O Aedes aegypti tem um “irmãoâ€, o Aedes albopictus, que também é transmissor da dengue. Apesar de estar presente em mais de 17 Estados brasileiros, ele não transmite a dengue no País. Ele somente é transmissor da doença na Ásia. No Brasil, o mosquito não carrega o vírus da dengue.
Essa afirmação é do epidemiologista, sanitarista e professor titular da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Almério de Castro Gomes. Ele, que realiza vários projetos e pesquisas sobre a dengue, explicou que o albopictus tem os hábitos muito semelhantes ao aegypti e também é transmissor da dengue.
Gomes acredita que a dengue é uma questão social. Para ele, a participação da população no trabalho de prevenção é o mais importante. O trabalho emergencial, realizado pela saúde pública no Brasil, de acordo com Gomes, não possibilita a prevenção da doença. Ele acredita que falta participação política para se implantar uma vigilância, um trabalho contínuo na eliminação do mosquito Aedes aegypti.
O professor lembrou que em 1985, apenas nove municípios do Estado de São Paulo estavam infestados. Dez anos depois, em 1995, já eram 485 municípios. Isso, explica ele, se deve à falta de um trabalho contínuo de prevenção. Porque em 1985, foram implantados vários programas que visavam eliminar o mosquito, mas esses programas emergenciais eliminam apenas o visível, então o problema persiste.
Em entrevista ao JC, Gomes que é o atual chefe do Departamento de Epidemiologia da USP, detalhou alguns pontos referentes à dengue no Brasil
JC - Quais são os projetos que o senhor desenvolve em relação à dengue? Almério de Castro Gomes - Essa é uma área que tem muito interesse de pesquisa. Trabalho nas próximidades, em Campinas, Vale do Paraíba. Esses projetos visam conhecer algumas características a mais do Aedes aegypti. Como, onde ele fica mais; como está o comportamento dele, se ele está mais na periferia ou no Centro; como está o serviço de coleta de lixo, enfim várias coisas. Termino um projeto e inicio outro. Vamos estudando tudo em relação às questões ambientais. O problema da dengue é uma questão ambiental.
JC - Por que o vírus da dengue, se já foi erradicado no Brasil na década de 40, está novamente apavorando os brasileiros? Gomes - Primeiramente, a palavra erradicada está colocada de forma não adequada. O mosquito foi eliminado, mas como tal, está sujeito a se reinfestar. Alguns países do continente americano não adotaram o programa de erradicação na década de 40. Em 18 países da américa, o mosquito foi eliminado, mas os Estados Unidos não quis fazer isso e passaram a ser exportadores de Aedes aegypti não só para a América, mas em geral.
JC - Nós podemos dizer, então, que os Estados Unidos são os responsáveis por essa epidemia? Gomes - A não participação deles no projeto de erradicação continental do mosquito foi uma causa importante na reinfestação.
JC - Quando o Aedes chegou ao Brasil? Gomes - Há suspeitas de que ele veio com as primeiras caravelas. A partir de 1900, é claramente identificado, mas como há surtos de dengue e febre amarela no século XVII, então se admite que o Aedes aegypti tenha chegado ao Brasil com as caravelas portuguesas.
JC - Quando ocorreu o primeiro caso suspeito de dengue? Gomes - Em 1946 foi o primeiro caso suspeito no Brasil. Mas o vírus foi identificado na década de 40. Até aí era só uma suspeita. A priori, tínhamos a febre amarela, que também é transmitida pelo Aedes.
JC - Nessa época o que se fazia com a pessoa que apresentava a doença? Gomes - No final da idade média nós tivemos os primeiros ensaios sobre vigilância em saúde e isso começou com o isolamento e quarentena e era o que se usava com as pessoas doentes. Evidentemente que mais tarde isso se tornou ineficiente porque só se isolava os sintomáticos e não os portadores. Então a ação era parcial. O sistema econômico não atende a deficiência da saúde ou da prevenção, então, naquela época, o cordão sanitário, que era o isolamento dos países que tinham epidemia, afetava o comércio e isso trazia prejuízo econômico. Portanto, o sistema econômico burlava as reformas e isso certamente foi um meio para que surgissem mais vetores.
