08 de julho de 2026
Geral

Trocas voltam ao cenário econômico

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

Quem diria que as nossas avançadas transações comerciais que hoje envolvem leasing, sobretaxas, juros, alíquotas, crediário, comprovante de renda e um sólido relacionamento bancário ou muito dinheiro vivo pudessem abrir espaço para uma atividade que deu origem a isso tudo: a troca.

Ela, com certeza, teve início há milhares de anos. Talvez, no tempo das cavernas. Poderia ter sido um pedaço de carne em troca de um tacape dos mais rudimentares o começo dessa história. Hoje, em um mundo mais dolarizado do que nunca essas relações estão de volta. Entre comerciantes e prestadores de serviços é comum uma troca, antigamente conhecida como escambo e agora batizada de permuta.

Nesse comércio com jeitinho brasileiro até agora todo mundo comemora. Na permuta não se visa o lucro. O bom é a sensação de não gastar e até investir em outros elementos que não o dinheiro em caixa, mas numa atitude corporativa.

“Às vezes, acho até que é mais o efeito psicológico do que financeiro, parece que você não está pagando, mas está estreitando laços que valem muito mais que desconto.” É assim que a designer de jóias Karin Olbrich dos Santos encara as muitas trocas que já fez. A grande maioria com Márcia Gasparini, dona de loja de roupas, e Tânia Capelini, proprietária de uma outra butique.

“A Tânia, por exemplo, não gosta muito de jóias. Já a Márcia compra para as filhas, então com ela meu volume de negócios é maior. E não tem valor exato, nem aquela história de passou, faltou. No Natal passado, eu trabalhei até as 7 da noite e não tinha comprado o presente da minha mãe - o mais importante e difícil. Liguei para a Márcia e quando cheguei em casa o pacote estava lá. A roupa era a cara da minha mãe e ficou perfeita. Isso não tem preço. Não dá para quantificar”, conta Karin.

A joalheira revela que as relações de carinho e prestígio também contam pontos na hora de escolher os parceiros de permuta. Muitos clientes ou freqüentadores assíduos de sua loja e eventos acabam ganhando sua preferência. “Mesmo que a pessoa não compre, mas está sempre marcando presença, visitando, torcendo pelo meu trabalho, já é merecedora da minha consideração, a contrapartida é a mesma.”

Recentemente, Karin precisou de seguranças para um coquetel de apresentação de uma nova coleção. Procurou um cliente fiel que tem uma empresa de vigilância e já “trocou” o serviço com um crédito para que o parceiro comercial compre o presente de Dia das Mães para a esposa. Ele também ofereceu novidades para o sistema de alarmes da loja de jóias. “Na troca de serviços não existe tempo determinado. Pode-se deixar para depois.”

Até na rede

Prova desse deixar para depois é que a joalheira só há um ano está usufruindo de uma troca que fez com um provedor da cidade há três anos. No final de 99, uma empresa de informática premiou com relógios e jóias seus melhores funcionários. Procurou pela joalheria de Karin, oferecendo a criação e a manutenção de um site, que só há pouco ela resolveu colocar no ar.

Depósitos de materiais de construção, oficinas elétricas e mecânicas, supermercados e mercearias, postos de gasolina, lojas de roupas masculina e feminina, birôs de serviço, fotolitos, gráficas, lojas de informática, escolas técnicas e de informática, lojas de eletrodomésticos e utensílios para o lar. Estes são os perfis empresariais que figuram no ícone permuta da página www.sndesigner.com.br. O responsável por ela, o web designer Sérgio Oliveira Netto, de Belo Horizonte, se interessa em permutar o valor parcial ou integral de seus trabalhos com comerciantes dessas áreas.

â€œÉ claro que meu interesse principal é receber pelo meu trabalho em dinheiro. Mas a troca pode acabar compensando se acrescer à empresa. Tenho um carro e vivo visitando clientes Se fizer um site de R$1 mil para um posto terei um crédito de R$ 1 mil em combustível que não será consumido em um dia, nem em três meses. Facilito a vida do meu cliente e a minha”, diz Sérgio, que há dois anos montou uma empresa e hoje, por questões econômicas, trabalha sozinho.

Entre os seus parceiros de troca estão duas empresas de informática e comunicação, que lhe permitem barganhar os sites e as atualizações dos mesmos com serviços de edição de imagens, aluguel de telões e equipamentos e até mesmo troca de equipamentos HD (hard disc – disco rígido) e gravadores de CDs.

Essas relações começaram junto com sua empresa e foram elas que motivaram Sérgio a colocar o ícone permuta em sua home page.

Outros clientes assíduos de Netto são as pousadas. Ele tem um projeto pessoal de criar sites de turismo e ecologia. Desta forma, quando elabora guias chega trocando um banner ou um link no site com a sua hospedagem para colher informações e até cursos de esportes naturais como trakking, rapel, canoagem. Essa prática já lhe rendeu os sites www.guiaserradocipo.com.br e www.lavrasnovas.com.br que mapeam as regiões turísticas de Minas Gerais. “De uma forma ou de outra os dois lados ganham e não tem aquela história de ficou 50 para um lado, 100 para o outro. É um serviço pelo outro, de valores semelhantes, mas não necessariamente iguais.”

“Juntar a fome com a vontade de comer”

Estacionar no Centro da cidade e principalmente na hora do almoço não é tarefa das mais fáceis. Se um estabelecimento não tem estacionamento próprio, a coisa piora e pode até afastar os clientes, dependendo da localização.

Pensando nisso e aliando a idéia a uma de suas necessidades, o comerciante Antonio Jarussi resolveu oferecer no horário de almoço, de segunda a sábado, o amplo estacionamento de sua loja de piscinas para o vizinho Epaminondas Vaz, conhecido como Epa, dono de um restaurante self-service na esquina oposta. Em troca, a equipe que trabalha na loja faz suas refeições no restaurante parceiro, que também fornece alimentação para os profissionais que ficam nos canteiros de obras de Jarussi.

Ele revela que no seu ramo de atuação também recebe propostas com a troca de carros, terrenos e até outros produtos e serviços que venham complementar suas obras. “Se pararmos para pensar a cada dia fazemos uma troca e a moeda não é mais somente o dinheiro em espécie, pode ser qualquer coisa.”

O comerciante avalia a parceria como vantajosa não só pelo fato de ofertar um espaço em determinado horário ocioso para alguém que precisa dele e obter um benefício a seus funcionários em troca.

“Isso acaba beneficiando os comerciantes vizinhos e até a minha loja. Tenho clientes que já têm como hábito buscar um cloro, por exemplo, parar o carro no estacionamento, ir almoçar no restaurante na esquina debaixo, passar na farmácia da frente, pegar as roupas na lavanderia, pegar um equipamento no conserto. Essa troca nos dá clientes em comum”, comemora.

Quem também comemora e acha a parceria saudável é o Epa, que antes alugava um espaço para os clientes estacionarem seus veículos. “Agora, além desta comodidade, pude ampliar o meu espaço e atender mais pessoas, pois o acesso foi facilitado.”