O século XX, cujos desdobramentos ainda podem ser sentidos atualmente, foi um período de grande avanço tecnológico e material. Ao mesmo tempo, todo o avanço alcançado não serviu para evitar que países inteiros passassem fome, guerras fossem feitas por motivos ínfimos e doenças praticamente erradicadas voltassem a ameaçar a humanidade, entre outros exemplos. Na análise do professor de filosofia da Universidade do Sagrado Coração (USC), Carlos Alberto Albertuni, isso se deve ao excesso de racionalismo que imperou no século passado. O professor concedeu uma entrevista ao JC, na qual avalia o século XX e visualiza algumas tendências para o período atual. A seguir, o principais trechos.
Jornal da Cidade - Como o senhor avalia o século XX? Carlos Alberto Albertuni - O século XX foi marcado por alguns acontecimentos muito importantes, divisores de águas. Analisando um panorama bem amplo vemos que o século XX foi o período de aperfeiçoamento as capacidades de vínculos mundiais. A sociedade do século XX se tornou planetária aos poucos. Isso foi impulsionado pelo desenvolvimento tecno-científico. Se hoje falamos de globalização, me parece que esse seria o grande movimento de todo século XX, o aprimoramento das comunicações, da informação planetária, a Internet. Foram conquistas graduais e não tão tranqüilas. Houve muitas tensões com esse movimento tecno-científico e uma das principais, sem dúvida, foi a Segunda Guerra Mundial. Para mim esse é o grande marco histórico que se pode analisar como uma síntese do que foi o século XX, principalmente por causa do uso da tecnologia com um potencial destrutivo. É nessa guerra que o homem vai tomar consciência de que a morte não é um problema individual de cada um, mas um negócio globalizado. O homem passa a ter consciência de que o seu destino é o destino da humanidade. Ele pode pôr fim à humanidade se não se responsabilizar pelo ato mais banal que possa desencadear na sua vida. Com essa ampliação de poder que a tecnologia dá ao homem, ele percebe que cada ato seu, por menor que seja, está vinculado a um sistema de informações, de acontecimentos, de processos e isso vai contribuir para a globalização. O século XX criou o cidadão terrestre, ou como diz o Morin (Edgard), a cidadania terrestre.
JC - A Segunda Guerra aconteceu como resultado de um processo de mundialização que já havia se mostrado na Primeira Guerra Mundial? Abertuni - Sem dúvida, a Primeira Guerra Mundial, pelo próprio nome, mostra que existem vínculos e repercussões que atingem vários países. Esse processo começa aí.
JC - O senhor concorda com o historiador Eric Hobsbawn, que afirma que o século XX terminou, na prática, com a queda do muro de Berlim, em 1989, e com o posterior fim da União Soviética, em 1990? Albertuni - Essas demarcações históricas, embora sejam baseadas em análises muito precisas e críticas, sempre pecam porque, dependendo a linha explicativa que se adota, se privilegia alguns acontecimentos. A ótica de Hobsbawn é a ótica do confronto essencial que se deu nesse século entre a ideologia liberal-capitalista e a ideologia comunista-socialista. As duas guerras, principalmente a segunda, estão dentro dessa discussão ideológica, tanto que o pretexto e o próprio totalitarismo nazista e stalinista estão ligados a esse movimento ideológico. Se, por um lado, nós analisamos que a racionalidade científica teve progressos e eles redundaram nessa rede de informações que nós temos hoje, com todos os benefícios e racionalidades, por outro lado vemos que dentro da racionalidade política nós também criamos alguns monstros.
JC - Quais são eles? Albertuni - O que muitos filósofos contextualizam no século XX é que se dá uma grande crise da razão em vários aspectos: científico, ético, político. O século XX é o produto mais acabado do que se chama de modernidade. Essa modernidade era o grande projeto dos iluministas, de através da razão, conquistar toda a realidade humana. A razão iria dirigir todos os aspectos da vida do homem, da sociedade. Na Segunda Guerra Mundial se usa toda a tecnologia que é produto dessa racionalidade, então você lança uma crítica a esse ideal racionalista. Quando você vê o totalitarismo de Hitler, Mussolini, Stalin - e o totalitarismo nada mais é do que a tentativa de racionalizar toda vida - você vê que a racionalidade política entra em crise porque a grande idéia nossa é que o progresso é algo infinito e linear, ou seja, que a ciência vai crescendo cada vez mais e aumentando a qualidade da vida humana; a política vai se desenvolvendo cada vez mais e vai aperfeiçoando a democracia; a economia vai se aperfeiçoando e criando uma melhor qualidade de vida para todos. Essa visão desenvolvimentista patrocinada pela racionalidade foi colocada em xeque. A razão por si mesma e todos os seus produtos, todos os seus instrumentos, ela pode levar o homem a sua própria extinção. Se essa razão não deitar suas raízes sobre uma racionalidade ética, ela fica sem norte. Perde o sentido e sua finalidade. A fragilidade do homem é isso que o século XX mostra e ao mesmo tempo o seu poder, dado pela razão. Se essa razão não for bem orientada, pode levar o homem para a sua própria destruição -, tanto a destruição da humanidade de uma forma súbita, quanto pela degradação da biosfera.
