Quarenta e dois anos de praia, 20 só de ondas musicais, o carioca Cláudio Zoli nasceu no dia 13 de maio de 1960, dia do 72.º aniversário da assinatura da Lei Áurea, pela princesa Isabel. O que isso tem a ver? Coincidência ou não, Zoli é negro, faz “música de pretoâ€, como ele mesmo se refere na letra de “Linha do Equadorâ€, que foi sucesso na voz de Djavan, e além disso é conhecido como o príncipe da black music brasileira.
Apesar de dispensar o título, Cláudio diz que seu maior desafio é manter a carreira e viver dela. “Noite do Prazer†e “À francesa†são hits que fazem com que pelo menos duas gerações não esqueçam seu nome. Mas ele quer agora conquistar novos adeptos com novo CD “Zoli nas pistasâ€. Nele reúne seus principais sucessos, alguns campeões de execução nas vozes de Elba Ramalho e Marina Lima.
Com influências assumidas de Tim Maia e Cassiano, Zoli é fiel a parceiros musicais como Bernardo Vilhena e Antônio Cícero, mas sua música tem estilo e vida próprios.
Muito bem-humorado, mesmo sendo cobrado pela banda para passar o som e com um copo imenso de suco de abacaxi na mão, Zoli sentou-se na área de convivência do Sesc com a equipe do Jornal da Cidade para dar esta entrevista.
Aliás, duas horas depois, o “cara†deu um senhor show. Pena que pouca gente estava lá. Mas quem foi para ver Cláudio Zoli, viu vários. No palco, além de Zoli e a banda impecável, estavam Tim Maia, George Benson, Jimi Hendrix, James Brown e mais alguém que deve ter escapado das referências incorporadas. Zoli canta, dança e toca muito. Quem foi ao show não parou de dançar, e quem não foi “dançouâ€.
Não é deslumbramento, não. O “príncipe da soul music†tem brilho e está batalhando para que a boa música brasileira conquiste seu espaço.
Jornal da Cidade - É uma feliz coincidência ter nascido no dia da Abolição da Escravatura e se tornar o “Príncipe da Soul Musicâ€?
Cláudio Zoli – É feliz coincidência sim, mas essa história de príncipe é um negócio que inventaram. Eu não tenho nada a ver com isso não.
JC - Você não dá mesmo a mínima para este título de nobreza?
Zoli – Não mesmo, pode acreditar.
JC - Mas você é um divisor de águas entre a velha guarda da música negra brasileira e essa moçada nova, da qual você também está fazendo parte. Você ficou um tempo meio quieto e agora voltou. Como você vê esse processo?
Zoli – Eu acho que o que mantém a nossa obra de músico viva é a gente estar na atividade, atuando todo o tempo. Como você disse, eu estou trabalhando com essa moçada nova e isto quer dizer que continuo atuando no cenário. Porque está coisa do músico, do artista, é complexa no Brasil. Manter uma carreira de artista ou como músico é difícil. E, na verdade, o que deveria ser a coisa mais normal do mundo, porque é uma profissão como qualquer outra. Mas o mais difícil é você ser músico, ter essa profissão, sobreviver como músico, se aposentar como músico, mas estar atuando o tempo inteiro. A música é uma coisa de altos e baixos e para min está sendo excelente poder voltar com essa moçada nova. Na verdade, a minha escola naturalmente foi Tim Maia e Cassiano. Sempre acreditei nas músicas e nas composições e a gente viveu uma banalização muito grande na música brasileira na década de 90 principalmente. Então, parece que a música boa ficou à parte. Ficou de lado mesmo. O que importa agora é a música comercial que é a música imediatista, que vende, a música descartável. Não é a canção e músicas que fizeram a nossa história, grandes artistas, grandes cantores que a gente teve na nossa música e hoje não tem mais. O que a gente está vivendo agora é um resgate da música brasileira e tudo o que é bom está voltando, como a própria black music. No Brasil já se vê nas prateleiras de CDs coisas que não existiam. Hoje tem CD da Black Rio, que antes não tinha e de mais uma galera.
JC - E de uma galera nova, não é? De uma outra geração literalmente. Dessa turma nova você tem um preferido, qual o seu novo músico do coração? Simoninha, Max de Castro...
Zoli – Não cara, o João (Marcelo Bôscoli) para mim é especial, com certeza (fala com ternura). Mas eu tenho um carinho enorme por todos eles.
JC - Já que falou no João Marcelo, você tem um trabalho novo saindo pela Trama (gravadora da qual o filho de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli é diretor artístico). Esse trabalho é uma releitura de seu primeiro álbum solo?
