamento estatal. Surpreendido pela crise no abastecimento, impôs um corte de 20 % no consumo de energia , o que contraiu o nível da atividade econômica, reduzindo à metade a taxa de crescimento do PIB projetada em 4% para 2001. Como não podia deixar de acontecer, os níveis de desemprego voltaram a crescer, pois existe uma correlação muito próxima entre a taxa de crescimento do Produto e o crescimento do emprego. É facilmente comprovável que, quando o PIB cresce num determinado trimestre, deve-se esperar uma redução da taxa de desemprego no trimestre seguinte.
Os consumidores se comportaram de forma admirável no período mais agudo do racionamento, aceitando as restrições ao seu bem-estar, sem grandes reclamações.
Com a volta das chuvas e um início de recuperação dos reservatórios das hidrelétricas, o racionamento pode ser amenizado, mas não suas conseqüências. Tanto o consumidor residencial como os setores de produção estão sendo penalizados com o substancial aumento nas tarifas, atingindo a renda familiar e os custos das empresas, o que vai se refletir no nível da atividade econômica e, novamente, nos níveis de emprego. Esse aumento é mais um subproduto da incompetência com que foi conduzido o processo de privatização, quando o governo se comprometeu a compensar financeiramente as empresas de energia pela eventual queda no consumo. Tendo sido privado do uso da energia, o consumidor terá que pagar pelos 20% que não consumiu! E o governo ainda autorizou o BNDES a utilizar o dinheiro do FAT, que pertence ao trabalhador, para emprestar às empresas privatizadas que tiveram queda de receita porque não forneceram a energia.
Esse curto-circuito na capacidade administrativa do governo se completa pelo fato que, devido à pressão inflacionária exercida pelo tarifaço, o Banco Central se sente impossibilitado de reduzir as taxas de juros como seria necessário para reanimar a atividade econômica, fazer crescer o PIB e recuperar os níveis de emprego.
PS: Este comentário já estava pronto quando o Conselho de Política Monetária - Copom - manteve a taxa Selic em 19,5% confirmando a expectativa do mercado. É claro que a crise que está convulsionando a Argentina acrescenta algumas dificuldades e contribui para a atitude conservadora do Banco Central, mas não é o fator determinante. Sobre a questão argentina, aliás, dispenso-me de maiores comentários pois tratei do assunto há duas semanas nesta mesma coluna, no artigo sob o título É o Fim do Caminho.
Aproveito a oportunidade para desejar boas festas aos pacientes leitores e um feliz 2002.
(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br