08 de julho de 2026
Regional

Medo de seqüestro reúne empresários

(*) Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

Lins - O seqüestro é uma das modalidades de ação criminosa que mais cresce no País. Atento a esse dado, o comando do 2º Batalhão de Polícia Rodoviária decidiu explorar o assunto no 8º Encontro de Força Tática, realizado semana passada, em Lins. Na platéia estavam dezenas de empresários incomodados com esse avanço.

Como palestrantes, estiveram presentes ao encontro duas personalidades que se destacaram recentemente. O capitão Diógenes Dalle Lucca, do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), foi o mediador no caso do seqüestro do apresentador Silvio Santos, em agosto do ano passado.

Já o tenente-coronel Romeu Takami Mizutani, do 1.º Batalhão de Polícia Rodoviária, foi um dos comandantes na operação policial que resultou na morte de 12 integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), no último dia 5, na rodovia Senador José Ermírio de Moraes, a Castelinho.

Na platéia estavam dezenas de policiais, entre rodoviários, militares, civis e até das Forças Armadas. No meio deles estavam vários empresários preocupados com a escalada da violência, em especial o seqüestro.

Mesmo sendo organizado pela Polícia Rodoviária, o encontro abordou basicamente o seqüestro na área urbana. Como explicou o tenente-coronel Takami, a intenção era ensinar aos participantes do evento como se desenvolve o crime de extorsão mediante seqüestro, tornando sua prevenção mais fácil.

Questionado sobre como a Polícia Rodoviária poderia ajudar no combate a esse tipo de crime, Takami citou a fiscalização nas rodovias. “Se algo de diferente é notado, os policiais têm condições de interferir e neutralizar a ação criminosa. Não só no caso de seqüestro, mas também de narcotráfico”, explicou.

Segundo ele, normalmente o seqüestro é feito na cidade, mas, em muitos casos, os criminosos usam a rodovia para transportar o seqüestrado ou mesmo para receber o pagamento do resgate.

Com a interiorização dos presídios, a escolta e fuga de presos, Takami disse que é preciso que os policiais rodoviários estejam sempre passando por treinamentos para se adaptarem às novas realidades. â€œÉ por isso que encontros como esse são realizados”, ressaltou.

Em sua palestra, Takami dividiu o tema em sete fases; partindo da maneira como geralmente é feita a escolha da vítima até a liberação da mesma. O policial explicou detalhadamente cada uma das fases e deu dicas, em especial aos empresários presentes, de como agir em cada uma delas.

Emocional x racional

Antes do tenente-coronel explicar as diferentes fases do seqüestro, o capitão Lucca ressaltou a importância da participação da polícia nesse tipo de crime. “Enquanto nós fazemos um gerenciamento técnico da situação, a família opta pelo gerenciamento emocional.”

Segundo Lucca, esse tipo atitude seria prejudicial tanto para o seqüestrado como para a sociedade. Do lado do seqüestrado e de sua família, o prejuízo seria financeiro, porque em muitos casos seria possível solucionar o caso antes mesmo do pagamento do resgate. Para a sociedade, o prejuízo ficaria evidente, na opinião do capitão, a partir do momento que os bandidos sentirem que o seqüestro é “um negócio rentável” e de baixo risco.

“A polícia sabe que o único objetivo do seqüestrado é o dinheiro. Ele dificilmente mata sua vítima. E é em cima disso que nós trabalhamos”, ressaltou o capitão. A pressa em resolver a questão muitas vezes atrapalha o serviço da polícia, na opinião de Lucca. Ele conta que quando a orientação policial é para retardar o pagamento do resgate, dando mais tempo para que o cativeiro seja encontrado, sempre surgem divergência dentro da família do seqüestrado. “Isso atrapalha a prisão dos bandidos”, afirmou o capitão.

Em sua palestra, Lucca criticou ainda o comportamento do brasileiro, de um modo geral, diante dos crimes. “Foi preciso morrer dois prefeitos para que se começasse a agir. Depois disso, todos resolveram se mexer.”

