07 de julho de 2026
Ser

Cabeça-feita

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Ela já raspou a cabeça e deixou uma lua e estrela com fios curtos desenhando a nuca. Já pintou o cabelo de roxo e rosa, azul, amarelo, bem vermelho... Cortou arrepiado e desfiado. Deixou crescer uma única vez e disse que foi um dos maiores sacrifícios que já fez. A estudante de Moda Thayla Tayar a vida inteira mudou os cabelos a cada 15 dias, variando estilos e visuais nada convencionais. Ela acredita que os cortes fazem parte de sua atitude, mas não chegam a abalar sua personalidade.

“Mudo o cabelo do mesmo jeito que eu respiro. Eu não faço isso para aparecer. Faço porque eu gosto. Detesto quando saio na rua e as pessoas comentam, me incomoda muito. Acho falta de respeito”, explica a universitária que no dia em que a matéria foi feita estava com os cabelos ferrugem, o hit da estação.

Thayla conta que o tempo de duração de um visual é variável, pode durar um dia ou até um ano. “Basta olhar no espelho e perceber que não me agrada mais, que mudo o corte ou a cor.” Mas ela se defende. Não acredita que o cabelo influencie na personalidade. Essas mudanças fazem parte de seu exterior e de uma certa forma mantêm sua auto-estima sempre em alta. “Mas a minha personalidade nasceu antes dos meus cabelos. O meu caráter não vai se alterar por uma tinta. Não é também porque agora faço faculdade de Moda que estou diferente. Eu sou a Thayla independente do cabelo.”

Cumplicidade

“A personalidade retrata o cabelo da mulher”, define o dono da Gil Imagem, conhecido como Gil Milagre. Há seis anos ele cuida do visual fashion de Thayla e a considera sua herdeira natural quando o assunto é atitude.

“Eu também usei cabelo loiro, comprido, calça rasgada numa época em que ninguém usava. Sofri horrores, mas só depois que morei fora do País e conheci outras culturas, descobri o que acontecia em Bauru.” Com relação à sua cliente fiel sua proposta de trabalho combina com a dela. “Dificilmente ela vem ao salão para fazer a mesma coisa.”

O cabeleireiro aponta que o arrojo de Thayla é exceção na cidade. Ele não se esquece de uma cliente negra, paulistana que chegou no salão onde trabalhava em São Paulo com a foto da Vanusa - queria ficar igual a ela.

Mas existem aquelas mulheres que sabem como realçar seus traços naturais. É o caso da balconista Simone Uehara, cujo nome denuncia que é oriental e como tal originalmente tem cabelos lisos e negros. Teria. Simone adota cores entre o marrom e o vermelho há anos para fugir do convencional. Também usa um corte texturizado, repicado que como ela diz: “Lavou, bateu, tá pronto, prendeu, soltou, está arrumado.” Ela continua japonesa, mas moderna.

“Cabe a mulher ser bela e aceitar-se bela. O interessante do profissional da beleza não é o poder de transformação radical, mas o de ser apenas um consultor que faz aquilo que ela necessita para reconquistar essa beleza roubada”, filosofa Gil do alto dos seus 18 anos de carreira.

Ele conta que muitas vezes as mulheres chegam ao cabeleireiro com um visual caseiro ou mal cuidado que refletem o seu momento ou estado de espírito. Bastou levantar da cadeira para elas saírem outras, principalmente quando são elogiadas.

Neste processo existe diálogo entre profissional e cliente e não são necessários muitos recursos e artifícios.

A mãe de Thayla, Lucimar Pires de Camargo Monteiro Tayar, ao contrário da filha sempre teve cabelo comprido que quase cobria suas costas por completo. “Às vezes, repicado. Nunca o mesmo corte, mas não mexia no comprimento. Sempre gostei muito de luzes, mechas, bem artificial mesmo. Não suporto cabelo tinto, certinho por igual. Acho que a partir do momento em que decidi mudar a cor do cabelo é para aparecer que foi colorido. Não natural. A beleza natural é outra coisa. Artifício é artifício”, justifica.

Mesmo gostando de coisas artificiais, Lucimar afirma que a sua personalidade não tem nada a ver com o cabelo. Será? Ela está longe de ser artificial. Mas fala o que pensa, é forte, corajosa e determinada. O próximo look será bicolor em claro e escuro. “Tem que ter coragem para fazer isso”, finaliza.

O cabeleireiro revela que uma outra cliente também resolveu mudar radicalmente o visual. Ficar jovem e usar o cabelo como um disfarce mais do que perfeito para a plástica feita por ela. “As amigas nem perceberam o efeito do bisturi, só o da tesoura”, comemora Gil.

