Mais uma eleição constitucional está se aproximando. Aí estão, por isso, as organizações político-partidárias cuidando de sua recomposição e definindo seus pré-candidatos aos postos que vão entrar em disputa. Então, uma inquirição se faz oportuna, melhor, oportuníssima. Indaga-se se existiria candidato que, se eleito como deseja, possa vir a ter a grande ventura de contar indefinidamente com a satisfação de seus múltiplos eleitores. Aquele que, por exemplo, no decurso de sua campanha, tenha conseguido convencer amigos e admiradores para votar em seu nome e, graças a isso, salte imediatamente para o assento macio da honrosa poltrona a que tanto aspira, será que virá a cumprir tudo quanto prometeu ao eleitorado, ou, mesmo, na pior das hipóteses, atender a um mínimo das promessas, algumas até fáceis de sacar? O presidente da República e parlamentares federais, estaduais e municipais, que obtiverem sua eleição, virão a corresponder inteiramente ou em parte aos anseios de seus votantes? Calcula-se que bem raros, pois o retrospecto indica que até agora não se encontram muitos deles que, eleitos ontem, se colocaram de “bem†com o povão que os empurrou para as alturas, nas quais usufruem de benesses as mais confortadoras, especialmente quanto ao generoso valor de seus vencimentos, salários, jetons, etc, etc...
Tem sido assim, ninguém o esquece, porque o decorrer do tempo ainda não teve forças suficientes para fazer com que o eleitor tenha ido um dia às urnas, votado alegremente no amigo e, pouco depois, não haja manifestado sua mágoa, através de incontíveis lágrimas, transformando assim uma alegria recente no choro coroador das decepções com que não contava jamais, como castigo do comodismo, da apatia e da anticidadania daquele que se tornou dono de seu voto livre e consciente. E cobrar de que forma do ardiloso político, que sabia de antemão de sua pobreza no terreno que passaria a pisar e, no entanto, não se furtou a frustrar as esperanças de seu semelhante? A literatura dos pleitos que o diga, pois registra um amontoado de gestões ou iniciativas que o eleitorado reivindica e não obtém, vendo-os passando de uma mão para outra a cada eleição que o País realiza. Agora, aproximam-se novos pleitos para renovação dos mandatos em andamento. E, na dúvida, indaga-se se o eleitorado estaria propenso, desta feita, a mudar sua filosofia, atentando para os prós e os contras e negando, enfim, seu valioso voto a quem o traiu em outras oportunidades e, desonestamente, poderia fazê-lo de novo. Não há negar que a mudança da filosofia teria de ser entendida não como vingança política, mas, sim, como um acerto de contas de eleitor equilibrado. É a nossa opinião.
(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.