09 de julho de 2026
Articulistas

Sobre a filantropia

Dom Aloysio José Leal Penna
| Tempo de leitura: 3 min

Como bispo encarregado do setor da Educação da CNBB, sinto-me na obrigação de me manifestar a propósito dos artigos do jornalista Josias de Souza. Refiro-me às reportagens “Fiscal rompe com silêncio e joga gasolina à fogueira da filantropia”, “Asmodeu livra universidade católica do pecado filantrópico” e “Companhia de Jesus é reprovada na filantropia”. Se o referido jornalista é contra as escolas confessionais, filantrópicas, comunitárias, sem fins lucrativos, por motivos ideológicos, de crença religiosa ou outros, deveria expressar suas opiniões de forma fundamentada e serena, com argumentos doutrinários e históricos. Mas acusar nossas escolas, universidades e obras sociais de práticas escusas e de procedimentos dolosos é um excesso inadmissível.

É importante ter presente que o direito que temos de manter escolas e obras sociais, além de ser uma das dimensões da liberdade a ser preservada em sociedades democráticas, fundadas na pluralidade de manifestações das crenças religiosas e de visões do cosmo, é respaldado por dispositivos vários, que se vêm repetindo nas várias Constituições brasileiras, ocorrendo o mesmo em outros países.

Creio que todos concordarão com a veracidade do testemunho histórico de que, há séculos, as igrejas cristãs, mormente a Católica, vêm colaborando, como ainda colaboram, na formação da juventude brasileira, bem como no atendimento da população a mais carente, por intermédio de obras assistenciais e hospitalares, mantidas pelas paróquias e pelas instituições educacionais. Nesse sentido, convém consultar o livro “Obras Sociais da Igreja Católica” (Edições Loyola, 1999), resultado de pesquisa que aponta, nas paróquias e nas obras sociais mantidas pelos estabelecimentos educacionais católicos em todo o Brasil, 175 milhões de atendimentos individuais e 37 milhões de atendimentos familiares no ano de 1998 (ressalte-se, para o perfeito entendimento da investigação, que uma mesma pessoa pode ter recebido mais de um atendimento).

Foram atendimentos vários e de muita valia para a população pobre: educação (bolsas de estudo), saúde, remédios, produtos de higiene e limpeza, roupas, calçados, cobertores, alimentos, materiais de construção, abrigo e assistência social geral. O referido livro foi encaminhado, em 1999, para todos os senhores deputados federais e senadores, todo o chamado primeiro e o segundo escalões do Poder Executivo, bem como para 50 repórteres dos principais jornais, revistas e televisões do País.

Críticas sobre a forma como conduzimos os nossos trabalhos, as prioridades fixadas, as áreas geográficas atendidas, são sempre bem-vindas. Outra coisa é sermos taxados de corruptos, como o jornalista está fazendo: isso é inaceitável. Nossas instituições, frente à burocracia governamental, que exige uma série de documentos comprobatórios da nossa honestidade de propósitos e de ações, podem cometer alguns enganos, sempre rapidamente sanados e nunca escamoteados. Mas dizer que estamos organizados para usufruir de benesses indevidas é uma acusação grave e leviana que nos entristece, principalmente por ter encontrado espaço num jornal sério como é a Folha.

Com esta correta perspectiva, não tenho dúvidas em afirmar que o sr. Josias de Souza, no que diz respeito aos artigos citados, procedeu, no mínimo, de forma incorreta. Os danos causados à imagem das nossas instituições educacionais e assistenciais serão difíceis de calcular e de reparar. A imprensa, num país democrático, deve ter bem presente o bem e o mal que pode vir a causar, não permitindo, com seu exemplo íntegro e responsável, que o “lodo escorra”, mas também impedindo que a injustiça prevaleça, na ânsia da denúncia.

(*) O autor, Dom Aloysio José Leal Penna, arcebispo de Botucatu (SP), é responsável pelo setor de Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil