08 de julho de 2026
Articulistas

Cúpula Progressista

Márcio Chalegre Coimbra
| Tempo de leitura: 3 min

O presidente Fernando Henrique Cardoso retorna de uma das mais importantes reuniões de cúpula mundiais. Esteve reunido em Estocolmo, com outros 10 líderes representativos da chamada “progressive governance”, ou como é mais conhecida, “terceira via”. Este grupo se reúne periodicamente desde novembro de 1999, quando ocorreu o primeiro encontro em Florença. Entre a atual reunião sediada na Suécia e a italiana, os presidentes identificados com tal modelo, discutiram seus pontos de vista na capital alemã, Berlim. O grupo, ao que tudo indica, cresce a cada encontro.

Tony Blair, premiê britânico, é o principal propulsor do grupo que propõe novas formas de governar. Suas idéias foram claramente influenciadas pelo principal ideólogo da nova roupagem do Partido Trabalhista inglês, Anthony Giddens. Este novo modelo salienta que o mercado não consegue resolver todos os problemas do mundo e que o excesso de intervenção estatal também é entrave ao desenvolvimento. Logo, entre intervenção e liberalismo, pode existir um terceiro caminho, ou terceira via, e esta trilha foi batizada de “progressive governance”, que na realidade prega que o capitalismo seja, de certa forma, regulado.

O governo brasileiro, durante a administração do atual presidente, seguiu este novo caminho. O modelo adotado no Brasil, no que diz respeito às liberdades pessoais, é baseado na democracia e no pluralismo de idéias. No aspecto econômico, todavia, adota a liberdade econômica regulada pelo Estado, ou seja, ao invés do antigo monopólio público, hoje existem empresas privadas que concorrem entre si, porém, inseridas em normas claras pré-estabelecidas pelo Estado – idéia defendida pela “economia social de mercado” alemã. Portanto, no caso brasileiro, o Estado desestatizou setores e passou a fiscalizar e regulamentar por meio das agências de regulação.

Logo, o presidente Fernando Henrique foi coerente durante sua exposição em Estocolmo, pois alegou que não há neoliberalismo dentro de seu governo, pois este, na sua essência, não admite intervenção estatal na economia. Assim como outros líderes presentes à reunião, declarou que é criticado pela esquerda e por setores conservadores, já que atua em linha intermediária, ou seja, na terceira-via.

O encontro de Estocolmo, entretanto, não ocorre em bom momento para a progressive governance, pois este modelo perdeu as eleições em países extremamente representativos, como Estados Unidos e Itália, além estar a perigo na Alemanha, França e talvez no Brasil. Apesar da ausência de líderes significativos como o ex-presidente Bill Clinton, parceiro de Blair neste novo modelo, o grupo teve a adesão de novos membros e se ampliou. Estiveram presentes na Suécia, além do Brasil e do anfitrião, os mandatários do Reino Unido, Alemanha, França, Canadá, Portugal, Chile, Nova Zelândia, África do Sul e Polônia.

O presidente brasileiro, dentro de suas convicções ideológicas, alinhou o Brasil com os principais representantes desta nova tendência mundial. Esta aproximação pode se tornar extremamente benéfica para o País, especialmente se o próximo mandatário nacional tiver a perspicácia de manter as importantes conquistas no cenário internacional obtidas pelo presidente FHC. O Brasil traça, por meio destas reuniões de cúpula, importantes relações comerciais e de cooperação para futuros acordos. No final da reunião na capital sueca, foi lançado um comunicado intitulado “Uma Agenda Progressista para a Democracia e o Desenvolvimento”. Neste documento, foram incorporadas importantes posições defendidas pelo Brasil, especialmente frente à OMC. A diplomacia presidencial aplicada às reuniões de cúpula como as da progressive governance, insere nosso País de maneira hábil no jogo político internacional.

(*) O autor, Márcio Chalegre Coimbra, é advogado