09 de julho de 2026
Geral

Custo pesa na opção do vestibulando

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

As mensalidades provocam protestos e abandono de curso por parte de estudantes de universidades particulares

Em tempos de crise econômica, na hora de escolher a universidade, os vestibulandos e suas famílias analisam não só o reconhecimento que a institutição tem, mas também o custo que ela representará no orçamento. Por isso, a opção de muitos por universidade pública deve-se não apenas aos nome, que pesa no currículo, mas ao fato das mensalidades das instituições particulares pesarem no bolso.

Sem condições de pagar o curso em instituição particular, estudantes enfrentam vários vestibulares em faculdades e universidades públicas. O preço das mensalidades das universidades privadas contribui para o aumento no índice de abandono dos estudos no decorrer do curso. Em alguns casos, o valor pago mensalmente às instituições de ensino é maior que os primeiros salários recebidos pelo profissional graduado em ensino superior.

Os índices de inadimplência das universidades particulares também revelam as dificuldades enfrentadas pelos que lutam por um diploma, para enfrentar com mais armas o mercado de trabalho. Por isso, os vestibulares das universidades públicas cada vez estão mais concorridos. Noemi Rodrigues Simião é uma das estudantes que só está prestando universidade pública.

Ela está concorrendo a uma vaga no curso de Pedagogia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, embora o curso também seja oferecido em Bauru na Universidade Paulista (Unip) e na Universidade do Sagrado Coração (USC). Eu estou prestando porque eu quero fazer em Bauru e é a única opção de universidade pública. Eu não tenho condições de pagar uma faculdade particular, expõe.

Pedro José de Souza é outro jovem que vive situação semelhante à de Noemi. Ele está tentando uma vaga no curso de Psicologia da Unesp e também diz que não teria recursos para pagar uma universidade privada. É caro nas particulares e as opções de públicas são menores. Fica muito concorrido, reclama.

Já Michelli Lima dos Santos está prestando vestibular para o curso de Fonoaudiologia na Universidade de São Paulo (USP) e Direito na Instituição Toledo de Ensino (ITE) e na Unesp. Caso ela não consiga uma vaga em universidade pública, terá que trabalhar para ajudar nas despesas da casa. Particular, eu só prestei a ITE porque o curso que eu quero é Direito, só que é alto o preço. Vai ser difícil cursar uma particular, diz.

Para Paola Prevatto Colomino, que está tentando uma vaga nos cursos de Letras da USC e da Unesp, os preços das universidades privadas são abusivos. Acho que vai ser difícil pagar USC. Os preços são absurdos. Eu prefiro a Unesp, reforça.

Formandos

Em alguns casos, as mensalidades cobradas pelas universidades particulares levam os estudantes a abandonar o curso ou realizá-lo em maior número de anos, quando as disciplinas são oferecidas em esquema de créditos.

Da primeira turma do curso de Jornalismo da USC, por exemplo, apenas dois alunos estão se formando este ano, de acordo com o estudante Reinaldo Chaves. Embora esteja cursando o quarto ano, ele é mais um dos que optaram por menos créditos por semestre.

O grupo de Jornalismo da USC teria inicialmente 70 alunos, dos quais cerca de 20 chegaram ao quarto ano. Desses, apenas dois cursaram semestralmente todos os créditos oferecidos para que o curso seja concluído em quatro anos.

Os alunos explicam que é comum a opção por um número mínimo de créditos com o objetivo de amenizar os gastos. A média de créditos por semestre no curso de Jornalismo é de 25. Um crédito custa mensalmente R$ 31,75. Ou seja, para concluir o curso em quatro anos, os universitário têm que desembolsar mais de R$ 750,00 por mês. Já um estudante de Odontologia da USC, paga cerca de R$ 1.700,00 por mês. As pessoas não conseguem pagar, não conseguem bolsa, não conseguem acordo e acabam fazendo em cinco ou seis anos, expõe Reinaldo.

Marcus Vinícius de Oliveira, apesar ter concluído o curso de Jornalismo, também acha a mensalidade cara. Não é barata. Tem muita desistência em virtude disso, conta.

Reinaldo acredita que o índice de inadimplência seria menor se o preço das mensalidades fossem reduzidos.

Este ano, o assunto motivou protestos por parte de estudantes de todo o Brasil. Em Bauru, estudantes da ITE e da USC manifestaram-se em frente aos portões das instituições pedindo redução das mensalidades, que neste fim de ano estão sendo reajustadas.

Informações sobre índices de abandono de cursos foram solicitadas junto à assessoria jurídica da USC e à diretoria educacional da ITE, mas não foram divulgadas. Os responsáveis pela Unip-Bauru não foram localizados pela equipe de reportagem.

Bolsa de estudos

Um decreto publicado no Diário Oficial da União no último dia 29 de novembro estabelece que estudantes carentes de escolas e universidades filantrópicas recebam bolsas de estudos no valor igual ou superior a 50% das mensalidades cobradas. Em Bauru, as regras devem beneficiar estudantes da Universidade do Sagrado Coração (USC) e da Instituição Toledo de Ensino (ITE).

Instituições de ensino filantrópicas são aquelas isentas da cota patronal do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Segundo o decreto, elas devem aplicar o valor correspondente a essa contribuição cedendo bolsas de estudos a estudantes carentes.

Estima-se que a medida possa beneficiar anualmente pelo menos 100 mil estudantes de 300 instituições de ensino superior e 50 mil estudantes de 700 escolas de ensino médio, além de um número também elevado de alunos do ensino fundamental.

Cada instituição de ensino filantrópica deverá formar uma Comissão Permanente de Seleção e Acompanhamento de Bolsas de Estudo. Ela deverá ser composta por dois representantes da direção, dois dos professores e dois indicados pelos estudantes. O objetivo da comissão é definir e tornar públicos os critérios de concessão das bolsas na respectiva instituição. Também receberá as inscrições e selecionará os candidatos.

De acordo com a assessoria de imprensa da USC, a universidade concede diversos tipos de bolsas, entre elas parciais, integrais, reembolsáveis e bolsa-estágio. A assessoria jurídica da instituição, no entanto, responsável pelos detalhes sobre as bolsas que corresponderiam ao decreto publicado recentemente, não prestou esclarecimentos à equipe de reportagem até a noite de sexta-feira.

Informações sobre as bolsas foram solicitadas à diretoria educacional da ITE, mas não foram divulgadas.