JC - Destruindo-se os criadouros, o mosquito se adapta a outros ambientes? Gomes - É obvio. A força da sobrevivência é fantástica. Evidentemente que, para que isso aconteça, é necessário que seja possível geneticamente. Quando existe um ser vivo, é porque ele tem uma função, tem seu hospedeiro, seu habitat e está numa região climática específica. Na hora que, por qualquer motivo, eu faça desaparecer aquele habitat, se geneticamente, ele não tiver capacidade de ocupar esse outro habitat, ele vai desaparecer. Só que as populações silvestres são selecionadas pelo próprio homem. Essas populações silvestres que vem se adaptar ao ambiente humano e conviver com ele, são populações que chamamos de vivência ecológica elevada, ou seja, são capazes de viver sob várias condições ambientais. O Aedes aegypti tem uma capacidade grande de se reproduzir numa gama grande de recipientes, às vezes até em recipientes com matéria orgânica. Não que ele goste, mas é questão de sobrevivência.
JC - Quais são as preferências do Aedes? Gomes - Olha, o mosquito prefere as águas que nós utilizamos. Todas as águas que utilizamos para beber, cozinhar ou para lavar. Não é água com detergente, óleo, não. Dessas, assim sujas, eles não gostam. Agora em relação à bromélia, não é criadouro, mas ele vai para a bromélia em busca de alternativas.
JC - Só o Aedes aegypti transmite a dengue? Gomes - Não. Tem também o Aedes albopictus, mas esse só transmite a dengue na Ásia. Nas américas, temos albopictus. No Brasil, ele está presente em mais de 17 Estados, mas não se conhece nenhum risco de transmissão por esse mosquito aqui nas Américas.
JC - Por que uma pessoa que já foi contaminada pelo vírus da dengue corre o risco de contrair a forma hemorrágica da doença? Gomes - Primeiro porque entra em contato com o sorotipo e fica sensibilizado e numa segunda infecção por outro sorotipo, essa pessoa se torna vulnerável, sujeito a ter a dengue hemorrágica. Isso não ocorre obrigatoriamente. Por exemplo em Salvador, 50% da população já tiveram contato com os sorotipos 1 e 2 da dengue e não se conhece nenhum caso de dengue hemorrágica lá. A partir do momento que o indivíduo adquiriu um sorotipo, ele passa a pertencer ao grupo de risco de dengue hemorrágica.
JC - Quantos sorotipos existem? Gomes - São quatro sorotipos.
JC - No Brasil, nós temos até o 3. Correto? Gomes - Já tivemos o tipo 4 em 1982 em Roraima, mas apesar de ainda não estar no Brasil, ele está na América do Sul, no Peru.
JC - Os sintomas da dengue são semelhantes ao da gripe. As indicações são para que a pessoa não tome o ácido acetil salicílico. Por que? Gomes - Porque o ácido acetil salicílico é contra-indicado. Ele favorece os derrames, a hemorragia. Potencializa a ocorrência de hemorragia.
JC - Os métodos alternativos para o cambate à dengue, como a água sanitária e a borra de café, são eficientes? Gomes - A água sanitária é um bom produto, mas quanto a borra de café, a equipe da Sucen do Estado de São Paulo informou que repetiu o experimento feito pela professora que afirmou sobre a eficácia e chegou à conclusão de que não é eficaz. Eles são contrários ao que a professora afirmou. Eu só estou passando o que foi falado, não fiz a experiência. Por outro lado, como sanitarista, eu penso que para lançarmos um produto, é preciso fazer uma pesquisa para checar a eficácia desse produto em um trabalho de campo. Eu prefiro não emitir opinião neutra nesse caso porque tem quem fez a experiência e tem também a contra-prova. Eu não testei, se tivesse testado, te diria meu resultado.
