08 de julho de 2026
Auto Mercado

Um negócio da China!

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Se você acha que já viu de tudo quando o assunto é uma paixão pelos carros antigos, é porque ainda não conheceu a história do dentista bauruense Valércio Bonachela. Amante dos automóveis que marcaram época nas quatro primeiras décadas do século passado, Bonachela foi o protagonista de um negócio, no mínimo, inusitado para tornar-se dono de um veículo do gênero.

Depois de já ter adquirido um Ford 1929, conhecido carinhosamente como “baratinha” e onde aprendeu a dirigir, resolveu, em 1982, comprar um outro. O alvo em questão também era um Ford, só que do ano de 1931, cujo proprietário era um cliente seu. “O carro estava em Três Lagoas (MS) totalmente desmontado. Mas um dia meu cliente trouxe-o para Bauru e comentou comigo que queria trocá-lo pela realização de tratamentos dentários nele e na esposa. Acabei aceitando”, conta ele.

Como o veículo estava mau conservado, Bonachela ressalta que demorou pelo menos dez anos para deixá-lo à sua “imagem e semelhança”. “Ele passou por cerca de dez oficinas e já chegou a estar até em São Paulo, onde tive uma firma durante três anos. Depois, quando encerrei as atividades na capital, o trouxemos de volta a Bauru e conseguimos uma pessoa que foi montando-o pouco a pouco”, afirma o dentista.

Uma das maiores dificuldades de Bonachela no processo de montagem do automóvel foi com a falta de peças. Por ser muito antigo, o mercado nacional quase não disponibiliza mais componentes de reposição. Por isso, o bauruense teve de apelar para encontrá-las em outros países. “Meu irmão estava em Montevidéu e viu um veículo desse modelo. Ele me ligou avisando e logo pensei que poderia haver peças dele sendo comercializadas. Meu irmão procurou e encontrou as que lhe pedi. Elas eram absolutamente novas e estavam na prateleira, que até hoje existe”, destaca ele. E acrescenta: “Por causa disso, ele tem peças da Argentina, do Uruguai e de Miami. No Uruguai, por exemplo, esses automóveis rodam lado a lado com os do ano.”

O Ford 1931 de Bonachela é um quatro cilindros, a gasolina, com quatro marchas (três a frente e uma ré). É chamado de Tudor e quando foi lançado acabou sendo apelidado de guarda-louça, em razão de ser fechado e não aberto como os carros convencionais da época. O dentista sabe também de detalhes históricos a respeito do veículo. â€œÉ um carro que, na década de 40, foi usado por mafiosos, como o Al Capone, para praticar assaltos”, diz ele.

Vendê-lo é uma possibilidade que nem passa pela cabeça do dentista. “Já tive ofertas tentadoras e todo dia aparecem interessados. Vou com freqüência à exposições e durante essas mostras as perguntas que mais ouço são em relação ao valor do automóvel e se o motor dele é original. Acho que questionam isso porque poucos acreditam que um carro tão velho ainda pode estar andando”, enfatiza ele. Por falar em preço, Bonachela estima que o Fordinho está avaliado em cerca de R$ 30 mil. â€œÉ um veículo raro e igual ao meu só vi um até hoje.”

Paixão exclusiva

A conservação do carro também merece atenção especial por parte do dentista. Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, quanto mais ele for utilizado melhor para sua manutenção. “Esses automóveis exigem que estejam sempre em atividade, pois se ficar parado suas engrenagens começam a ser afetadas em razão de possuir uma mecânica muito rudimentar”, destaca Bonachela. E acrescenta: “Apesar disso, ele tem um motor muito forte, que encara barrancos e enfrenta estradas ruins sem problemas. É um carro mais lento, barulhento e sem conforto em relação aos atuais. Mas não o tenho por questão de desempenho, mas sim sentimental.”

Bonachela, que também é dono de um Landau 1982, de uma Mercedes e da já citada baratinha 1929, não se define como um colecionador. “Tenho esses veículos porque gosto de carros desse gênero, que me despertam a nostalgia da minha época de juventude. Muitos admiram e colecionam rádios, relógios, geladeiras e moedas, mas meu negócio é só automóvel antigo”, conclui ele.

Perfil

Nome: Valércio Bonachela Profissão: Dentista Hobby: Carros antigos Lugar para passear: Águas de São Pedro O que mais lhe irrita no trânsito bauruense? “A falta de respeito com a sinalização e a má educação no trânsito.” Quem você não colocaria como passageiro do seu carro ? “O Lula.” Quem você levaria como passageiro do seu carro?“Minha esposa.”