O secretário de Estado da Saúde, José Guedes, anunciou em Marília que um hospital em construção em Bauru será administrado por Botucatu. E ponto final. Dias depois seu coordenador de Saúde ratifica a informação mas acrescenta que “não está nada decidido†mas a escolhida é mesmo a Faculdade de Medicina de Botucatu. A população de Bauru é tratada como uma massa amorfa que sequer tem o direito de saber o que pode representar em benefícios para a cidade essa gestão importada; se é a Faculdade de Medicina mesmo que vai gerenciar o Hospital ou se o serviço será terceirizado a uma Fundação com professores-diretores muito bem remunerados. Muito menos teve o bauruense a oportunidade de conhecer o modelo de gestão proposto para saber se a comunidade terá algum espaço participativo ou tudo obedecerá a prioridades ditadas por Botucatu.
A população da vizinha cidade também ficou apreensiva. Desconfia que a manobra esconde a estratégia de uma futura transferência da Medicina para cá. Enquanto isso outros observadores tentam fazer uma análise semiológica das declarações das autoridades e vislumbram que querem fazer do novo Hospital uma moeda de troca. Já que vocês amam tanto o HR, que fiquem com ele. A Reitoria da Unesp vai para Botucatu. “Questione finitaâ€, como concluem os mafiosos.
Vejam no que está dando a inabilidade de um secretário da Saúde que se arvora na posição de um purista tecnoburocrata quando, por todos os títulos exerce um cargo altamente político. Com a agravante - haverá eleições neste ano e o governador quer ser reeleito. O ministro da Saúde do mesmo partido aspira à Presidência da República. Em 1962, Bauru lutava por uma Faculdade de Medicina. Emílio Pedutti, dono de uma cadeia de cinemas, presidente da Associação Paulista de Municípios, então muito prestigiada porque o Municipalismo era tema em evidência, aproxima-se do governador Carvalho Pinto e leva a escola para sua cidade, Botucatu. Nicolinha, nosso único deputado à época, não foi páreo para o Pedutão e o “capital social†daquela cidade.
Lembro que os cientistas políticos chamam de capital social o nível de participação e de organização de uma sociedade. Se a sociedade não está tramada, na sua base, por organizações civis, se ela não tem iniciativa, se a confiança entre os grupos sociais não existe ou é pequena, ninguém pode ter desenvolvimento, nem mesmo crescimento econômico. Quanto menor o índice de organização da sociedade, mais pobre essa sociedade é, menos desenvolvimento tem. Menos ela inova, menos é capaz de afirmar a sua identidade. Fica à mercê do acaso. De nada adianta ficar cobrando essa performance do prefeito ou de deputados. Governos não fazem desenvolvimento; eles podem induzir e investir na criação de ambientes favoráveis, mas eles não podem fazer o desenvolvimento, porque o desenvolvimento não pode ser decretado. Um sociólogo chamado Robert Putnam chegou a essas conclusões depois de uma pesquisa de 25 anos, quando descobriu o porquê de algumas comunidades irem para frente e outras não, embora com recursos equivalentes.
Ninguém é contra a Unesp ou a “terra dos bons aresâ€. Temos o direito e disso não podemos abrir mão, de interferir no nosso próprio destino. O HR não veio de graça. Foi uma conquista. O prefeito Tidei de Lima na ocasião poderia ter pedido outro melhoramento ao governador Fleury. Temos tradição em administração hospitalar desde o início do século passado, com a Santa Casa de Misericórdia. Há 40 anos perdemos a Faculdade de Medicina. Depois a Brahma, a Coca-Cola, regionais de empresas importantes. Agora é a simples gestão de um hospital. Como no poema de Maiakowsky “eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim e não dissemos nadaâ€. Quem sabe amanhã pisarão as nossas flores e matarão os nossos cães. Até que um dia o mais frágil deles, encorajado pela nossa inércia, entre sozinho em nossa casa para roubar-nos a lua e, conhecendo nosso medo, arrancar-nos a voz da garganta. Nesse dia, porque não dissemos nada, já não poderemos dizer nada.
(*) O autor Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC