Idades e sexos diferentes, medos diferentes. Até mesmo as crianças mais corajosas temem alguma coisa. Do escuro à morte, do primeiro dia de aula ao crescer, passando por um banho ou uma barata, cada um tem uma história de pânico para contar.
Eles ainda não sabem explicar muito bem os motivos que levam ao medo, mas defendem que o medo deixa cada um mais desesperado, que o outro.
Rafaela Noronha Sampaio, de 5 anos, tem medo de escuro, mas diz não se desesperar ao ficar sozinha em um quarto com a luz apagada. â€œÉ só levantar e ir acenderâ€. Mas confessa que não consegue dormir sem a luz do corredor acesa. Se a lâmpada se apaga ela busca os pais, procurando o autor do apagão, mas sem chorar.
A garota também tem medo de tomar injeção. Ao ser perguntada se fazia escândalo quando precisava levar uma agulhada, foi categórica: “faço e muitoâ€, dispara.
O mesmo não ocorre quando ela encontra uma barata. “Pego o sapato do meu pai que é bem grande e matoâ€.
Filha de dentista, Rafaela não tem medo de tratar ou arrancar um dente, mas a mãe Mônica Noronha, diz que sua pergunta mais assustada tinha uma relação “bucalâ€: “onde fica a boca da noiteâ€?
Entre os garotos, os medos reais se confundem com os monstros que saem dos filmes e videogames. Numa conversa típica de criança, o Jornal da Cidade, ouviu os medos dos irmãos Gabriel e Diego Leal Togni, de 7 e 11 anos respectivamente, e Raul Togni Neto de 9. Além dos medos normais de toda criança, eles ainda convivem com uma mudança recente para Bauru, a mãe que trabalha fora, o pai que é jogador de basquete e está sempre viajando e ainda temem as suas derrotas e contusões. Leia a seguir trechos da conversa.
Jornal da Cidade - Do que vocês têm medo? Gabriel Leal Togni – De tudo. Menos destas coisas de arroz, de comida... (abre um sorriso). Mas tenho medo de escuro, de coisas de monstro. Diego Leal Togni – Ele tem medo de ficar no escuro sozinho. Ele precisa ficar perto da minha mãe. Gabriel – Um dia a minha mãe me trancou com o Raulzinho no quarto escuro. E sabe o que ele falou? Não, Biel não precisa ter medo não. Mas depois foi quem ficou com medo foi ele. Raul Togni Neto – Não fiquei não.
JC – Mas o que você sente quando está no escuro? Gabriel – Eu sinto que tem alguma coisa lá, um monstro, um saci-pererê, um lobisomem. Um dia o Diego me falou que ouviu numa música de rock, que quando a gente ouve um barulho embaixo da cama, não precisa se preocupar, mas pode ser a perna de um demônio. Diego – Aí ele não conseguia mais dormir. Gabriel – Todo dia eu queria dormir com meu pai. Raul – Eu não tenho medo dessas coisas. Mas tenho medo de andar na rua sozinho.
JC – Por quê? Raul – Porque eu tenho medo de alguma pessoa me maltratar, de seqüestro, de ladrão. Diego – Ele tem muito receio. Ele tem medo de coisa mais real. O Gabriel é mais fantasia. Raul – E ele (referindo-se ao irmão mais velho) é o corajoso da casa! Tenho medo de uma pessoa estranha fazer alguma coisa contra mim, entende?
JC – O corajoso da casa não tem medo de nada mesmo? Diego – Eu tenho medo da morte. Eu sei que um dia vai chegar, mas...
Entra na sala um cão labrador, chamado Bandit, em direção à repórter, que por ironia do destino tem medo de cachorro. Gabriel (tentando segurar o cachorro) – Sabe por que o meu pai comprou o Bandit? Para quando entrar um ladrão em casa ele morder. Mas o que o Diego tem mais medo é quando o Bandit foge. Diego – Eu realmente tenho muito medo de perder as coisas e quem eu gosto. O Bandit quando veio para casa tinha dois meses e dormia no nosso colo. Agora a gente é que dorme em cima dele. Mas quando ele vê gente nova fica muito agitado... e o meu maior medo é realmente perdê-lo. Raul – Mas pode ficar tranqüila que ele não morde, você sabe que ele só arranca pedaço. (risos)
JC - Quando vocês se mudaram para Bauru sentiram medo de alguma coisa? Diego – Eu, por exemplo, quando vou dormir em algum lugar pela primeira vez. Não é que eu fico com medo, mas eu estranho. Na minha outra casa em Poços de Caldas era morro e tinha barulho de grilo e de silêncio, já na casa da minha vó, no centro, tinha barulho de carro e de bêbado. Era difícil. A primeira vez que dormi aqui também estranhei, mas agora não tem problema. Raul – Eu tive medo por causa que tinha uma caixa de marimbondo e a minha mãe ia lá com veneno de espirrar e eu fiquei com medo que o marimbondo mordesse ela. Precisou até ligar para o bombeiro. Depois eu também sonhei à noite. Diego – Ele tem muito pesadelo, ele não consegue pensar em coisas boas. Ele tem medo até de tomar banho sozinho, porque acha que pode acontecer alguma coisa ruim.
JC – Na escola tudo vai bem? Gabriel – Eu tive medo da escola, sim. Raul – Eu não tive, eu não gostava de ir. Diego – O que nós três temos é medo de ficar longe da mãe.
JC – E quando o pai de vocês ia embora ou vai jogar (basquete) fora? Gabriel – Eu choro de saudade dele. Diego – Todo mundo chora. Raul – É contagiante, um começa a chorar e daqui a pouco todo mundo está chorando. A gente também tem medo quando ele se machuca, mas ainda bem que a gente nunca viu um jogo em que ele tenha se machucado.
JC – Vocês acham que um dia todos os seus medos vão passar? Gabriel - Só quando eu crescer. Raul – Acho que sim, porque eu também tenho medo de andar de avião.
JC – Mas vocês não têm medo de crescer? Gabriel – Só de ter que parar de brincar.
JC – Para vocês que palavra significa medo? Raul, Gabriel e Diego – Desespero!!!!!
Para criar coragem
Se um conselho de mãe dizendo que não precisa ter medo de médico ou dentista não adianta nada para os baixinhos medrosos, livros, filmes e peças de teatro podem ser uma boa alternativa para fazer com que as crianças comecem a encarar seus temores de uma outra forma.
Entre massas de modelar, desenhos e animações de última geração, a indústria cinematográfica tem contabilizado muitos milhões trabalhando com as emoções infantis em filmes bem-humorados com estórias fluentes. Recentemente “Monstros S.Aâ€, de Peter Docter, abordou a relação criança-monstro. Na verdade o que acontecia na tela é que o medo infantil era transformado na energia que alimentava uma cidade chamada Monstrópolis.
Entre os títulos mais antigos, a série “Esqueceram de mim†mostra como o medo pode dar asas à coragem e se tornar um elemento positivo na vida de cada um. Na peça teatral “Pluft, o fantasminhaâ€, a autora Maria Clara Machado criou um fantasma que tem medo de gente e brinca com a dualidade do sobrenatural que tanto instiga as crianças.
Nas páginas dos pequenos livros infantis também se tem sábias e práticas lições de como “curarâ€, por exemplo, o medo de ir ao dentista ou de ficar sozinho na escola.
Livros que às vezes acabam até servindo de ensinamento mais para os pais do que para a própria criança.
Os psicólogos aconselham que uma leitura conjunta pode trazer excelentes resultados para pais e filhos, perderem muitos medos.
Para ler
“Chapeuzinho Amareloâ€, Chico Buarque
“Medroso! Medroso!â€, Tatiana Belinky
“O medo da sementinhaâ€, Rubem Alves
“Ficar com raiva não é ruim†e “Ficar triste não é ruimâ€, Michaelene Mundy
“Quando Miguel entrou na escola†e “O dia em que Miguel estava tristeâ€, Ruth Rocha e Eduardo Rocha Coleção “Os medos que eu tenho†- “Será que vai doer?â€, “Fantasma existe?â€, “Ninguém gosta de mim?†e “Tenho medo mas dou um jeitoâ€, Ruth Rocha e Dora Lorch
Para ver
“Pluft, o Fantasminhaâ€
“Monstros S.Aâ€
“O ladrão de sonhosâ€
“Vida de Insetoâ€
“Toy Storyâ€
“Esqueceram de mimâ€
“O estranho mundo de Jackâ€
“Shrekâ€
“O Mágico de Ozâ€
“Inteligência Artificialâ€.