Peço perdão já de início por utilizar um título leninista, que é precisamente o mais oposto ao que, entre todos, estamos fazendo no processo atual de construção da União Européia. Porque estamos construindo a Europa a partir da liberdade, do Estado de Direito, do estímulo a valores democráticos e aos direitos humanos e, sobretudo, a partir dos sonhos e interesses dos cidadãos europeus. Por tudo isso, estamos em oposição aos que continuam pensando que a Europa é compatível com a presença incômoda do Estado, com a intervenção permanente dos poderes públicos na vida cotidiana das pessoas, com a rigidez de seu sistema econômico ou com a aposta no imobilismo e no protecionismo não solidários.
Nós, por outro lado, queremos mecanismos que melhorem nossa capacidade de adaptação aos desafios criados pela globalização e queremos, também, que sejam aproveitadas todas as oportunidades que derivam de uma Europa capaz de constituir-se como uma autêntica alternativa, como motor de um crescimento econômico em nível mundial compatível com a defesa de nosso modelo social e de bem-estar, do qual os europeus possam sentir-se muito orgulhosos. Felizmente, a União Européia segue caminhos bem diferentes daqueles que acreditam que a defesa de nosso modelo social passa por não nos adaptarmos constantemente às exigências econômicas em virtude de nossa inserção em um mundo global.
Quero ser muito claro: não há antítese entre a defesa de nossa coesão social e de nosso modelo de bem-estar e de convivência e, por outro lado, a necessidade de sermos rigorosos, sérios e disciplinados na hora de realizar as reformas e transformações em nosso sistema produtivo. Ao contrário. Os que defendem uma Europa “mais socialâ€, sem levar em conta que isso exige uma Europa mais competitiva, mais dinâmica e mais capaz de gerar emprego para todos, enganam os cidadãos. Ou alguém, honestamente, acredita no contrário?
Os exemplos históricos são evidentes. Apenas a economia de mercado e a liberdade política, conjuntamente, demonstram, historicamente, sua eficácia na hora de propiciar crescimento, bem-estar, emprego e, ao mesmo tempo, respeito ao meio ambiente. Isto é, um modelo de desenvolvimento sustentável. E todo o restante não passa de elucubrações pretensiosamente progressistas. Nada a ver, portanto, com o progresso autêntico e real dos Estados e dos cidadãos. E tudo isto vem em conta dos resultados e do contexto do Conselho Europeu de Barcelona.
Fez-se muitas coisas e tomou-se muitas decisões. E sou muito consciente de que estas decisões foram contestadas desde os mais heterogêneos manifestantes existentes atualmente. Muito bem. Na medida em que se expressam pacífica e democraticamente, nada há a objetar quanto aos seus métodos e sua liberdade, garantida democraticamente por todos. No entanto, gostaria de fazer algumas reflexões a respeito. A primeira é que a legitimidade democrática está onde está: isto é, nos governos democrática e legitimamente eleitos. E, às vezes, parece que isso é esquecido. E não se deve esquecer jamais: quem representa os cidadãos europeus são os parlamentos e os governos legitimamente constituídos.
Naturalmente, deve-se ouvir a todos, mas a voz mais autorizada, sem dúvida, é a que pertence aos cidadãos, que se expressam por meio do voto. Todo o resto é adulterar as coisas e pretender violentar a autêntica expressão da vontade democrática dos europeus. Convém estar, portanto, muito alerta e não cair nem em ingenuidades nem em falsos complexos. A segunda é que a Europa caminha passo a passo, mas firmemente. A Europa é um triunfo coletivo. Caso contrário, não aconteceria o que acontece: que todos querem fazer parte da Europa e nenhum país quer ficar à margem. E motivo haverá. Porque ninguém se junta a um fracasso e todos querem aderir ao êxito.
Por tudo isso, o Congresso de Barcelona foi um êxito. Embora alguns custem a reconhecê-lo. Porque avançamos em boa direção, através de muitas decisões concretas. Sem grandes alardes conceituais, mas seriamente, e o fizemos para dentro e para fora. Reformamos a Europa e somos capazes de enfrentar os grandes desafios de política externa nos campos da paz e da cooperação internacional com voz única e decidida.
Assim, para a grande pergunta, o que fazer?, a resposta é muito clara. Se queremos que a Europa avance, conselhos como o de Barcelona são imprescindíveis. E todo o resto é música celestial. A Europa necessita de grandes discursos de vez em quando. Mas, sobretudo, precisa de realidades. E esta é a grande mensagem de Barcelona. Não vamos desperdiçá-la. Pelo contrário, vamos ser conseqüentes e fazer do espírito de Barcelona nosso roteiro de atuação. (O autor, Josep Piqué, é ministro de Assuntos Exteriores da Espanha)