JC - Essa “orientação†já está sendo feita? Albertuni - O futuro sempre é incerto. Mas se o homem, através da razão, mostrou que tem um potencial destrutivo, no século XX, também mostrou que tem um potencial de criatividade, de inovação. Isso é o que dá a esperança de que o homem parta dessa consciência de que existem limites, ou seja, a dimensão ética do homem, a idéia da liberdade responsável. Eu vejo que existem por aí alguns movimentos que dão essa esperança. Essas pessoas que estão organizadas, muitas ONGs. Recentemente houve a polêmica do Fórum Social de Porto Alegre e do Fórum Econômico Mundial. Então existem pessoas que não estão pensando só na lógica dos mercados, no desenvolvimentismo econômico, no progresso tecno-científico lucrativo. Existem pessoas pensando um mundo melhor para todas, um mundo onde se vivam valores interessantes que faltam hoje como a solidariedade, a intolerância, que hoje se discute muito por causa dos ataques extremistas de terroristas. Há um movimento contra-revoluvionário, contra o que se chama de pensamento único. O que é a lógica do mercado? É a racionalização extrema da vida do homem, ele faz as suas ações por uma questão de custo e benefício apenas, sem pensar no sentido. Então eu vejo com cada vez mais força a exigência, a demanda da ética, que pode levar o homem a recuperar o sentido do que ele faz hoje, da história, da existência cultural. Hoje temos exemplos de movimentos e organizações como o Greenpeace, por exemplo, que a gente sabe que são movidos por alguns interesses ou questões políticas, mas só pela reflexão e discussão que nos levam podemos esperar algumas novidades nesse século. Se observarmos a história vamos ver que o homem sempre se superou com a sua inventividade. Então pode ser que agora o homem, principalmente diante de alguns acontecimentos do começo do século XXI, perceba que mais do que o desenvolvimento econômico e tecno-científico, precisamos do desenvolvimento moral, intelectual, no sentido da compreensão. Hoje o que nós temos são muitas informações e o que falta na nossa realidade planetária é a compreensão. Quando o homem superar essas dificuldades e perceber que a vida está insustentável, quando ele acabar por se desiludir que não é a ciência, não é o progresso, ele vai acabar procurando alternativas, movimentando idéias. Como um dia surgiu uma proposta alternativa ao capitalismo, por exemplo, nós temos ainda que acreditar que, se nós não concordamos que o capitalismo seja o melhor sistema, que podemos inventar outra coisa melhor. O homem é criativo e, às vezes, algo que surge fora do centro da nossa cultura, das principais idéias, pode tomar corpo. A história é feita de detalhes, coincidências, que podem desencadear um processo grande de mudança.
JC - O século XXI é promissor? Albertuni - O homem pode esperar um século promissor. Que seja um século no qual se respeitem as culturas. É respeitando as culturas que se respeita aquele manancial valorativo que toda cultura tem. O que não se pode querer é homogeneizar o comportamento de todos os homens do planeta. Quando se faz isso se tira a base valorativa da existência do homem que é a própria cultura localizada de cada país. Ai é que está o sentido desses valores que se organizam, então eu vejo que por esses movimentos nós podemos aguardar que as pessoas vão continuar fazendo essa reflexão e isso, mais tarde, por uma questão de sobrevivência, vai fazer com que se mude de atitude perante o mundo. Vamos ter que subordinar a economia e a ciência e a um controle. Me parece que muitos estão hoje pensando é que há uma urgência de se criar um controle externo, ético e político que acabe organizando esse crescimento desordenado, isso é uma necessidade. Precisamos dessa vontade das pessoas que pensam essas questões do mundo, que são formadoras de opinião, que elas estejam dispostas a efetivar essa tábua de valores. Existe uma estrutura ética de valores na nossa sociedade, o que precisa é o homem dar preferência a isso e não ao mundo material.
JC - Essa iniciativa de buscar uma nova ética de valores está apenas na mão dos líderes ou é possível que surja do povo? Albertuni - Eu vejo que seria mais fácil pelas mãos dos líderes, como pode acontecer, assim como alguns líderes de movimentos revolucionários arrebanham seus combatentes e fazem a revolução. A história é cheia de possibilidades e atualmente temos vários exemplos interessantes aqui mesmo na América Latina. Quantos focos temos de movimentos que estão questionando a estrutura? Isso é salutar, não pelo método que eles usam para questionar.
