A afloração da sensibilidade, o sentimento de solidão e um certo tom de melancolia que atinge muitas pessoas na época das comemorações de final de ano são fatores que preocupam entidades que desenvolvem programas destinados à recuperação de dependentes químicos (drogas) e de álcool. É difícil falar em estatísticas, mas os coordenadores de entidades consultadas pelo JC afirmam que as recaídas de pessoas que estão em tratamento aumentam nesse período.
Roberto Gonçalez Cruz, coordenador do Grupo Amor Exigente - que administra programas voltados a toxicômanos e alcoólicos -, cita um exemplo dizendo que, no final do ano, de um grupo formado por 30 pessoas que estejam em tratamento há quatro meses até um ano, 10% delas sofrem recaída.
Uma voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), que não pode ter o nome identificado na mídia, afirma que, em dezembro, a entidade recebe um número de ligações entre 20% e 30% maior, na comparação com os outros meses do ano.
Um dos voluntários do Alcoólicos Anônimos (A.A.) diz que, na noite de segunda-feira, dia 31, haverá plantão na sede do grupo (rua Bandeirantes, 12-43). Alguns voluntários e freqüentadores do A.A. passarão toda a madrugada do dia 1º de janeiro na sede, para atender a eventuais procuras e também abrigar outros freqüentadores que não têm família em Bauru.
De acordo com Cruz, do Amor Exigente, independentemente da época do ano, a colaboração da família é essencial para a recuperação e para evitar as recaídas de um dependente de álcool ou de drogas que esteja tentando se livrar do vício. Se não existe a colaboração da família, 50% da recuperação do dependente já está comprometida. Nessa época de muitas comemorações, não é diferente, ressalta.
De acordo com ele, estudos estatísticos mostram que de cada 100 pessoas que fazem terapia, após sete anos somente uma continua viva, nos casos em que não há a participação da família.
Nas festas de final de ano, o grande problema é que os próprios membros da família colocam bebida dentro de casa. Para quem tem dependência cruzada (álcool e droga), esse é o primeiro passo para a recaída, alerta Cruz.
O voluntário do A.A., que não pode ter o nome revelado, explica que a filosofia do grupo é baseada no pensar em um dia de cada vez e em evitar o primeiro gole, entre vários outros passos.
Não existem regras nem imposições para os dependentes que estão em recuperação. Por isso, a ajuda da família é muito importante para que, durante as festas de final de ano, o primeiro gole de um alcoólico seja evitado. Nem mesmo a cerveja sem álcool pode ser consumida, orienta. O telefone para contato com o grupo A.A. é 234-0250, após as 20 horas.
A voluntária do CVV revela que a maioria das chamadas recebidas nessa época do ano, bem como o ano todo, são de pessoas que estão se sentindo sozinhas e com problemas de relacionamento humano.
Nós estamos aqui para ouvir essas pessoas e fazer com que elas sintam que têm com quem desabafar. Nessa época do ano, as ligações aumentam muito em função do sentimento de melancolia que atinge muitas pessoas, observa.
As ligações feitas para o CVV são totalmente sigilosas e as pessoas não precisam dizer o nome para conversar com os voluntários. O telefone é 222-4111 e atende 24 horas por dia.