08 de julho de 2026
Ser

Quebrando o gelo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Jornal da Cidade - Quando você decidiu se tornar atleta? Renato Hiromi Gimenez Mizoguchi - Com 8 anos de idade meu espírito de atleta começou a nascer, eu vivia correndo em volta de casa. No começo, não gostava muito de correr, mas com o passar do tempo comecei a gostar e disputei campeonatos juvenis de 100 metros rasos e nunca ficava a atrás do terceiro lugar. Com 13 anos de idade eu assisti as Olimpíadas de Seul, em 1988. Quando vi o símbolo olímpico, saíram lágrimas dos meus olhos, e deste dia em diante coloquei em meu coração que queria disputar as Olimpíadas. Um dia, machuquei o pé e fiquei um tempo sem correr e quando voltei, comecei a praticar a maratona. Participei duas vezes da maratona da São Silvestre, até que decidi ir para o Japão.

JC - Por que? Você foi sozinho? Mizoguchi - Meus pais se separaram quando tinha 3 anos de idade, assim fui morar com meus tios e avós, em Guaianases, SP. Meu pai não morava comigo, ele pediu para o meu avô tomar conta de mim. Fui para o Japão no dia 7 de dezembro de 1994, com 19 anos. Fui sozinho, sem ninguém da família, para trabalhar e também para fazer alguma coisa por mim. Meu maior sonho era ser famoso e poder ajudar muita gente. Nos primeiros três meses eu não agüentava, pois o serviço era muito puxado, mas como tinha um grande sonho, agüentei firme e consegui ficar por lá.

JC - Como você conheceu o luge, praticou outros esportes diferentes antes? Mizoguchi - Em 1996, eu acabei conhecendo o in line skate (aqueles patins com rodinhas em linha), comprei um bem barato e praticava perto de casa, pois caia muito. Depois de uma fratura no braço, resolvi largar meu serviço e levar o in line no profissionalismo. Fraturei o braço tentando dar um mortal no half pipe (as pistas em forma de “U” onde são realizadas provas de skate, patins e bicicletas). Em 1997, fiquei em 3º lugar no campeonato da cidade e em 8.º no compeonato nacional. Em 1998, fiquei em 2º lugar na cidade e 5º lugar no campeonato final e fui para a Inglaterra disputar os campeonatos com os maiores feras do mundo na modalidade. Ainda nesse ano, o time de bobsled (modalidade na qual duas ou quatro pessoas descem em um trenó por uma pista de gelo) do Brasil veio para o Japão tentar disputar as Olimpíadas de Inverno em Nagano. Foi uma surpresa pois lá no Japão eu via os jogos ao vivo na TV. Aguardei a time de bobsled aparecer na cerimônia de abertura, mas eles não apareceram. Fiquei muito triste mas no dia seguinte eles apareceram bem grande nos jornais e na TV. Enviei uma carta para eles dizendo que estava torcendo por eles e que só o fato de estarem pisando numa terra olímpica já era uma honra e tanto. Pedi para que eles não desistissem porque, com certeza, conquistariam as próximas Olimpíadas. Sete meses depois, em 1999, veio a resposta da carta do senhor Eric Leme W. Maleson, membro da equipe e agora presidente da Associação Brasileira de Bobsled, Skeleton e Luge (ABBSL), dizendo se eu não queria treinar com eles. Pensei bastante, pois já estava melhorando no in line e iria novamente para a Inglaterra. Pensei três meses e resolvi deixar o meu in line descansando e ir para Nagano treinar o luge. Tudo porque lembrei da minha infância, dos meus 13 anos e do quanto queria disputar as Olimpíadas. JC - Você começou a praticar ainda em 1999? Mizoguchi - Minha carreira no luge começou em 1999, primeiro no Japão e depois no Canadá. Graças ao Eric Maleson, consegui a ajuda do time japonês. O luge é muito praticado no Japão, temos uma boa pista para treinamento.

JC - Qual o objetivo do luge? Quem são os melhores do mundo? Mizoguchi - O objetivo do luge é completar o percurso (de aproximadamente 1.500 metros) em menos tempo. Os melhores atletas do mundo nessa categoria são os alemães, italianos e austríacos.

JC - Quantas horas você treina por dia e o que é preciso para ser um bom atleta nessa modalidade? Mizoguchi - O luge é parecido com a Fórmula 1, em três descidas há um desgaste físico, mental e psicológico muito grande. Portanto, o máximo que eu treino são cinco descidas por dia, no inverno. Para ser um bom atleta de luge a pessoa precisa ter muita calma, ser muito paciente e ter mais que 100% no reflexo, pois é muito rapido e muito perigoso. Se cometer um erro...

JC - Como foi a sua classificação para a Olimpíada? Mizoguchi - Minha classificação para as Olimpíadas foi muito emocionante, pois me classifiquei em cima da hora. Faltavam sete dias para as Olimpíadas começarem quando me classifiquei em Winterberg, na Alemanha, na minha corrida final. Quando cruzei a chegada todos aplaudiram pela minha batalha, ajoelhei e gritei pela vitória e me emocionei para valer.

JC - Você mantém contato com alguém no Brasil? Mizoguchi - Tenho contato com meus avós.

JC - Você ficou satisfeito com o 46º lugar nos jogos? Mizoguchi - Só de estar nas Olimpíadas já foi uma grande vitória para mim, uma medalha de ouro. Se eu ficasse em último, ainda assim ficaria muito feliz.

JC - Pretende continuar a praticar o Iuge e participar de outros jogos? Mizoguchi - Pretendo continuar no luge, sim, para trazer uma alegria ao Brasil daqui há oito anos, com muito treino.

JC - Durante todo esse tempo que esteve fora você sentiu muita falta do Brasil? Mizoguchi - Senti, sim, muita saudade do Brasil, principalmente, daquele arroz com feijão caseiro.

JC - Você obteve uma certa atenção dos meios de comunicação brasileiros por estar nas Olimpíadas. Ainda tem o sonho de ser famoso, acha que vai alcançar seu sonho? Mizoguchi - Sim, com certeza acho que vou ficar famoso, pois tenho um grande sonho pela frente e como conquistei a coisa mais complicada da minha vida, que era participar das Olimpíadas, com certeza de agora em diante vou conquistar meus objetivos.