Ele citou três “alavancas” que seriam indispensáveis para o sucesso contra a criminalidade. “Com a população fazendo pressão, a polícia tirando o máximo de seu rendimento e o governo nos apoiando não tem como não ganharmos essa guerra”, disse confiante.

Empresários

Entre os presentes no encontro, estavam dois empresários de Pederneiras que já foram incomodados pelo fantasma do seqüestro. Segundo um deles seqüestrado em 1994, uma vez na mão dos bandidos “você vira um joão-ninguém”. Segundo ele, a calma seria o principal aliado nesse tipo de situação.

O outro empresário disse que precisou da ajuda da polícia para frustrar uma possível tentativa de seqüestro. De acordo com ele, algumas pessoas estiveram na cidade recentemente colhendo informações sobre ele e a família. Ao saber da curiosidade do grupo, o empresário avisou a polícia. Segundo ele, pouco tempo depois, os “curiosos” foram abordados pelos policiais. Depois disso, não foram mais vistos na cidade.

Nenhum dos dois empresários quiseram se identificar, por questão de segurança. Sobre as palestras, ambos aprovaram a iniciativa e se disseram satisfeitos com a maneira como o tema foi abordado.

(*) Colaborou/Jornal de Piracicaba

Jaú foi sede de treinamento

Uma equipe do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) de Belo Horizonte esteve em Jaú em novembro último instruindo policiais da Força Tática para operações envolvendo reféns e ocupação de ambientes. A iniciativa teve como finalidade capacitar os batalhões do Interior do Estado para enfrentar eventuais sequestros, sem depender exclusivamente dos serviços especializados do Gate da Capital.

Participaram do treinamento 19 policiais da Força Tática de Jaú, dois de Bauru, um de Barra Bonita e outro de Igaraçu do Tietê. Além do treinamento visando o resgate de reféns em prédios, os instrutores do Gate trabalharam também com invasões e resgate em ônibus.

O caso mais emblemático, lembrado pelos policiais, foi o seqüestro do ônibus da linha 174, no Rio de Janeiro, em junho de 2000. Na ocasião, uma operação policial mal-sucedida resultou na morte da refém Geilsa Firmo Gonçalves, 20 anos.

Recentemente, em Itapuí, um grupo sequestros a mulher e os três filhos do empresário José Renato de Souza. Eles foram soltos próximos a Araraquara depois de pagar o resgate de R$ 56 mil, aproximadamente. Quatro integrantes do grupo estão presos.

Pouco tempo depois, uma programadora visual foi seqüestrado em Jaú. Ela foi liberada no mesmo dia, depois de ter o carro e cartões de crédito roubados. O principal suspeito também está preso.

De acordo com os números apresentados no fim do ano passado pela Secretaria de Segurança Pública, os seqüestros no Estado de São Paulo aumentaram mais de 300% em comparação a 2000.

Gate pode chegar às cidades médias

Lins - Com o crime migrando cada vez mais intensamente para o Interior, a instalação de Grupos de Ações Táticas Especiais (Gate) em cidades médias começam a ganhar força dentro da polícia.

Durante o 8º Encontro de Força Tática, em Lins, na semana passada, o capitão Diógenes Lucca citou São José do Rio Preto, Marília e Bauru como possíveis futuras sedes de equipes do Gate. “O Interior deixou de ter aquele ar folclórico e romântico do passado. Hoje, temos cidades com problemas sérios com o crime”, falou.

Embora esteja ainda num processo embrionário, a tendência, segundo Lucca, é que os policiais recebam treinamentos especializados com armamentos diferenciados, como é feito hoje com os integrantes do Gate.

“Hoje, o advento das forças táticas constitui um embrião para no futuro termos um grupo de ações táticas especiais, nos moldes do que existe atualmente, em São Paulo”, previu.

De acordo com o capitão, não há como fazer uma previsão de quando isso poderá acontecer. Segundo ele, a implantação de equipes do Gate em cidade do Interior estaria dependendo de uma série de fatores.

Entre eles estaria a aquisição de equipamentos, que normalmente são muito caros, segundo Lucca. “Além disso, é preciso saber se a cidade tem demanda para suportar uma tropa como essa”, comentou.