Imagine a cena. Você sai do trabalho numa tarde chuvosa e vai para o ponto de ônibus. Ao subir no veículo de transporte coletivo, dá de cara com uma mocinha, de 24 anos, bonita, com rímel, sombra nos olhos, batom vermelho suave nos lábios e muitas pulseiras. Miragem? Alucinação depois de uma dura jornada?
Não! Você acaba de pegar ônibus com a primeira motorista de ônibus circular de Bauru. Ela é Agnesmara Alves Moreira, que trabalhou por quatro anos como cobradora na empresa de circular Cidade Sem Limites e há um ano está treinando para ganhar uma linha efetiva como motorista.
Quem pensa que a tarefa é fácil, se engana. Só há três meses é que a nova motorista faz uma linha socorro (Samambaia – Bela Vista/Santa Edwirges) duas vezes ao dia, em horário de pico, às 9 e às 17h. Antes de chegar ao assento dos motoristas pelas ruas da cidade, faz um ano que Mara, como é chamada pelos companheiros de trabalho, entra às 20h na garagem da empresa e manobra os carros que vão sendo recolhidos, um a um. Segundo ela, os supervisores e os motoristas mais experientes, este trabalho é muito mais difícil que dirigir pelas ruas de Bauru.
Além da preocupação com os passageiros, o trânsito e o ônibus, o relógio também é rival de Agnesmara. A linha que ela faz tem que cruzar a cidade da zona Sul à zona Noroeste em 50 minutos. “Mas eu não vou colocar passageiro em risco para acertar horário, não.â€
Ela não considera nenhuma linha perigosa. “Se cada um fizer a sua parte não tem problema algumâ€, comenta.
Olhares
A motorista conta que até agora não foi desrespeitada no trânsito e nunca se envolveu em acidentes. A maioria dos colegas de empresa lhe dá apoio, mas diz ter sempre um ou outro mais “machistaâ€.
Por coincidência, o motorista José Carlos Garcia, de quem Mara foi cobradora, pega uma carona em seu carro e se diz orgulhoso em ver a companheira onde ela resolveu estar. “Ela sempre dirigiu muito bem e fico contente por ela ser a primeira mulher a se tornar motorista em Bauruâ€, avalia.
O ex-cobrador Júlio César Manzato, que hoje trabalha no setor administrativo da empresa e fazia a viagem com Mara, comenta que existe uma grande diferença entre a motorista e os demais motoristas. “Ela dirige com muito mais cuidado do que muitos motoristas em Bauru e tem uma atenção redobrada com os passageiros, que a aprovam como motorista.â€
Para ele, não cabe à colega o dito “mulher no volante é perigo constanteâ€.
A única coisa que Agnesmara repara quando está ao volante são os olhares assustados de outros motoristas e pedestres.
“Às vezes, um passageiro também olha umas duas vezes, parecendo que não acredita.†Mas no geral ela conta que a aceitação das pessoas é boa. “Eles gostaram da idéia. Até na empresa acharam uma boa.â€
Os passageiros a consideram mais camarada que um motorista homem e se sentem mais tranqüilos com sua presença.
Ela também demonstra ter segurança no que faz e diz que enfrentar as chuvas e os buracos da cidade é até mais complicado do que enfrentar o trânsito que não é dos melhores.
Herança genética
“Eu gosto de dirigir, meu pai sempre teve caminhão e desde criança queria dominar essa máquinaâ€, diz referindo-se ao ônibus.
Ela conta que dirige desde os 14 anos e, aos 18, quando oficializou sua carta também chegou a dirigir o caminhão do pai. Mesmo com toda essa paixão por motores, Agnes confessa que não gosta de velocidade. O que a fascina é o caminho, a sensação de estar pilotando.
O pai é seu maior incentivador e, tímida, confessa que o “mais ou menos†namorado também a apoia.
Sobre a hipótese de mudar de profissão, ela é taxativa. “Quero ser motorista por um bom tempo. Eu sonhei com isso.â€