09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

FÉ, CIDADANIA E ECONOMIA

Grupo de Cidadania
| Tempo de leitura: 3 min

A ceia é o sacramento que resume a vida de Jesus, mas também é a razão de sua morte e sua ressurreição. Foi por lutar por um mundo onde todos possam viver dignamente como filhos e filhas de Deus que Jesus foi condenado à morte. Para alguns pode parecer estranho que alguém seja condenado à morte por lutar por uma causa tão boa e tão justa, mas a História nos mostra que isso é muito comum.

A luz da verdade e do amor mostra que, independentemente de cor, etnia, sexo, religião ou condição social, todas as pessoas são filhos e filhas de Deus, têm dignidade humana e, por isso, direito a uma vida digna. Mais ainda: mostra-nos que a economia de uma sociedade tem de estar organizada em função das pessoas e não as pessoas em função da acumulação de riqueza de poucos. A revelação de Deus nos faz ver o óbvio: o dinheiro e a economia devem estar em função da vida e não a vida humana em função do dinheiro.

Em termos concretos para os nossos dias, isto significa que a terra existe para ser trabalhada pelos agricultores e não para ser acumulada em latifúndios improdutivos. O crescimento econômico deve estar em função do aumento de emprego e do bem-estar social da população e não para criar poucos bilionários que acumulam riquezas que, de tão grandes, eles nunca vão poder gastar, mesmo que vivam eternamente.

No fundo, a vida de Jesus nos mostra que nenhum ser humano é inferior ou superior em dignidade do que os outros. Todos nós somos iguais. Só Deus está acima de nós, mas muitos acreditam que, se acumularem riqueza e poder, poderão “ser como os deuses”. Este é o pecado original, o princípio de todos os outros pecados: querer ser como um deus pela acumulação e, assim, poder oprimir e manipular os seus semelhantes.

Mostrar que Deus ama a todos indistintamente e quer que todos tenham direito a uma vida digna é ir frontalmente contra uma sociedade que prega a acumulação, a diferenciação e até a apartação entre as pessoas. Foi por isso que Jesus foi condenado à morte pelo mundo em nome de um deus-ídolo. E foi porque Jesus foi fiel até o fim na sua missão por amor a todas as pessoas, que Deus o ressuscitou para mostrar que ele estava com Jesus e não com o templo nem com o império romano.

A participação da ceia do Senhor deve ser o momento de contínua conversão à causa do reino de Deus: a luta por uma sociedade onde todos possam participar, alegremente, do convívio e do pão. É o momento de experienciarmos a graça de Deus a fim de termos forças para lutar por uma economia também marcada pela graça, isto é, uma forma de organizar a economia que valorize todas as pessoas e não somente os consumidores (os que podem pagar). A experiência da graça (gratuidade) nos leva a lutar pela vida concreta dos pobres (reforma agrária, mais empregos, salários justos, programas sociais, educação e saúde dignas e lazer), daqueles que não nos podem pagar nem fazem parte do nosso convívio cotidiano.

É claro que uma sociedade e, particularmente, uma economia não podem ser organizadas baseadas somente na noção da graça-gratuidade. Também são necessários leis, regras, planejamentos e outros mecanismos, mas essa necessidade não pode servir para justificar a organização de uma economia que, ao invés de gerar vida para todos, produz riqueza para a minoria e morte e sofrimento para a maioria. Foi contra esse “espírito do pecado” que Jesus veio ao mundo para nos revelar que Deus se faz presente onde dois ou mais se reúnem para defender a vida de todos os seres humanos. (Grupo de Cidadania - Paróquia N. Sra. das Graças)