07 de julho de 2026
Geral

O que esperar de 2002

(*) Luiz Carlos Mendonça de Barros
| Tempo de leitura: 3 min

Neste nosso último encontro do ano vamos divagar um pouco sobre o que nos espera em 2002. O próximo ano não será um ano comum. Ele tem características muito especiais que o diferenciam dos demais. Por isso não podemos usar os instrumentos usuais de análise para tentar construir um cenário crível para nossa economia. Vamos começar nosso exercício de futurologia alinhando o que faz de 2002 algo especial.

Ele marcará formalmente o fim de um longo período, em que o presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) comandou a vida de 170 milhões de brasileiros. Foram longos oito anos de muitas mudanças e de muitas crises. O presidente termina seu mandato odiado por muitos brasileiros, principalmente os funcionários públicos federais e os amantes do socialismo. Por outro lado tem também em seu Fan Clube cerca de 25% da população. Infelizmente, deixou um grande número de brasileiros na coluna do meio: respeitam o presidente, reconhecem seus méritos, mas não aceitam um liberalismo sem face humana que acabou prevalecendo nesses últimos anos. Essa maioria deseja um novo presidente que consiga fazer uma fusão entre a racionalidade econômica e estabilidade política do período FHC, cm a busca de uma melhora na qualidade de vida de um estrato maior da sociedade.

O próximo ano marcará com certeza o reconhecimento pelos investidores internacionais dos avanços que ocorreram na economia brasileira, nos últimos anos. A crise da Argentina, que se tornará ainda mais grave no decorrer de 2002, servirá como um parâmetro de comparação muito claro. Ao contrário do efeito contágio que muitos temem, eu espero o oposto. Quanto maior a crise de nosso vizinho mais respeito terá o Brasil perante a comunidade internacional. Haverá uma queda expressiva do chamado risco Brasil e uma redução nos juros que o país é obrigado a pagar nos mercados de capitais. Este processo deverá se aprofundar, na medida em que o quadro eleitoral mostre a grande probabilidade de que FHC fará seu sucessor.

O agravamento da crise da Argentina terá outro efeito, importante no Brasil. O sentimento de que a irresponsabilidade política de um partido populista como o dos peronistas, pode causar sofrimentos inimagináveis ao cidadão comum devendo custar muitos votos ao candidato Lula. Evidente que o PT não é o Partido Justicialista, mas o discurso econômico confuso do principal candidato da oposição pode passar essa impressão. E isso será explorado pela aliança de partidos que dão apoio a FHC. Nosso presidente vai nadar de braçada se isso acontecer.

Neste cenário róseo a economia real no Brasil vai retomar o ritmo de crescimento perdido em julho último, com o agravamento da crise na Argentina e a estúpida crise de energia que nos atingiu. Lentamente, mas com segurança, nossa economia deve terminar o primeiro semestre crescendo a mais de 3 % ao ano e chegar ao fim do ano acima disso. Somente um cenário eleitoral caótico com o candidato Lula com um discurso populista e ideológico liderando as pesquisas, pode mudar esse quadro. Mesmo a hipótese de vitória do PT, mas com uma proposta econômica mais consistente, não é incompatível com esta trajetória de crescimento.

Uma última variável importante na definição das cores pastéis, que deve ter 2002 é o comportamento da economia americana. Na hipótese de uma recuperação mais consistente, que é hoje minha expectativa, ao longo do próximo ano o dinamismo de nossa economia será reforçado ainda mais via crescimento de nossas exportações para a terra de Tio Sam.

Termino o ano, como pode sentir o leitor dessa coluna, com bons espíritos. Se eles se confirmarem nosso querido país poderá entrar finalmente em um período de crescimento sustentado, de alivio nas tensões sociais que hoje pesam sobre nossa sociedade e de melhoria na qualidade de vida da maioria da população.

(*) Luiz Carlos Mendonça de Barros é ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)