Os profetas prediziam que o mundo iria acabar em fogo. Estamos no final do primeiro ano do terceiro milênio e sequer uma fumacinha. Falharam na entrada do ano mil mas foram à forra os profetas: de dois mil não passarás. Veio o segundo milênio e os fogos de artifício tingiram os céus de cores em todos os quadrantes. Nada. Inconformados, muitos intérpretes dos desígnios de Deus emendaram que o segundo milênio teria início, de fato, à hora zero de 2001. No revéillon passado ninguém se tocou mais com essa história. Apenas alguns grupos místicos esperaram o fim do mundo e se decepcionaram. Agora os novos adivinhos animados com a tragédia de Nova York e a ameaça de guerra nuclear entre o Paquistão e a Índia, fazem uma releitura dos alfarrábios. Acharam em algum lugar que o fim dos tempos acontecerá no início do primeiro ano palindrômico.
Palíndromo é a palavra, frase ou número que lido da direita para a esquerda e da esquerda para a direita tem a mesma interpretação. É bem o caso de 2002. Outro dia li uma nota sob o título Tucano na Cut. Leia ao contrário e sinta a minha dupla preocupação.
O homem médio, dentro das limitações do seu conformismo, jamais leva a sério essa espécie de terrorismo do espírito. Quem retratou bem essa condição foi Alphonse Allais, o príncipe do humor negro na França segundo a classificação de André Breton, o papa do surrealismo. Eis o reconto com alguns pontos a mais e a menos:
Já era quase meia-noite, a festa estava no auge e os alegres convivas eufóricos, alegres e amorosos. O anfitrião chama a atenção de todos, as belas mulheres deixam de rir e ele anuncia para dentro de segundos a chegada do ano 1900. E eis que o velho relógio da sala de jantar interrompe seu tique-taque monótono e sussurrante para deixar cair as doze badaladas. Lentas e graves, com aquele ar de censura peculiar aos velhos relógios de família.
- Senhores, é meia-noite! É hora de negarmos a existência de Deus.Toc-toc! Alguém batia à porta. O dono da casa abriu a porta esperando algum retardatário e dá com um velho com grande barba prateada, alto, vestindo uma longa túnica branca.- Quem é você, meu bom velho?E o velho respondeu com grande simplicidade:- Sou Deus.O anfitrião, que inegavelmente tinha grande sangue-frio, convidou-o.- Espero que isso não possa lhe impedir de brindar conosco.
Na sua infinita bondade, Deus aceitou o convite do moço e, em pouco tempo, todos se sentiam à vontade.
O autor não diz do que conversaram. Fosse nos dias de hoje Ele por certo teria se queixado dos homens. Dois mil anos depois de ter enviado seu Filho unigênito para redimi-los, os homens ainda não conseguiram viver em paz e harmonia. Continuam se matando, e pior, em Seu nome. No conto de Allais, quando o azul matinal já empalidecia as estrelas, o visitante decidiu deixar a festa ainda animada. Levado à porta pelo anfitrião, com a melhor boa vontade do mundo, Deus concordou que ele, Deus, não existia.
(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC