As mulheres representam 52% do eleitorado brasileiro, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, a participação do sexo feminino na política brasileira é muito tímida. Das 81 cadeiras do Senado Federal, apenas cinco são ocupadas por mulheres. O Brasil nunca teve uma presidente da República e, atualmente, não há uma mulher sequer nos Ministérios. Em Bauru, apenas uma vereadora - Maria José Majô Jandreice (PC do B), ocupa uma das cadeiras do legislativo atualmente.
Essa discrepância tem raízes profundas e pode ser explicada por vários fatores, entre eles a falta de incentivo à vida pública, a condição da mulher de gênero oprimido e a dupla jornada de trabalho, que oferece menor disponibilidade para ela se dedicar à política.
A legislação brasileira obriga os partidos a reservarem 30% das suas vagas para candidatas. No entanto, nem a lei é capaz de aumentar a participação da mulher na política.
De acordo com a professora de História da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho†(Unesp) de Marília, Lídia Maria Viana Possas, um dos entraves para a candidatura da mulher a um cargo eletivo é a falta de patrocínio. “Uma campanha política custa muito caro e nem o partido e nem o empresariado têm disposição para investir na candidatura feminina, com raras exceçõesâ€, disse.
A falta de credibilidade está fincada ao longo da história brasileira. Lídia ressaltou que existe uma cultura machista no setor político, que ainda vê a mulher como um ser frágil para exercer as atividades exigidas pela vida pública. “Até mesmo as próprias mulheres incorporam essa visão machista e evitam dar seu voto para pessoas do mesmo sexo que o seuâ€, disse.
Essa realidade foi evidenciada por uma pesquisa, realizada no ano passado, pela Fundação Perseu Abramo, entidade ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT). Foram entrevistadas 2.502 mulheres de 187 municípios do Brasil, distribuídos nos 24 Estados da Federação. Uma das conclusões do estudo foi de que um terço das brasileiras não acha que as mulheres estejam preparadas para governar o País. “As eleitoras acreditam que, para estar à frente de um cargo político, a mulher precisa se desvencilhar do seu lado feminino, ou seja, deixar de lado a vaidade e suas características de mãe e esposaâ€, salientou a professora.
Conciliar tarefas
No comando da Prefeitura de Lins pelo segundo mandato consecutivo, Valderez Vegiato Moya (PT) disse que não encontrou dificuldades para comandar a cidade. Para ela, se a mulher tem competência para administrar um lar, na maioria das vezes com apenas um salário mínimo de renda mensal, pode muito bem ser competente à frente de um cargo político. “A mulher tem uma história muito longa de submissão, por isso ainda é pequena a sua participação na política do País. No entanto, já está provado que o sexo feminino tem muita capacidade para estar no comando e que consegue administrar uma cidade tão bem como qualquer homemâ€, disse.
Ela salientou que nunca percebeu nenhum tipo de preconceito por parte dos moradores de Lins. “Eu nunca liguei para isso. Se existe ou não (discriminação), não sei dizer, pois não me sinto inferior nem superior a ninguémâ€, enfatizou.
Como sempre trabalhou fora, Valderez explicou que não foi difícil aliar as tarefas de casa com a vida política. “Eu tenho um marido que é um verdadeiro companheiro e me ajuda no comando da casaâ€, salientou.
Mãe de três filhos, ela acredita que é viável conciliar as atividades de mãe e dona de casa com a de ocupante de um cargo público. “As mulheres estão tomando consciência de seu papel dentro da sociedade e, para dar conta de tudo, elas se aprimoram nas duas áreasâ€, destacou.
Quando decidiu entrar para a política, em 1996, a então diretora de escola Carolina Araujo de Sousa Veríssimo, teve que derrubar barreiras e uma onda de opiniões contrárias ao seu envolvimento nessa área. Os familiares e os amigos foram os primeiros a tentar desestimulá-la a seguir carreira na política. “Eles achavam que isso não era coisa para mim. Não pelo fato de eu ser mulher, mas pelos percalços da vida públicaâ€, disse.
Mesmo assim, ela se candidatou faltando alguns meses para as eleições. Com pouco tempo para fazer campanha, acabou perdendo o pleito. Mas, a segunda posição na corrida pela Prefeitura de Reginópolis a animou a continuar militando.
Nas eleições passadas, Carola (como é conhecida na cidade), voltou a disputar o cargo de prefeito pelo PMDB e venceu.
De acordo com ela, a força física é a única coisa capaz de diferenciar o homem e a mulher. “Nós temos tanta capacidade para governar quanto o homem. Falta apenas incentivo para ir à luta e conquistar nosso espaçoâ€, salientou.
Ela confirmou a premissa de que mulher não vota em mulher e contou que a primeira discriminação que sofreu foi do próprio sexo feminino.
Apesar da prática mostrar que a mulher ainda não ocupou todo o espaço político que lhe cabe, o futuro é promissor. Para Carola Veríssimo, a participação da mulher na política tende a aumentar nos próximos anos, já que há uma lacuna a ser preenchida.
A professora de História Lídia Possas, acha que existem muitas lutas silenciosas em busca da consolidação da mulher na política. “O processo de mudança dessa conjuntura machista, que coloca a mulher à margem da política, é lento, mas está caminhando para a entrada da mulher no mundo da políticaâ€, disse.
Princesa Isabel, primeira e única
Até os dias de hoje, o Brasil foi comandado por uma mulher, numa única vez. Isso ocorreu na época do Império, quando a Princesa Isabel tornou-se Regente. No entanto, a sua passagem pelo trono real não foi tida como um governo feminino.
Para a professora de História da Unesp de Marília, Lídia Maria Viana Possas, a princesa foi Regente, mas não se pode dizer que ela “governou†o País. “Ela estava à frente do Brasil, mas era o caso de um poder vitalício, que foi passado para ela por ser a única herdeira na linha de sucessão de Dom Pedro II. Além disso, ela tinha ao seu lado o marido, o Conde d’Eu, que era quem ditava grande parte das regrasâ€, explicou a professora.
A Princesa Isabel foi nomeada herdeira do império em 1847, depois da morte de seu irmão, Dom Afonso, o primogênito da família.
Governou o País em três ocasiões, devido às viagens de Dom Pedro II ao exterior: da primeira, de 25 de maio de 1871 a 31 de março de 1872; da segunda, de 26 de março de 1876 a 25 de setembro de 1877- e da terceira, de 30 de junho de 1887 a 22 de agosto de 1888, ano em que, usando das prerrogativas de Princesa Imperial Regente, sancionou, em 13 de maio, a Lei Áurea, extinguindo a escravidão.