JC - Sabemos que os ovos do Aedes sobrevivem por muito tempo, cerca de dois anos. O vírus também resiste a períodos longos? Gomes - Você sabe que eu já procurei isso na literatura e eu não achei nenhum trabalho que fale sobre isso. Não conheço nenhuma publicação sobre esse assunto.
JC - A fêmea precisa de água para colocar os ovos, ou um lugar úmido é adequado para ela? Gomes - O ovo do Aedes aegypti e do Aedes alboictus só pode ser colocado onde tem água. O ovo, quando sai, ainda não está formado. Ele se forma cerca de 20 a 40 minutos depois. Então, se a fêmea colocar o ovo em lugar seco, ele pode se desidratar. O ovo não é colocado dentro da água. Ele é colocado próximo à água porque necessita de umidade, mas se cair na água, também sobrevive. O ideal é que ele fique ali, na umidade, durante 20 a 40 minutos até se formar. A larva se forma em 48 horas. A partir daí esse ovo é chamado: ovo em estado de resistência e ele então dura bastante tempo. Nessa fase pode secar, ficar lá e, quando voltar a umedecer, ele eclode.
JC - Em relação à temperatura, como o ovo resiste? Gomes - Se congelar, ele morre. Quanto mais quente, cerca de 30 graus, é bom. As altas temperaturas aceleram o desenvolvimento, mas também a mortalidade é maior. O mosquito gosta de sombra e água fresca.
JC - Há uma pesquisa que propõe a alteração da estrutura biológica do mosquito. Qual a conseqüência disso? Gomes - Essas pesquisas são ainda puramente artificiais. Não há nada que comprove a eficácia disso, mas acho que não devemos abandonar as pesquisas, porque aprendemos ainda mais, e quem sabe, encontraremos um modo de convivência que não nos seja prejudicial. Eu estou entrando nessa área com meu laboratório, na Fapesp. É um campo do futuro.
JC - Qual sua avaliação sobre o trabalho realizado pela saúde pública no combate à dengue? Na sua opinião, houve negligência? Gomes - Sua pergunta me lembra um questionamento do qual eu sou um assíduo contestador. Eu acho que nós trabalhamos sempre para apagar o fogo, ou seja, trabalhamos em programa emergencial. Eu vejo como extrema necessidade, porque numa epidemia, temos que recorrer a esse tipo de programa, mas o que eu tenho falado é que todo esse trabalho emergencial, que resulta positivo na atual situação, ao meu ver, é atualmente jogado fora porque após isso se encerra as atividades. Há necessidade de se ter algo permanente, ou seja, vigilância. Há necessidade de se estruturar e para isso o ministério já está delegando atribuições específicas aos municípios. Se a partir da interrupção do trabalho emergencial, imediatamente se implantasse uma vigilância, ia ter uma coisa mais duradoura, podendo alterar o curso da doença. O programa emergencial elimina aquilo que é visível, ou seja, a larva e o adulto, mas os ovos ficam e, apenas um recepiente com ovo que não seja eliminado pode renegar todo o trabalho feito anteriormente. É por isso que a vigilância é necessária. Para que quando os ovos eclodirem, se eliminar o foco. Se fizerem isso, nós vamos ter sucesso, fazendo uma prevenção excelente da doença.
JC - Essa falta de vigilância faz com que a doença se alastre? Gomes - Olha esse exemplo. Em 1985, no Estado de São Paulo, tínhamos nove municípios infestados. Em 1995, já tínhamos 485. Então o que aconteceu? Não houve vigilância. Se trabalhou com isso, programas emergenciais, mas não houve a tal da vigilância.
JC - Mas se se sabe dessa eficiência na implantação da vigilância, por que não se faz? Gomes - Eu, como técnico, sei disso, mas existem as questões políticas. Toda campanha tem que ter força política. Eu acho que precisa ter vontade política. Os vereadores, prefeitos, deputados têm que assumir isso. Se a parte política não se incorporar à campanha, nada disso terá validade.