JC - O MST é um exemplo? Albertuni - Os sem-terra, por mais polêmica que possam ser as opiniões sobre eles, eu vejo como um legítimo movimento social. Ele incorpora, até por dados do próprio Incra, uma grande maioria de pequenos produtores que, de fato, por causa da política, ou da ausência de uma política agrícola no País, acabaram perdendo suas terras ou seu sistema de parceria quando a tecnologia chegou no campo. Os sem-terra surgem devido ao processo de mecanização da agricultura, de competitividade do mercado, ou seja, pequenos agricultores que estavam despreparados e não tiveram respaldo para enfrentar toda essa nova realidade que se configurou. O MST é um movimento político porque a questão da terra é uma questão política, de estrutura do País. Quando você quer o direito a ter uma terra para plantar, você está questionando a estrutura. O que se comenta é que não adianta dar a terra a alguém porque se a estrutura é a mesma, amanhã, a situação volta, o agricultor vai ter dificuldade para produzir, para enfrentar o mercado e vai ter que vender a terra ou abandoná-la. O MST questiona o próprio sistema capitalista no qual vivemos e, por bem ou por mal, eles fomentam o debate, que a realidade pode ser pensada diferente. Esse é um exemplo de que as mudanças podem vir pela base, através de uma organização de pessoas por uma causa única. Isso pode ser algo escutado pelo líderes, assim como os panelaços da Argentina. É claro que existem objetivos econômicos, mas esses movimentos mostram pessoas que têm direitos e que precisam ser respeitadas.
JC - O século XX representou mais o aspecto material, científico ou moral? Albertuni - O século XX, sem dúvida, privilegiou o desenvolvimento material. Por que a ciência e a técnica? Para dar mais conforto ao homem, extirpar as doenças, produzir mais para que se acabe com a fome, a doença. A comunicação foi desenvolvida para que? Para que o ser humano possa se entender melhor, transitar melhor na sociedade. Então, sem dúvida, o desenvolvimento foi material, tanto que nossa forma de agir perante o mundo é utilitarista na maioria das vezes, quando eu ajo diante do mundo, eu ajo pensando nos benefícios que eu vou ter. Isso é um pensamento extremamente materialista. Nós queremos sofisticar os meios para conseguir os benefícios mais rapidamente na nossa existência. Esse é o quadro do desenvolvimento material. Por outro lado, o aperfeiçoamento das responsabilidades dos seres humanos, das relações intersubjetivas ficaram esquecidas ou colocadas à parte. De repente, se nós investíssemos mais numa área como a psicologia, que trata de relações humanas, se nós investíssemos mais, por exemplo, na educação de fato, de valores, numa educação moral. É isso o que o século XX não conseguiu conciliar. O ideal seria que todo esse desenvolvimento material viesse acompanhado de um desenvolvimento moral, ético e até uma extensão da ética, a cidadania. A grande saída seria essa, que o homem tome o curso. Nós não precisamos inventar uma nova moral, já temos uma, somos, no geral, uma comunidade cristã - sem denominar católico ou protestante - e os valores dessa comunidade são consolidados por uma tradição, isso não pode ser jogado fora em nome do novo, do consumo. Esse é o grande erro cometido no século XX, entender que o que é tradicional não é bom. A tradição tem muito a nos ensinar porque é a experiência da humanidade acumulada. Como nós não temos uma bola de cristal para saber como devemos agir a cada situação, devemos, pelo menos, respeitar aquelas orientações que foram sendo acumuladas pela própria experiência da humanidade.
JC - A ciência deve ser deixada um pouco de lado? Albertuni - Não deve ser deixada de lado, mas é preciso que se pense nos valores da mesma maneira que pensou em ciência no século passado. Hoje, a novela fala da clonagem, por exemplo. Há uma falácia na mentalidade muitos cientistas, que não têm essa mentalidade ética e só vêem o crescimento material por ele mesmo e o progresso científico por ele mesmo, uma falácia que se constitui assim: tudo o que é tecnicamente possível é útil e desejável, então nós percebemos pelas experiências do século XX, que nem tudo que é tecnicamente possível deve ser realizado. Se hoje se domina a técnica da clonagem, não que dizer que ela deva ser usada. Isso é uma maneira irresponsável de ver a vida, achar que o desenvolvimento econômico, científico e tecnológico, vai ser a panacéia para todos os nossos males. A experiência do século XX mostrou isso, derrubou o mito do progresso, do cientificismo. Se eu fosse resumir todo o século XX, diria que a grande lição que ele nos dá é a consciência dos limites, que não há o progresso infinito, que os recursos, principalmente os naturais, são escassos e isso precisa ficar claro para todos, principalmente para os formadores de opinião. É preciso educar essas novas gerações para um mundo diferente, ao invés de educar o cidadão para competição, é preciso educá-lo para a convivência com a ecologia, temos que resgatar os vínculos com a “Mãe Terraâ€, alguns preconizam que esse será um dos grandes temas do século XXI. Isso pode ser feito hoje, através de uma união do estado, da sociedade, temos que, juntos, patrocinar uma série de valores comuns.