08 de julho de 2026
Ser

Qualquer maneira de amor vale a pena?

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

É mesmo impossível quantificar quantos tipos de amor existem. Do amor platônico ao afetivo somam-se diversas formas de amar, que podem variar de pessoa para pessoa, influenciada até mesmo pelo modo de vida em sociedade.

“Amor é uma palavra só. É um sentimento que cada um dá uma definição, mas o único elemento que não pode fazer parte do amor é o egoísmo”, explica o psicólogo Ricardo Mokdici. Ele é da opinião que hoje todos os tipos de amor viraram egoísmo.

No amor maternal e paternal, o psicólogo afirma que grande parte dos pais querem ver nos filhos o que eles não puderam ser ou ter. “O pai já impõe ao filho o time de futebol e dá a camisa. A mãe quer que a filha tenha os mesmos ídolos, freqüente os lugares que para ela são os melhores.”

A relações públicas, D. M., 37 anos, que prefere não se identificar para preservar a intimidade da família, confessa que costuma se espelhar na filha, de 9 anos, e sonha para a menina coisas que não teve quando era criança. “Não acho que isso vá prejudicar a minha filha. Afinal, ela pode me dizer não e eu vou aceitar.”

No amor afetivo, Mokdici revela que o comportamento é semelhante, pois há sempre um julgamento do que é melhor para o outro e aí acabam escolhendo as mesmas roupas, lugares e companhias. “Isso também ocorre no amor fraternal, entre amigos. Ele acabam se fechando em grupos e a entrada de uma nova pessoa gera muito ciúme.”

O psicólogo define que o amor é o sentimento de gostar aliado ao respeito de ir e vir e, acima de tudo, entender.

“Amar não é aprisionar, querer a pessoa 24 horas por dia ao seu lado. Amar é dar liberdade, liberdade de amar.”

O terapeuta acredita que a herança de uma sociedade repressora fez com que as pessoas pecassem e ficassem sozinhas por não saber entender o outro, tornaram-se dependentes e possessivas.

“Os nossos modelos de amor são ultrapassados. Desde a antiguidade se ama de forma egoísta. Nós não aprendemos ainda que não somos frações, que não dependemos de ninguém, muito menos da nossa cara-metade.”

Ele explica que no campo afetivo essa história de alma gêmea foi passada de uma maneira equivocada. Para a psicologia, a pessoa precisa se bastar. “A nossa cara-metade está dentro de nós mesmos.”

A bancária R.L., 35 anos, descobriu isso tarde demais. Durante uma década dedicou a vida ao marido e buscava realizar-se através dele. Fazia sempre as viagens que o esposo escolhia para as férias, passou a conviver só com os amigos dele e até se afastou da própria família para ficar mais perto dos parentes do marido.

Um dia, ele chegou e disse que não enxergava mais nela a mulher da sua vida, mas apenas uma grande amiga. “Eu pensei que ia morrer naquela hora. De repente, eu fiquei sozinha. Sem amigos, família, sem ninguém. Perdi todo o referencial. Só fui saber que tinha me anulado para manter meu casamento depois de meses de terapia e hoje, um ano depois da separação, ainda sigo tentando redescobrir a mim mesma.”

R. revela que não tem vergonha de admitir que pecou por medo de perder o marido. “Eu passei a viver a vida dele. Achava que estava agradando, quando aconteceu o contrário. Deixei se ser interessante para ele.”

Este erro, ela diz que não comete mais. “Aprendi a viver a minha vida, a valorizar as coisas em que acredito.”

Amar a si mesmo

Mokdici aconselha a não procurar num filho, num parceiro ou num amigo, as coisas que não se consegue superar. “Neste processo, a gente precisa encarar como o primeiro amor, o amor-próprio, para depois buscar uma companhia e não usá-la como bengala para suprir coisas mal resolvidas”, defende.

Mokdici lembra que é preciso prestar atenção nas proprias atitudes e nas ações das pessoas queridas. Geralmente, há uma troca de amor, mas também de cobranças. Elas são, via de regra, as deficiências que as pessoas desconhecem ter.

