Dois homens acusados de praticar clonagem de cartões bancários em Bauru foram detidos, na manhã de ontem, pela Polícia Militar (PM). Eles estavam praticando os golpes em uma agência do Banco Real, localizada na quadra 7 da rua 1.º de Agosto.
A estratégia utilizada pelos golpistas consiste em acoplar uma máquina que lê e copia as informações magnéticas do cartão sobre a máquina que autoriza a abertura da porta da agência quando o cliente passa seu cartão.
Integrantes da quadrilha permanecem na agência e visualmente descobrem a senha e o número do cartão da vítima, dados essenciais para que os saques sejam realizados .
As clonagens descobertas na manhã de ontem estariam sendo praticadas por quatro pessoas de São Paulo, que estavam hospedadas em um hotel localizado no Centro da cidade.
Uma das vítimas, que se identificou como J.C.P. e é técnico em eletrônica, disse que chegou à agência para utilizar o caixa eletrônico e estranhou quando a porta de entrada não abriu ao passar seu cartão.
“Eu passei o cartão duas vezes, mas a porta não abriu. Como sou cliente do banco há dois anos, percebi que havia alguma coisa de diferente na máquina e abaixei para ver qual era o problemaâ€, conta.
Imediatamente, uma das pessoas que estava dentro da agência gentilmente abriu a porta para a vítima, dizendo que ela não estava abrindo porque o cartão provavelmente estaria vencido. “Ele quis pegar o cartão para me mostrar a data de vencimento e provavelmente queria ver meu nome e o número do cartão, mas eu segurei firme e só mostrei a data de validadeâ€, afirma.
Segundo o cliente, havia três pessoas no local. Duas delas, que posteriormente foram identificadas como Marcelo Rosa, 34 anos, e Adalmiro Pereira de Souza, 39 anos, estavam nos balcões de preenchimento de envelopes para depósito.
Quando J.C.P. iniciou a operar o caixa eletrônico, Marcelo aproximou-se e começou a utilizar a máquina ao lado. “Na hora eu não imaginei que ele quisesse ver minha senha e o número do meu cartão. A gente fica mais preocupado com assaltoâ€, observa.
Em instantes, funcionários do banco, que identificaram a quadrilha através de monitoramento por câmeras, chegaram ao local anunciando a presença da polícia, que já tinham acionado. “Na hora, eu não entendi nada. Só vi um funcionário do banco fazendo um sinal para eu sairâ€, observa J.C.P..
De acordo com o sargento PM José Gonçalves da Silva, dois integrantes da quadrilha conseguiram fugir em um Gol branco, carro que teria sido alugado pela quadrilha em Bauru.
Os outros dois homens que estavam na agência, Marcelo e Adalmiro, foram detidos pelos policiais. Eles estavam com extratos bancários e cartões de diversas pessoas diferentes, R$ 374,00 em dinheiro e dois aparelhos de telefone celular.
Em um dos quartos do hotel em que estavam hospedados - dois golpistas estavam em um dormitório e outros dois em outro quarto - foi encontrada uma máquina de clonagem semelhante à utilizada na agência da 1.º de Agosto. Esta havia sido levada pelos integrantes da quadrilha que conseguiram fugir.
Os policiais apreenderam, ainda, uma caminhonete Silverado de cor azul e placas HMP 6682, de Belo Horizonte (MG), que estava sendo utilizada pela quadrilha.
No percurso até o Plantão Policial, Adalmiro tentou subornar o sargento da PM com uma nota de R$ 100,00 para que o policial não mostrasse ao delegado de plantão os extratos bancários que haviam sido apreendidos.
Os acusados foram autuados por estelionato e formação de quadrilha. Adelmiro também foi autuado por corrupção ativa. Eles foram conduzidos à Cadeia Pública de Bauru.
De acordo com o delegado Marco Antônio de Camargo Barros, os outros dois integrantes da quadrilha foram identificados. O caso será encaminhado à Delegacia de Investigações Gerais/ Grupo Armado de Repressão a Roubo e Assalto (DIG/Garra), que dará prosseguimento às investigações.
Barros afirmou, ainda, que o banco deverá assumir a responsabilidade, ressarcindo as vítimas, cuja quantidade exata deverá ser apurada. O delegado destaca que a empresa também se coloca como vítima, sendo os clientes vítimas secundárias.
Golpistas “migram†para o Interior
Os golpes de clonagem de cartões estão se tornando cada vez mais freqüentes no Estado de São Paulo. Segundo o gerente de segurança do Banco Real, C.A.I.S., que preferiu preservar seu nome, as quadrilhas estão migrando rumo às cidades do Interior do Estado.
Apenas nesta semana, a equipe da empresa descobriu casos de clonagens de cartões em Rio Claro, Limeira, Araras e Bauru. Além do caso registrado na manhã de ontem, foi descoberto na noite de quinta-feira, na mesma agência, um outro procedimento para clonagem de cartões.
Segundo C.A.I.S., trata-se de um chip que é instalado no interior do caixa eletrônico e que registra não apenas os dados magnéticos do cartão, mas também a senha do cliente. O equipamento foi descoberto em uma vistoria de rotina feita por funcionários da empresa e é semelhante ao descoberto no início desta semana em outra agência bancária localizada na rua Luiz Aleixo.
â€œÉ um equipamento perfeito. É muito parecido com o original. Esse chip normalmente é deixado na máquina por até oito dias. Num final de semana, com um chip a pessoa pode sacar até R$ 80 mil. É um crime que está na moda; dá mais dinheiro que assaltar bancoâ€, observa o gerente.
Ele não soube informar quantas pessoas foram prejudicadas pelos casos de clonagem executados esta semana. Na manhã de ontem, foram cerca de cinco clientes.
Devido à grande quantidade de casos de clonagens, C.A.I.S. disse que o monitoramento das câmeras de vídeo instaladas nas agências têm sido feitos em tempo real. Foi assim que os funcionários detectaram a quadrilha na manhã de ontem.
O gerente acredita que as quadrilhas estão atuando com mais intensidade no Interior do Estado porque a Capital estaria “saturada†de crimes como esse.
Estratégias
Diferentemente do chip instalado nos caixas eletrônicos para clonagem de cartões, as máquinas de clonagem acopladas àquelas instaladas nas portas das agências são utilizadas somente no período em que os golpistas estão presentes na agência.
Segundo C.A.I.S., é necessário que algum integrante da quadrilha esteja presente na agência porque a máquina registra apenas as informações magnéticas do cartão. Não registra senha nem dados específicos como o número do cartão, o nome do cliente e data de nascimento, informações muitas vezes solicitadas para que um saque seja efetuado.
Com as informações magnéticas do cartão registradas, assim como senha e dados do cliente, a quadrilha geralmente dirige-se a outra cidade, local em que confecciona os cartões clonados com o auxílio de um computador portátil e efetua os saques.
C.A.I.S. destaca que não se trata de invasão do sistema do banco e afirma que é difícil prevenir tais golpes. “Para o cliente, é quase impossível saber quando o cartão dele está sendo clonado. Já o banco tem que se atualizar constantemente porque os golpistas estão sempre evoluindo para burlar os sistemas de segurançaâ€, acrescenta.