08 de julho de 2026
Saúde

Sangue transporta bactérias e vírus

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 5 min

Além das doenças que ocorrem no sangue, alterando sua formação, há também aquelas que são transmitidas através dele, sem causar problemas na sua estrutura, mas os sintomas são sofridos pelo organismo do indivíduo.

De uma forma geral, de acordo com a diretora do Hemonúcleo de Bauru, a médica hematologista Telma Cristina de Freitas as doenças que são transmissíveis pela transfusão de sangue mais antigas são a sífilis e a doença de Chagas.

Antes, há mais de 20 anos, de acordo com a médica, para checar um sangue doado, só se fazia três exames. O da sífilis, da Chagas e da hepatite B. Isso porque eram as doenças que, na época, se sabia que o sangue transmitia.

A pessoa que tem sífilis, conta a médica, pode ter a doença sem saber que a contraiu em algum momento, porque a via de transmissão é assexual e indolor. Essa pessoa, quando vai fazer uma doação, será informada que em seu sangue foi detectada sífilis positiva. “Se a pessoa vai fazer uma doação de sangue, é possível detectar que ela já teve um contato com sífilis e não se tratou”, explicou.

Ela diz que, atualmente, essa doença não é mais transmitida porque o sangue que é testado não tem risco de transmissão. “Se o sangue ficar cerca de 48 horas na geladeira, o triponema morre. Então, ele não é mais vírus de transmissão”, disse.

A doença de Chagas, de acordo com a médica, é aquela que as pessoas normalmente adquirem na zona rural em contato com o bicho barbeiro que é o hospedeiro do parasita causador da moléstia. Essa doença causa uma lesão no músculo cardíaco que vai ao longo do tempo lesando os feixes nervosos do coração e fazendo com que o indivíduo entre em insuficiência cardíaca, o coração começa ficar fraco e a pessoa tem sinais de que o coração está insuficiente.

A doença de Chagas, atualmente, também é difícil de ser transmitida pelo sangue, segundo a médica. Isso porque são feitos os exames onde ela é detectada.

A hepatite B pode ser assintomática ou pode causar a hepatite crônica ativa que é o fato do indivíduo ter o vírus da hepatite e isso causar uma lesão no fígado que evolui para uma cirrose hepática. De acordo com Telma, a pesquisa da hepatite B se faz por três testes diferentes: o HBS que é o vírus; o anticorpo contra uma parte do vírus que é o anti-HBC; e também a transaminase que é uma enzima do fígado que se altera quando tem a presença de alguma lesão do fígado. “Todos esses exames são realizados atualmente e, se der positivo, descartamos o sangue”, afirmou.

No sangue doado também é pesquisada a presença da hepatite C, considerada um problema muito sério de saúde pública no Brasil, de acordo com a médica. Ela diz que o número de portadores dessa doença tem aumentado consideravelmente. “Infelizmente para a hepatite C nós não temos vacina e esse tipo é mais maligno do que o B. Cerca de 40% dos casos evolui para cirrose hepática ou para câncer de fígado”, afirmou.

Telma conta que 1% dos doadores brasileiros têm o vírus da hepatite C. “Isso é gravíssimo em termos de saúde pública. Se pensarmos que, ao longo dos anos, essas pessoas vão evoluir para uma doença incurável, imagina o que isso significa para o País”, lamenta.

A médica lembrou que o Governo Federal oferece medicação grátis para o tratamento da hepatite C, porque apesar dessa medicação ser muito cara, ela é ainda mais barata que um transplante de fígado, que seria o único tratamento para a evolução da doença.

Outra moléstia transmitida através do sangue é a aids. Para checar se o indivíduo possui o vírus HIV são feitos dois testes diferentes. Duas técnicas melhoram o nível de diagnóstico. Devido a esses testes, a transmissão de HIV por sangue ficou muito baixa. “Ainda temos o risco da janela que nunca vamos acabar”, disse.

Ela explica que o médico que vai optar por uma transfusão de sangue, deve avaliar a relação risco-benefício. “Ele não pode fazer uma transfusão de sangue sem ter a certeza se o risco que o paciente corre pela transfusão é menor do que o risco que ele corre pela falta desse sangue”, analisa.

Um outro tipo de vírus que é transmitido pelo sangue é o HTLV. Ele é considerado de incidência alta no Brasil. Dos pacientes com HTLV positivo, 4% evoluem para uma leucemia ou para uma doença neurológica. Como se sabe desses fatores, de acordo com Telma, passou-se a fazer de rotina, a pesquisa do anti-HTLV. â€œÉ complicado porque não há nenhuma solução para o indivíduo, ou seja, não tem tratamento”, afirma.

Em todos esses casos, se for detectada alguma moléstia, o sangue doado é descartado. Depois de curado, o indivíduo, apesar de não poder doar sangue, não tem alterações na composição desse tecido.

Hemodiálise

A hemodiálise é realizada em indivíduos que têm doenças renais. Para fazer a função desse órgão, que é filtrar o sangue, o paciente tem que, através de uma máquina, duas ou três vezes por semana, realizar uma filtragem.

De acordo com Telma, os doentes que sofrem hemodiálise, recebem uma transfusão de sangue porque eles adquirem uma anemia importante por falta de uma substância fabricada pelo rim.

E.P.S, 34 anos, faz hemodiálise há três meses. Ele disse que, apesar do inconveniente de ter que realizar essa passagem todas as semanas, leva uma vida normal. “Claro que precisamos evitar alguns exageros, mas estou entendendo o que é essa doença e procuro seguir as ordens médicas”, afirmou.