Salas de espera abarrotadas, pacientes espalhados e mal acomodados nos corredores, gente transitando sem normas - é a rotina tumultuada dos prontos-socorros municipais
Assunto de muitas edições do Jornal da Cidade, os problemas dos prontos-socorros municipais de Bauru parecem não ter fim. As queixas dos pacientes quanto à demora no atendimento, a baixa qualidade dos serviços, a falta de médicos e medicamentos mantêm-se constantes nos últimos anos. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) é taxativa: é preciso reformar e ampliar as estruturas. Os projetos existem e estão aprovados. Mais uma vez, esbarra-se numa mesma questão: de onde virá o dinheiro?
De acordo com a titular da SMS, a médica Eliane Fetter Telles Nunes, só para promover reformas e adequações na área física das cinco unidades de pronto-atendimento (Central, Infantil, Mary Dota, Bela Vista e Ipiranga) seriam necessários entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão. Atualmente, a Secretaria conta com aproximadamente 22% do orçamento municipal anual (cerca de R$ 24 milhões em 2001). Deste total, 78% dos recursos estão comprometidos com a folha de pagamento. O valor restante é aplicado no custeio das unidades, compra de materiais, manutenção de equipamentos, entre outros.
O problema dos prontos-socorros não é novo. Apresentamos o primeiro projeto de reforma em 1999. Ele já foi revisto e reapresentado várias vezes, com orçamentos cada vez mais enxutos, mas não conseguimos a verba. O projeto inicial previa a reforma dos PS Central e Bela Vista, orçados em R$ 566 mil. Em setembro deste ano, encaminhamos nova solicitação pedindo verba só para a reforma do Central, no valor de R$ 222 mil. O Governo do Estado enviou um ofício em novembro dizendo ser favorável ao atendimento da solicitação, porém, não dispor dos recursos no momento. Eles dizem ter cadastrado o pedido para futuro atendimento, comenta Nunes.
Retrospectiva
As reclamações da população sobre a demora e o mal atendimento nas unidades municipais de saúde é história antiga. Mas a gravidade da situação veio à tona, de fato, em outubro do ano passado, quando um estudante universitário morreu no Pronto-Socorro Central (PSC) vítima de um aneurisma cerebral. Na época, testemunhas disseram que o jovem passou mais de cinco horas no corredor sem receber a devida atenção e, quando os médicos anunciaram o diagnóstico correto, já não havia mais o que fazer.
As denúncias de omissão de socorro levaram o Conselho Regional de Medicina (CRM), o Conselho Municipal de Saúde (CMS) e a Vigilância Sanitária Estadual (Visa) a promover vistorias nas cinco unidades de pronto-atendimento do Município. Os resultados apontaram inúmeras irregularidades, principalmente na estrutura física dos serviços, no número de profissionais e na quantidade de medicamentos e exames disponíveis.
Na mesma época, pressionados pela opinião pública, que voltou-se totalmente contra os médicos, o Corpo Clínico do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) também apresentou um documento à Prefeitura reivindicando providências para 20 tópicos que lhes garantissem melhores condições de trabalho.
Conforme os resultados foram aparecendo e a situação foi ficando mais escancarada, a titular da SMS decidiu promover uma intervenção nos serviços e formou uma comissão de seis profissionais de sua confiança para passar o pente fino nos prontos-socorros. A partir daí, diversos projetos foram elaborados e algumas coisas vêm sendo readequadas lentamente de lá para cá.
No entanto, um ano depois, os problemas mais gritantes persistem, pois exigem um montante elevado de verbas, que o Município, segundo Nunes, não tem. Ela defende que a alternativa é requerer o dinheiro dos Governos Estadual e Federal, além de pleitear apoio de instituições de classe e da iniciativa privada.