Atualmente, a maioria das vagas disponíveis no mercado de trabalho é para vendedor. Apesar da grande oferta, a atividade é uma das mais rejeitadas pelos interessados em se reinserirem no mercado de trabalho. O maior obstáculo tem sido as exigências para o cargo.
Os desempregados têm evitado assumir a função porque acabam descobrindo dificuldades por trás das vagas. Muitas empresas têm solicitado critérios de seleção que fazem com que um futuro empregado tenha que praticamente “pagar para trabalharâ€. A maioria, além de oferecer como remuneração apenas uma porcentagem sobre as vendas realizadas, obriga o interessado a arcar com todas as despesas provenientes do exercício da atividade, como alimentação, manutenção de veículos, combustível e pedágios.
Assim, além do risco de batalhar o mês todo e ainda ficar sem salário, na eventualidade das vendas não se efetivarem, o trabalhador não sabe quanto vai receber no final dos dias trabalhados. Diante de tal tendência, algumas agências tem até evitado abrir novas vagas para vendedores. É o caso do Centro de Orientação para o Trabalho (COT) de Bauru, cuja coordenadora do Departamento de Recursos Humanos, a psicóloga Élcia Terezinha Rodrigues, confirma o fato.
Élcia justifica a posição argumentando que as empresas estão traçando um perfil absurdo, que não corresponde à realidade do mercado, para preencher as vagas de vendedor. Ela classifica a seleção como sendo “selvagemâ€. “São condições desumanas, pois muitas empresas exigem que o interessado tenha carro e assuma, ainda, todas os custos com combustível, viagens e pedágios. Outras não propõem sequer comissão, registro em carteira ou ao menos um contratoâ€, afirma.
Ela ressalta que as vagas surgidas atualmente para a função têm obedecido esse perfil. “As empresas chegam ao ponto de exigir até que o carro não tenha muitos anos de uso, pois normalmente geram mais custos de manutenção. Além disso, quando aparecem vagas com menos empecilhos, são serviços ruins ou para vendedores internosâ€, enfatiza Élcia.
A coordenadora cita um exemplo ocorrido recentemente no COT. Segundo Élcia, uma empresa conceituada de Ribeirão Preto abriu uma vaga para vendedor de cartão de crédito na cidade. “No início, pensei tratar-se de uma chance maravilhosa para os bauruenses. Entretanto, quando perguntei dos benefícios que a empresa oferecia, não havia nenhum. A pessoa tinha de ter carro e todas as demais despesas correriam por conta do interessado, cabendo a ele apenas uma comissão sobre as vendasâ€, conta ela.
Élcia acrescenta que ficou tão indignada que cancelou a oferta da vaga. “Questionei para a pessoa se ela não estava percebendo que esse desempregado iria ter de pagar para trabalhar e que não teria nenhum benefício para ele, apenas para a empresaâ€, diz a coordenadora. E complementa: Faço isso porque me sinto como se estivesse usando o candidato, pois um trabalho como esse não é digno e a empresa estará explorando o trabalhador.â€
Apesar disso, Élcia acredita que tal tendência não durará mais muito tempo. “O nível de desistência para as vagas ficará cada vez maior e, depois de certo tempo, não haverá mais interessados para as mesmas. Por isso, creio que as exigências começarão a diminuir, forçando as empresas a melhorarem as ofertasâ€, considera ela.
Números da rejeição
Números fornecidos pelo Centro de Pesquisa e Encaminhamento ao Trabalho (Cepet) dão um exemplo da rejeição que a atividade vem sofrendo atualmente. No ano passado, mesmo com o cadastramento de 1.887 pessoas, apenas 31 - cerca de 37% - das 83 vagas oferecidas para o setor foram preenchidas. E, até março de 2002, o panorama permanece o mesmo. Das 24 vagas ofertadas, apenas quatro, ou 16%, foram completadas.
Para Patricia Souza dos Santos, chefe da Seção de Encaminhamento ao Mercado de Trabalho do Cepet, o vendedor autônomo virou sinônimo de emprego informal. “Ter a carteira assinada atualmente é um artigo de luxoâ€, destaca. Ela revela que, além das restrições normais, muitas firmas também incluem como item de seleção o candidato não estar com o nome “sujo†na praça. “Não estar incluído nos cadastros do Serasa e do SPC é um critério presente em quase 100% dos recrutamentos, pois as empresas não contratam pessoas que se encontrem nessa situaçãoâ€, afirma ela.
Idade também dificulta
O administrador de empresas bauruense Celso Luis Merloti está desempregado desde 1999. Desde então, diariamente peregrina pelas agências de emprego e consulta anúncios classificados sem sucesso. Depois de tanto insistir por uma vaga de vendedor, desistiu e resolveu partir para tentar estabelecer-se na área administrativa, onde já possui mais de 20 anos de experiência. Com 42 anos, ele considera que a idade também é um dos principais fatores a dificultar a reinserção no mercado de trabalho.
Ele ressalta, ainda, que na grande maioria das vagas em que se interessava as exigências dificultavam a conquista da ocupação. “Muitas pediam carro próprio seminovo, com menos de quatro anos de uso e boa aparência, pois a apresentação era fundamental. Também perdia o interesse quando a vaga oferecia como benefício apenas a comissão, deixando as despesas por conta do próprio vendedorâ€, afirma ele.
Outros fatores que levaram o administrador a recusar muitas chances de emprego foram seu filho, que possui problemas físicos, e a falta de conhecimento de outro idioma. “Ele é deficiente e necessita muito mais do automóvel do que eu. Também já fui atrás de vagas que exigiam domínio de outras línguas, o que também me excluía, pois o pouco que sei aprendi durante o período escolarâ€, conclui Celso.
Para ex-gerente, empresas pensam apenas nos custos e são prejudicadas
O bauruense Pedro Geraldo de Paula Ferreira, desempregado desde agosto do ano passado, já trabalhou como gerente em um banco, um hotel e em uma empresa de eletrodomésticos. Para ele, atualmente as empresas adotam uma postura errada para com seus vendedores. “Elas não têm se preocupado com a qualidade da pessoa que estará representando os seus produtos, e sim quanto ela custará para a empresaâ€, raciocina ele.
O administrador acrescenta ser comum vendedores terem um leque de produtos de várias empresas e destinarem maior atenção àqueles cujas firmas lhe remuneram menor. “Com isso, ele acaba não cumprindo o papel que ele se destinou a fazer e o nome da empresa não estará sendo bem divulgadoâ€, diz Ferreira.
O ex-gerente frisa que, no seu caso, quando encontra uma vaga interessante de vendedor, há uma enorme concorrência. “Além disso, estou com 46 anos e a idade influencia, pois a pretensão salarial de quem está começando é diferente da minha, que estou casado e tenho duas filhasâ€, destaca ele.
A exemplo do administrador Celso Luis Merloti (Leia boxe), também tem percebido freqüentemente as firmas recrutarem interessados para trabalhar como vendedor que tenham carro próprio e sem oferecer qualquer benefício. “Muitos estabelecimentos acabam abusando da situação, pois sabem que as pessoas estão necessitadas e desesperadas por um emprego. Diante das necessidades, o desempregado abraçam qualquer coisa, mesmo que ele vá trabalhar descontente, desmotivado e despreparado.â€
Ferreira salienta que também colabora para essa situação a política federal que o governo impõe às empresas. “Estas acabam efetuando contenções de despesas e cortes de funcionários, pois as firmas acham que os empregados trazem apenas custos em vez de benefíciosâ€, finaliza.