Padrões sociais

O cabeleireiro Gil comenta que o fato do cabelo influir na personalidade da pessoa também depende de fatores sociais e até religiosos. “Muitas religiosas não cortam o cabelo por terem-no oferecido em sinal de sacrifício, devoção e respeito a Deus”, justifica.

Mas ao mesmo tempo em que as longas madeixas podem fazer com que realmente elas tenham um comportamento semelhante não significa que todas essas mulheres sejam iguais ou tenham o mesmo temperamento. Até mesmo porque, em alguns casos, elas mantêm o cabelo extralongo, mas já adotam um visual mais displicente.

O crescente número de negros de cabeça raspada também pode ser exemplo de adequação e não de uma moda, mas sim a uma cobrança social. Hippies cabeludos, geração black power e rastafari fazem parte de um movimento de rebeldia e contestação. A ausência de cabelos poderia ser uma forma de conseguir aceitação social.

Um jornalista, que preferiu não se identificar para não gerar polêmica, comentou a atitude do rapper Xis na Casa dos Artistas. Ele conta que o cantor chegou na casa para ser a figura contestadora, politizada e da periferia em um universo de beldades marombadas, oxigenadas, cujos atributos físicos engordam contas bancárias e recheiam revistas. Seu visual inicial era cabelão, mas em sua rápida permanência no reality show, o cantor chegou a raspar a cabeça. Talvez por não suportar a pressão dos companheiros ou ainda por um possível desejo de ser aceito pelo grupo.

Homens também buscam melhorar a auto-estima

Não é só no universo feminino que a personalidade e o bem-estar estão ligados aos cabelos. A única diferença, diz o cabeleireiro Claudio Zanda é que o cabelo de um homem geralmente tem de dois a quatro centímetros e o da mulher, de 20 a 40.

Zanda herdou a profissão do pai, conhecido pelo sobrenome e que há 65 anos é barbeiro na cidade. Claudio completou 15 anos cuidando de cabelos masculinos e está feliz por perceber que o homem está aceitando mudar.

“Costumo dizer que não vendo cortes. Trabalho a serviço da auto-estima, porque tudo o que reflete externamente é produto do interior.”

Pelas ruas da cidade, ele percebe que muita gente cristalizou um tempo em sua vida e não quer mudar, por medo do novo ou receio de arriscar o que na cabeça dela está bom. Dessa maneira, muitos homens ainda usam um visual new have, dos anos 80 ou o estilo comprido das duplas sertanejas em início de carreira na mesma época.

Zanda aponta que não é da noite para o dia que se consegue mudar o visual de um homem, seja ele jovem ou mais velho.

“Tenho clientes grisalhos, com cabelos belíssimos, que não mexem na cor. Mas que depois de avaliações e conversas optaram por um corte mais jovial. Outros temem a idade e cobrem os fios brancos e já se permitem mudar de tom.”

O cabeleireiro confessa que durante muitos anos as opções oferecidas ao público masculino eram “quadradas”, mas hoje os conceitos mudaram. “Já não se tem mais aquela história de que homem que colore o cabelo é efeminado. Os conceitos são outros e os cuidados com a aparência também”, conclui. Ele explica que é preciso cumplicidade com o cliente e muito cuidado na abordagem. Coisas de homem.

Zanda revela que ao contrário das mulheres, os homens preferem salões reservados e atendimento exclusivo. São rigorosos nos cuidados recomendados e ficam de olho na regularidade de fazer suas visitas ao salão.

“Principalmente aqueles que têm o cabelo com coloração. Raiz branca ou de outra cor é inadmissível até mesmo porque a massa capilar masculina é mais demarcada do que a das mulheres, devido aos cortes curtos. Mas os homens não descuidam do corte. A visita ao barbeiro ou cabeleireiro é religiosa no máximo de 30 em 30 dias.”

Para os homens, as técnicas de corte também evoluíram e já é possível cortar o cabelo de um calvo dando a impressão de que ele tem maior número de fios. Ou então aqueles cortes que dispensam o pentear.

Pode parecer incrível, mas muitos homens afirmam que cuidar dos cabelos dá o maior trabalho. Outros, no entanto, como confidencia Zanda, têm três produtos de finalização. “Se vão a uma reunião optam por um finalizador que dê um resultado mais natural. À noite usam o brilho do gel e um visual mais despojado, se o compromisso é a rigor até spray é permitido. Os homens têm o mesmo direito e obrigação de estar bonito e sentindo-se bem como as mulheres tanto buscam. Muitas vezes, uma plástica no nariz não faz tanta diferença para um homem quanto um corte de cabelo. Ele muda conceitos e até atitudes.”