Conversar é a melhor arma para tudo, principalmente para os problemas do coração. Ao mesmo tempo é importante não confundir o amor com as atitudes impensadas da paixão. “O amor é racional, a paixão não. O amor é incondicional, não transfere medos e anseios a ninguém. É doação, não cobrança.”

O primeiro passo para descobrir se o amor é verdadeiro é aprender a aceitar e entender as diferenças. â€œÉ preciso amar a si, para amar o outro e viver melhor. Dessa forma qualquer maneira de amor vale a pena, qualque maneira de amor vale amar, sim.”

O sentimento na música

“Eles se amam de qualquer maneira à vera; Eles se amaram é pra vida inteira à vera; Qualquer maneira de amor vale a pena; Qualquer maneira de amor vale amar; Qualquer maneira de amor vale aquela; Qualquer maneira de amor valerá...” Milton Nascimento

“O amor é como laço, um passo para uma armadilha, um lobo correndo em círculos para alimentar a matilha; Comparo a sua chegada, com a fuga de uma ilha; Tanto engorda, quanto mata feito desgosto de filha...” Djavan

“Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria...” Renato Russo

“A semana inteira fiquei esperando pra te ver sorrindo, pra te ver cantando, quando a gente ama, não pensa em dinheiro, só se quer amar, se quer amar, se quer amar...” Tim Maia

“Pra que mentir, fingir que perdoou; Tentar ficar amigos sem rancor; A emoção acabou, que coincidência é o amor; A nossa música nunca mais tocou...” Cazuza

“Um amor assim delicado, você pega e despreza; Não devia ter despertado, ajoelha e não reza...” Caetano Veloso

“Deixa eu dizer que te amo; Deixa eu gostar de você; Isso me acalma, me acolhe a alma, isso me ajuda a viver...” Marisa Monte

“Eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer, como é grande o meu amor por você...” Roberto Carlos

“Amo tanto e de tanto amar acho que ela

é bonita...” Chico Buarque

Uma fábula

Era uma vez uma ilha, onde moravam os seguintes sentimentos: a Alegria; a Tristeza; a Riqueza; a Vaidade; a Sabedoria e o Amor.

Um dia avisaram para os moradores desta ilha que ela seria inundada. Apavorado, o Amor cuidou para que todos os sentimentos da ilha se salvassem. Ele então falou:

- Fujam! A ilha vai ser inundada! Todos correram e pegaram seus barquinhos para irem até um morro bem alto. Só o Amor não se apressou, pois queria ficar um pouco mais com sua ilha. Quando já estava se afogando, correu para pedir ajuda.

Estava passando a Riqueza e ele disse:

- Riqueza leve-me com você.

Ela respondeu:

- Não posso, meu barco está cheio de prata e ouro e você não vai caber.

Passou então a Vaidade e ele pediu:

- Oh Vaidade, leve-me com você!

- Não posso, você vai sujar o meu barco!

Logo atrás vinha a Tristeza

- Tristeza, posso ir com você?

- Ah Amor, eu estou tão triste que prefiro ir sozinha.

Passou a Alegria, mas estava tão alegre que nem viu o Amor chamar por ela. Já desesperado , achando que ia ficar só, o Amor começou a chorar.

Então, passou um barquinho, onde estava um velhinho e ele então falou:

- Sobe Amor que eu o levo.

Amor ficou radiante de felicidade, que até esqueceu de perguntar o nome do velhinho. Chegando no morro, onde estavam os sentimentos, ele perguntou à Sabedoria.

- Sabedoria, quem era aquele velhinho que me trouxe aqui? Ela respondeu:

- O Tempo.

- O Tempo? Mas por que só o Tempo me trouxe aqui?

- Porque só o Tempo é capaz de entender um grande amor.

(Autor desconhecido)

Os tipos

Amor - sentimento que dispõe alguém a desejar o bem a outrem.

Ao próximo - sentimento de dedicação absoluta a outro ser.

Filial - sentimento de afeto ditado por laços de uma família.

Fraternal - amor entre amigos.

À primeira vista - paixão súbita.

Carnal - amor físico que busca a satisfação sexual.

Livre - repudia a consagração religiosa.

Platônico - amar em segredo, sem ter expectativas.

Fonte: Dicionário Aurélio