08 de julho de 2026
Ser

O preço dessa tal felicidade

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

Foi-se o tempo em que a expressão: “Dinheiro não traz felicidade” tinha fundamento. Num mundo cada vez mais capitalista, a resposta para este “conselho-consolo” é imediata: “Realmente, não traz felicidade. Manda buscar”. Mas quanto custa essa tal felicidade? É preciso pagar caro para ser feliz ou dá para se contentar com pouco?

O questionamento pode parecer banal, mas existem pesquisadores e instituições que se dedicam a tentar descobrir o preço da felicidade.

Um milhão? Talvez. Um artigo publicado recentemente pelo fundador e vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Roberto Teixeira da Costa, afirma que a felicidade está à venda. Ele está amparado por pesquisas que constataram: o dinheiro compra a felicidade, mas ela não custa tanto quanto se pode pensar, em princípio.

Os estudos indicam que a felicidade pode custar US$ 25 mil por ano. Existe gente mais feliz entre os grupos ricos do que entre os pobres. Só que essa diferença não aparece entre as pessoas com renda anual acima de US$ 25 mil.

Também é citada no artigo uma pesquisa que está sendo feita pelo cientista social holandês, Poot Veenhoven.

O sociólogo gastou anos consultando pessoas em 82 países com questões do tipo: “Todas as coisas sendo consideradas, quão satisfeito você está agora com sua vida como um todo?” ou “Durante as últimas semanas, você em algum momento se sentiu no topo do mundo?”.

Após várias maquinações estatísticas, levando em conta fatores como expectativa de vida e renda, ele chegou a números que variam de um a dez e indicam o nível de felicidade de um país em específico. Os dados do nível mundial de satisfação são de 1997. Já a pesquisa em que aparece o Brasil é de um ano antes, 1996. Os resultados são, no mínimo, curiosos. (Leia quadros nesta página)

As diferenças

O que explica as diferenças encontradas na pesquisa da World Database of Happiness? Certamente, a riqueza é um fator, mas não o único! A questão cultural pesa. Como as culturas hispânicas enfatizam o orgulho pessoal, as taxas de satisfação são maiores em países da América Latina, apesar de ter um nível de renda per capita baixo.

Os números comoveram tanto o presidente do Cebri, que ele acessou o site da pesquisa para saber mais sobre o Brasil. “Os estrangeiros que nos visitam (quando não são assaltados!) nos consideram um povo alegre e feliz!”

O significado

Segundo o dicionário “Houaiss da Língua Portuguesa”, a felicidade é a qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar; boa fortuna; sorte; bom êxito; acerto, sucesso; votos de feliz êxito; congratulações; felicidade eterna: bem-aventurança; salvação eterna.

Já o “Aurélio” diz que a felicidade é ainda ventura e contentamento.

Bernard Shaw com seu humor irreverente diria: “Uma vida inteira de felicidade! Nenhum homem vivo conseguiria suportá-la. Seria o inferno.”

Em verso e prosa

“A felicidade consiste em um bom saldo bancário, uma boa cozinheira e uma boa digestão.” (Jean Jacques Rousseau)

“Ter uma casa boa, limpa e bem curada, / hum variado jardim de canteiros / cheirosos, fructos, bom vinho, filhos pouco numerosos, / possuir só, sem alarde, uma esposa affeiçoada; / Não ter contas, amor, questões, demandas, nada / de partilha a fazer com parentes cuidosos, / com pouco se fartar, descrer dos poderosos, / sem os desejos regrar por pauta moderada." (“A Felicidade Deste Mundo”, Plantin (1520-1589) - Tradução de Guilherme de Almeida)

“Tristeza não tem fim, felicidade sim!”. “A felicidade / A felicidade é como a gota / De orvalho numa pétala de flor / Brilha tranqüila / Depois de leve oscila / E cai como uma lágrima de amor .” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

Nível mundial de contentamento

Paises ricos e pobres - 1997

* Colômbia - 8,32

* Suíça - 8,15

* Gana – 7,93

* Estados Unidos - 7,67

* Japão - 6,72

* África do Sul - 5,59

* Ucrânia - 3,95

Onde o Brasil aparece - 1996

* México - 7,68

* Brasil - 7,26

* Uruguai - 7,07

* Espanha - 6,61

* Índia - 6,53

* Polônia – 6,46

* Turquia - 6,20

(*) Taxas variam de 1 a10

(**) Fonte: Pesquisa World Database of Happiness

Menos de R$ 4 mil

Para constatar o grau de felicidade do bauruense, o Ser foi às ruas tentar saber quanto custa ser feliz e descobriu que para isso não é preciso mais do que R$ 4 mil por mês, exagerando...

“O que vale na vida é muito amor e amor não tem valor. Não tem preço o amor da família, dos filhos, dos netos. Não tem alegria maior que poder carregar uma netinha como esta.”

Cláudio Morandi, aposentado, com a neta Gabriela Paveloski

“Felicidade não tem dinheiro que compre. Mas a gente tendo dinheiro pode mudar várias situações. Não é preciso muito, milhões, bilhões. Mas o suficiente para fazer um passeio com a família, não negar um brinquedo aos filhos e garantir seus estudos no futuro. Acho que para isso tudo uns R$ 3 mil por mês daria e até sobrava uma reserva.” Israel Leite, mecânico

“Ganho R$ 1 mil e sou feliz. Não sei se ganhasse muito mais seria mais feliz proporcionalmente. Seria? Talvez um pouco a mais me desse outras coisas. Mas posso lhe dizer que sou feliz.”

Patrícia de Cássia Oliveira, auxiliar de enfermagem

“Tendo paz, amor e consideração pelo próximo não é preciso muito não. Só uma quantia para viver bem R$ 1 mil, R$ 1,5 mil... Mas se não tiver paz, união, fé em Deus e solidariedade não adiantam milhões. Sem isso, não tem dinheiro no mundo que resolva os problemas.”

Alice Lopes Brusnardo, doméstica

“Não tenho noção. Mas R$ 500,00, R$ 200,00, seriam suficientes para comprar roupas e coisas gostosas para mim, meu marido e meu filho. Daria para ir ao cabeleireiro e fazer outras coisas.”

Tereza Vieira Carvalho, promotora

“O preço da minha felicidade é ter uma vida próspera, em que consiga comprar roupas, alimentos e o essencial sem precisar fazer contas no final do mês. Dinheiro que supra minhas necessidades e da minha família e que sobre alguma coisa. Quanto? Uns R$ 4 mil por mês.”

Rodrigo Sartori, montador de móveis