Zoli – Na realidade é uma coletânea com a releitura de músicas que foram marcantes na minha carreira, como “Noite do Prazerâ€, “À Francesaâ€, “Felicidade Urgenteâ€. Tudo o que trouxe para o disco era o que fazia nos shows, mas ao invés de gravar ao vivo foi para o estúdio. A grande dificuldade do artista é estar sempre vivendo essa preocupação, que é manter o trabalho, uma carreira. Acho que estou no meu melhor momento, voltando a viver agora com esse “Zoli na Pistaâ€. Como a minha música está sendo reconhecida de novo, quem não conhecia está conhecendo.
JC - Dessas músicas marcantes, qual a sua preferida? Qual marca um momento mais Cláudio Zoli?
Zoli – É muito mais Claúdio Zoli quando toca “Noite do Prazerâ€. “Na madrugada a vitrola rolando um blues, tocando B.B. King sem parar†(cantarola).
JC – Essa música é vo-cê?
Zoli – Aí é o mano Cláudio (risos). Na verdade, eu sou todas as músicas, porque todas as músicas têm a ver com a minha história, com a minha vida. Eu não canto nada do que não seja “euâ€. Todas as músicas têm a ver comigo. Todas! Não tem nenhuma que esteja cantando, que eu fale vou cantar porque acho bacana essa música. Eu canto o que eu sinto.
JC - Você vem de uma família musical? Como é que a música surgiu na sua vida? Você é cantor, compositor, instrumentista, dançarino. Um músico assim precisa ter dom? Hoje, a gente tem poucos músicos como você. Temos bons intérpretes, bons compositores, mas você é um privilegiado.
Zoli – Na verdade é um dom mesmo. Não tinha ninguém na minha família que mexesse com música e até hoje não conheço ninguém. Mas a minha mãe tinha uma vontade muito grande de ter aprendido a tocar um instrumento. Talvez essa vontade dela tenha passado para min (risos). Foi aí que eu conheci, onde morava no Rio de Janeiro, lá em Niterói, um guitarrista que chamava Paulinho Roquetti, que era um músico profissional, que tocava muito e eu estava começando a tocar violão. Aquilo, aos 16 anos, me despertou um interesse de querer aprender a tocar muito grande. Aí eu conheci outro Paulinho, o Paulinho Guitarra que tocava com o Tim Maia. Com 17 anos, quando estava começando a tocar, passei a freqüentar os ensaios do Tim. Eu não tinha idéia na minha cabeça de que hoje eu iria estar fazendo um som influenciado por ele (Tim Maia) e Cassiano, mas fazendo a minha música. Naquela época, eu era simplesmente um músico que estava começando a tocar. Nunca pensei que iria, compor, cantar, ser artista...
JC - Ser um herdeiro direto do Tim Maia... Como foi o seu relacionamento com ele, chegou a rolar um som mesmo com aquele temperamento intempestuoso dele?
Zoli – O pouco contato que tive com ele foi muito bom. De bater papo, trocar idéia. O cara realmente faz falta.
JC - Você toca Tim Maia nos seus shows. Mas continua ouvindo o “descobridor dos sete maresâ€? O que você escuta?
Zoli – Escuto de tudo um pouco: James Brown, Maxwell. Eu gosto de Chat Baker, um jazzinho, Ben Harper. George Benson e Jimi Hendrix que foram caras que me influenciaram. Eu gosto de tudo o que é música boa.
JC - Hoje, como você definiria a música brasileira?
Zoli – Acho que não tem definição. Sabe por quê? Até tem definição a música brasileira, só que ela ainda não ocupou o espaço que tem que ocupar, entendeu? Ela ainda não foi reconhecida por seu espaço dentro da música negra, que teria que ser reconhecido. Na hora que vai para a mídia, não vai um segmento, vai uma música. Então, a grande maioria não tem consciência disso. A música negra é samba, hip hop, soul, é várias coisas, mas elas não ocuparam espaço dentro música boa brasileira, ainda. Mas vão ocupar.
JC - Isso é mercado?
Zoli – Mercado e principalmente, cultura.
JC - Você acha que há um tempo para isso acontecer? Já tivemos vários movimentos isolados bons e ruins. Mas de black music boa até hoje não teve. Tivemos um pagode desvirtuado, um axé mais forte e negro, que logo se perdeu, um rap fraco e um funk sofrível. Salvo isso temos, além dessa moçada da Trama, o Ed Motta e o Funk como Le Gusta. Quando isso vai ser assimilado de fato?
Zoli – Vai levar um tempo. Porque esta música “ficou†muito tempo fora da mídia. Não se tocava música brasileira nas rádios. A gente viveu uma década de 90 com três determinados estilos de música. E até a galera assimilar essa coisa que aos poucos está voltando vai demorar um pouco. Enquanto isso, cada um levanta a sua bandeira e ao invés de ver um estilo, ouve uma música. Mas a gente já caminho bem e está num momento bom desse resgate.