09 de julho de 2026
Geral

Andarilho por um dia

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

É muito difícil para quem tem uma vida razoavelmente confortável imaginar como é ficar sem comer e ainda enfrentar os olhares preconceituosos das pessoas pelo seu jeito de se vestir e se portar. O ator e professor de teatro Huxley Pontes Luz de Pádua Cerqueira sentiu isso na pele ao se vestir como um andarilho durante uma performance teatral na faculdade onde estuda. Nascido em uma família de classe média alta, ele nunca passou necessidades materiais e pôde comprovar como não é fácil para uma pessoa, que não teve tantas oportunidades na vida, encarar a sociedade

Jornal da Cidade - Desde quando você é ator?Huxley Pontes Luz de Pádua Cerqueira - Desde pequeno eu sei que quero trabalhar com teatro, televisão. Sempre quis ser o Papai Noel nas festas de fim de ano, de fazer algum tipo de apresentação nos aniversários. Os meus amigos iam jogar bola, eu quase não jogava, ficava fazendo filmagens com a minha irmã, imitava as pessoas. Cheguei a fazer três anos de Direito mas abandonei, com o apoio da família, e optei por fazer aquilo que eu gosto. Faz uns quatro ou cinco anos que eu estou no meio. Estou há três anos na faculdade de Artes Cênicas.

JC - Como surgiu a idéia de interpretar um andarilho?Cerqueira - Era uma coisa que eu queria muito fazer. Queria conhecer o outro lado da vida. Busquei isso através de observação porque o ator não pode se apegar ao texto, tem que ir além, ir pelo emocional. Eu estava sem carro e comecei a vir a pé da minha casa, próxima ao aeroporto, até o teatro municipal. Todo dia, eu observava um andarilho que vive lá no Vitória Régia. Eu tentei me comunicar com ele, mas ele evitou e tudo partiu daí. Percebi que eles são bem isolados. Andarilhos são diferentes dos mendigos, eles têm uma vida própria, não pedem nada para as pessoas. Eles mexem no lixo, andam de um lugar para o outro e se viram sozinhos, têm horários malucos. Os mendigos interagem. Me encantei com aquela pessoa que todo o dia tinha a mesma rotina, me encantei com essa maneira deles sobreviverem. Decidi que tinha que fazer alguma coisa.

JC - E o que você fez?Cerqueira - Comecei a observar mais os andarilhos e a saber mais sobre como eles vivem. Encontrei muitos na estrada para Agudos, percebi características próprias, como a latinha que eles usam para acender o fogo, o saco que serve para guardar de tudo, a touca, que alguns usam... Também comecei a me questionar e pensar no que eu podia fazer para ajudá-los. Não que antes eu não os enxergava, só que depois de conhecê-los e de ser um deles por um dia eu passei a vê-los de outra maneira. Eu fui um deles, fui ridicularizado, passei fome.

JC - Como você se tornou um andarilho?Cerqueira - Fazia parte de uma apresentação que eu ia fazer, uma performance. Peguei roupas velhas e sujei, deixei a minha barba crescer, o cabelo já estava grande também. Fiquei os dois dias anteriores à apresentação sem comer para poder sentir a fome que eles sentem e deixei de ter o cuidados de higiene que normalmente teria. Tentei chegar o mais próximo do real possível.

JC - Quantas pessoas sabiam que você iria se disfarçar?Cerqueira - Meus pais e alguns amigos sabiam. Eu fiz essa apresentação na faculdade, dentro de um projeto que estava sendo realizado. A idéia inicial era fazer uma performance em cima de um texto que eu tinha escrito que era até bem-humorado, falava de um andarilho que vem do Nordeste. Durante o processo, eu comecei a me sensibilizar e não querer mostrar só o lado engraçado, eu iria me sentir mal. Então, decidi fazer também uma parte dramática e foi essa primeira parte que incomodou as pessoas.

JC - Como elas reagiram?Cerqueira - Eu me caracterizei sem que ninguém me visse e comecei a andar entre as pessoas. Não usei maquiagem para não parecer um ator maquiado, o que me delataria. Logo as pessoas ficaram espantadas com a minha presença num lugar onde há segurança. Eu mesmo fiquei espantado com a atitude das pessoas e por alguns segundos me senti mesmo um andarilho. Fiquei até com medo de alguma reação violenta, mas assumi para mim mesmo que não iria sair do personagem de jeito nenhum.

JC - O que você esperava das pessoas?Cerqueira - Eu esperava que fosse ser bem-tratado, que alguém fosse me pagar um lanche. A gente sempre pensa o melhor, mas nem sempre o melhor acontece. Algumas pessoas olhavam para mim e paravam de comer o salgado que tinham na mão. Quando eu me virava, elas voltavam a comer. Era bem claro que eu estava incomodando. Eu pensava que, por elas terem condições de comprar um salgado todos os dias, fossem me dar algo para comer, mas não houve isso. Outras reações eram de questionamento, como um cara como esse pode estar andando aqui? eu via na cara das pessoas. Com isso, o meu lado psicológico foi ficando abalado. A coisa foi crescendo de uma maneira que eu tive que me controlar muito. A minha vontade era de chorar porque estava me sentindo excluído mesmo.

JC - Ninguém se sensibilizou?Cerqueira - Uma pessoa, um professor, me deu um pedaço do salgado que estava comendo. Ele estava meio emocionado. Eu peguei o pedaço do salgado e todo mundo viu que eu estava olhando para ele como se fosse a coisa mais valiosa do mundo para mim, o certificado da casa própria, um carro novo. Coloquei na boca e optei por vomitá-lo na frente de todo mundo ao invés de comer. Pensei que o andarilho está tão acostumado a comer coisas ruins, do lixo, que quando come alguma coisa boa o corpo estranha. E isso acontece mesmo, eu procurei saber. Eles comem coisas que ninguém comeria. Quando vomitei, as pessoas acharam depois que eu estava exagerando, mas é a realidade.

JC - Quantas horas você ficou no papel do andarilho?Cerqueira - Acabei fazendo três apresentações porque as pessoas ficaram impressionadas. No total, acho que foi uma hora e quarenta minutos de apresentação. O pior momento foram os 35 minutos iniciais, quando o andarilho sente medo de estar entre todas aquelas pessoas que o estão rejeitando. Eu também estava assustado ali. Na hora que eu encarei o andarilho, esqueci de muitas coisas, por isso esperei que as pessoas fossem me tratar de uma forma diferente. Pensei que elas fossem me tratar da maneira como eu o trataria. Eu me sentiria mal de ver alguém com fome daquele jeito, ia fazer alguma coisa porque sei que posso comprar outro salgado, outro refrigerante, que como todos os dias. Por isso fiquei decepcionado, as pessoas ficaram incomodadas.

JC - Quando as pessoas perceberam que era uma performance e que você não era um andarilho de verdade?Cerqueira - Quando começou a trilha sonora e eu comecei a interagir com outro ator. Para mim, a maior tristeza foi algumas pessoas dizerem que se soubessem que era teatro, teriam conversado comigo, dado um salgado. Quer dizer, se eu fosse um andarilho seria um pobre coitado mesmo. Disse para essas pessoas que deveriam ter feito o contrário.

JC - O final de ano é uma época na qual se fala muito sobre solidariedade, amor ao próximo, voluntariado, você sentiu na pele que, para muita gente isso é só teoria. O que mudou na sua vida após essa experiência?Cerqueira - Isso é triste porque para mim solidariedade não é só no final de ano. É claro que existem muitas pessoas que ajudam. Todo dia as pessoas precisam de ajuda, todo dia deveria ser como é no Natal. É claro que existem as pessoas que são boas, mas não sei onde estão os valores de muita gente. Para muitos, a Páscoa é época de ovo de chocolate, o Natal é época de presente. Depois que fiz o andarilho comecei a questionar um monte de coisas que não dependem só de mim. A gente tem que ser solidário todos os dias. As pessoas ficaram incomodadas porque eu estava mexendo no lixo, mas não em saber porque eu estava ali. A preocupação das pessoas estava na minha higiene, no jeito de me vestir. Onde estava a preocupação com a pessoa que estava ali? Existem aqueles que não ajudam os andarilhos dizendo: eles querem o dinheiro para tomar pinga. Facilitam dizendo isso. A pessoa pode até parecer que está bêbada, mas não cabe a nós julgar. Se não quer dar o dinheiro, então ajude, dê comida. A gente não deve julgar, deve ajudar. Se cada um fizer um pouquinho sempre, a melhora vai ser muito grande para todos.